O Mosaico e o Jardim de Leonardo

Dando prosseguimento à leva de posts inspirados em programas culturais recentes, vamos a esse, legendando os termos do título de trás pra frente.

“Leonardo” é o primeiro nome de um talentoso jovem mineiro cujo sobrenome é Moreira. Tem 28 anos e é diretor teatral da Companhia paulistana “Hiato”, que já apresentou duas peças bastante elogiadas: “Cachorro Morto” (2008)  e “Escuro” (2010).

“O Jardim” (2011) é o nome da última peça de Leonardo – vencedora do prêmio Shell -, que após uma temporada no SESC Belenzinho, deve ser reapresentada em São Paulo ainda em 2011, mas somente após viajar para o Rio e outras capitais brasileiras.

Pessoas, acreditem, é teatro do bom e do melhor!!! Eu, que tenho ido pouco ao teatro, quando vou é desconfiada, após tantas decepções… E como não tinha visto nenhuma das outras duas peças da Cia. Hiato, fiquei realmente impressionada com a genialidade da montagem e a profundidade com que trata do tema da memória.

“Mosaico” é o modo como Leonardo organizou a montagem desta peça: a narrativa é feita de colagens cênicas. Os atores encenam 3 cenas simultâneas, obedecendo a um rodízio de ocupação do espaço no tablado (é um teatro de arena), que ao mesmo tempo atende a 3 setores diferentes da platéia.

Os pedaços desse mosaico são passagens significativas na vida de personagens ligados à  mesma família, nos anos de 1938, 1979 e 2011. O solo comum é o jardim de um casarão, capaz de acolher tantas flores, frutos e metáforas, quanto forem as marcas biográficas de cada personagem, em meio às permanências e transformações in-evitáveis operadas pelo tempo.

Engana-se quem pensa que a estrutura em mosaico gera confusão ao sobrepor planos. Ok, há falas e afetos que trans-passam, que partem da cena vizinha e invadem a que está em foco, nela introduzindo (mais) enigmas, que podem tanto confundir, quanto apontar para outras compreensões. Mas curiosamente, talvez porque nossa percepção tenda a fazer arranjos de sentido que destacam a figura do fundo, talvez porque tudo tenha sido minuciosamente orquestrado por Leonardo e bem executado pelos atores, essas visitações-atravessamentos  enriquecem a trama e lhe dão uma complexidade in-dizível que muito se aproxima da vida vivida de todos nós.

O cenário é simples e inteligente: cumpre a função de separar as cenas e organizar os contextos. São caixas de papelão empilhadas, das quais são retirados objetos diversos – herdados, presenteados, supervalorizados, reaproveitados, esquecidos… Objetos guardiões de lembranças (ah, vão me fazer falta!…), suscitadores de sentimentos, narrativas e canções.

Ao longo do espetáculo, vão se abrindo buracos entre as caixas, por meio dos quais é possível fitar outras cenas: vestígios do passado ou intuições do futuro, que podem ou não coincidir com a seqüência cronológica da trama, a depender de onde se está sentado.

Esta peça nos leva a entendimentos e dúvidas, comoção e identificação. Há momentos em que fica difícil segurar as lágrimas… 

Se você tiver a boa oportunidade de ir, além do documento, leve lenço! E aqueça as mãos para muito apaludir!

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