Trago Comigo

A sinopse que se segue foi importada de http://www.cinedireitoshumanos.org.br/2009/f37.php  e o texto seguinte está no post “Vale á pena lembrar do que dói e corrói?”

Trago Comigo Brasil | 192 min |  2009 |

Minissérie televisiva dividida em quatro capítulos, conta a história de um diretor de teatro (interpretado por Carlos Alberto Riccelli) que foi membro da luta armada contra a ditadura militar brasileira (1964-1985), mas que se esqueceu de todo o período em que viveu na clandestinidade. Agora ele aceita o convite para dirigir uma peça sobre o tema e a utiliza como laboratório para atiçar suas lembranças e responder a uma pergunta fundamental: “por que tem a inquietante sensação de ter contribuído para a morte de sua companheira?”. Depoimentos reais e marcantes de exmilitantes contrários ao regime militar, que dialogam diretamente com a ação da trama, tornam essa corajosa produção um marco na TV brasileira.

 

Direção Tata Amaral – Roteiro Thiago Dottori – Fotografia Jacob Solitrenick – Edição Idê Lacreta e Pedro Vieira – Elenco Carlos Alberto Riccelli, Georgina Castro, Felipe Rocha, Emílio Di Biasi, Selma Egrei – Empresa ProdutoraTV Cultura

Vale à pena lembrar do que dói e corrói?

O comentário abaixo não é sobre a minissérie propriamente dita – até porque só vi trechos de capítulos selecionados pela diretora – mas é sobre efeitos dessa exibição durante um colóquio promovido na USP pelo Laboratório de Estudos do Imaginário e Núcleo Interdisciplinar do Imaginário e Memória (LABI– NIME / USP).

Na ocasião, tivemos a oportunidade de receber a visita da talentosa cineasta Tata Amaral, que nos apresentou alguns recortes de capítulos dessa instigante série “de ficção” sobre a memória de vítimas da ditadura militar brasileira. Após a apresentação, houve um rico debate.

Em certo momento, na platéia, uma senhora tomou a palavra e disse estar se sentindo muito desconfortável ali, afirmando que vivera na pele o drama de ter o marido e vários amigos presos e torturados durante esse período e que aquelas lembranças não estavam fazendo bem nem à ela, nem à filha, sentada ao seu lado… A tortura e a violência evocadas pelas cenas do filme estavam suscitando-lhes um profundo mal estar.

Afinal, para quê lembrar disso?! Essa era a pergunta que ecoava…

E após um silêncio difícil, Malu Schmidt (coordenadora do LABI e minha queridíssima orientadora) tomou a palavra e mencionou uma situação por ela vivida há alguns anos, quando fora membro da banca de uma tese de doutorado sobre o tema da ditadura militar no Brasil. Contou-nos que essa mesma pergunta foi feita à pesquisadora na ocasião da defesa, e que um dos colegas argüidores, que também fora vítima da ditadura militar, tomou a palavra pela moça e respondeu:

“Para mim, se o presidente FHC fosse à TV e fizesse um pronunciamento público, dizendo que ao invés de “terroristas”, eu e meu grupo éramos “revolucionários” tentando lutar por um Brasil mais justo, e meu filho pudesse ver o presidente do país falando assim de seu pai, isso valeria toda a dor de lembrar!”

Temos aí uma boa pista pra tentar responder à pergunta lançada: vale à pena lembrar do que dói e corrói?

De fato, o trabalho da memória da violência tende a ser bastante doído para o recordador, requerendo sabedoria e delicadeza no trato. Nesse sentido, penso que as pessoas ali presentes escutaram respeitosa e solidariamente a dor expressa da mãe e da filha.

Mas a resposta parece ser “sim, vale à pena lembrar”, desde quando se possa(m) abrir outro(s) sentido(s) para a história, reposicionando o papel dos personagens e lhes devolvendo, publicamente, uma dignidade extorquida. Nesse quesito, Tata mais do que logrou êxito. 

A lembrança, se reinscrita (publicamente) na história, apesar de fazer doer, pode vir a não mais corroer os sobreviventes, seus pares e descendentes. Talvez, aí resida a esperança de que as vítimas diretas ou indiretas não venham a se tornar herdeiras inconscientes dos efeitos mais perturbadores – porque perpetuadores – da humilhação, da vergonha, do indizível e impensável transmitido sem a devida “metabolização simbólica”, inclusive às gerações que nem nasceram.

Em suma, a aposta é lembrar, inscrever na história e refletir: para não repetir!!

OBS: Essa reflexão complementa a leitura do link “A Morte e a Donzela” e “A Ilha do Medo e os paradoxos da razão ilhada pela memória do insuportável”, além de se apoiar na discussão sobre as transmissões transgeracionais do trauma, proposta por Pierre Benghozi  (1995, 2010).

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