Import Export

Import Export, filme austríaco selecionado para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2009, é contundente. Lembro de tê-lo visto sozinha, numa sessão das 22h, em maio daquele ano. Saí do cinema pesando o dobro. E esse dobro era beeeem pesado, porque era peso de alma. Cheguei em casa naquela noite em profundo silêncio, e ao me deitar, fiquei revirando na cama sem conseguir dormir. Então decidi levantar e escrever algo. Recuperei hoje esse comentário que fiz sobre o filme naquela noite e fiz pequenas modificações. Aí vai ele:

Import Export me deixou emudecida. E ao mesmo tempo inquieta, pensando sobre problemas que atravessam o mundo contemporâneo e golpeiam eticamente os seres humanos: o desemprego, o desenraizamento, a instrumentalização excessiva das relações humanas, a dificuldade de comunicação, a falta de sonhos, a árdua luta pela sobrevivência, a solidão e a velhice em situação de abandono, a decadência do corpo acelerada pelos modos de vida, o desvanecer da autonomia, e a morte em sua dimensão mais concreta: “o fedor”.

E a coisa é de tal modo drástica, que a prostituição, por exemplo, aparece no filme como uma perspectiva mais interessante – em termos de custo-benefício – do que outros tipos de trabalho em condições ainda mais precárias, humilhantes e quase sem retorno financeiro. E fica a questão: até que ponto vale à pena se submeter a esse mundo? Ou será que resistir, mesmo que em contextos permeados de dominação e tarefas maquínicas, é mais digno do que a apatia?

A violência é uma marca do filme: não a violência explícita e pontual, mas aquela disseminada sutilmente. São golpes na alma, golpes humilhantes e crônicos. Quando a velhice se instala e as pessoas se tornam incapacitadas, putrefam nas mãos de terceiros, até morte – que tantas vezes demora a arrematar uma vida há muito esvaziada de vitalidade e sentido existencial.

E se digo “contundente”, é porque o filme trata de maneira realista esta condição eticamente adoecida do ser humano no mundo atual – gente reduzida a ser útil (com prazo de validade); gente totalmente substituível; gente submetida a condições adversas; e, ainda, gente “bem colocada” que testemunha essa realidade e segue vivendo como se a vida do outro não lhe dissesse respeito.

Eis o adoecimento ético. Como alguns teóricos da filosofia e ciências humanas nos lembram, a  palavra ethos, em seu sentido originário, significa “casa”, “morada”. Esse filme, como outros de uma safra recente, enfia-nos goela abaixo o mal estar de, em pleno XXI,  ainda nos depararmos com um “mundo-morada” onde tantos (sobre)vivem sem dignidade nem perspectiva de uma vida melhor, por exemplo com um horizonte mais abrangente do que a mera ampliação do poder de consumo. E isso não é exclusividade do terceiro mundo…

Quanto ao remédio pra esses males, ficam apenas algumas pistas, talvez nas breves passagens em que um ou outro personagem tem a chance de um gesto de delicadeza, de solidariedade e de amizade.

Import Export faz pensar. Mas, sobretudo, faz calar!

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