Show de humor ou de horror?

Nesta última semana, durante uma aula de Psicologia Social, resolvi partilhar com a turma minha  perplexidade após ver um vídeo postado no FB sobre um grupo de “humoristas” que faz propagandas de seus shows com teor altamente preconceituoso. http://www.youtube.com/watch?v=8oSQ6cJlW1w .

Nesse caso específico, o nome deste grupo de “humor”, além de sugerir gargalhadas on line, faz alusão explícita ao grupo fascista Ku Klux Klan, apresentando-se como “KKK” e mostrando um chapéu idêntico ao que cobria a cabeça dos carrascos que pertenciam a tal organização. O moço do vídeo assume que eles fazem piadas com negros, judeus, nordestinos, deficientes e gays, justificando que a casa enche, que o povo gosta.

No calor da discussão em sala de aula e da quase unanimidade das indignações, uma aluna se pronunciou na direção oposta. Disse ser a favor de tal tipo de show, afirmando que o humor é assim mesmo, que essa censura era uma bobagem (tipo a onda do “politicamente correto”) e que é uma hipocrisia negar que o ser humano não ache graça nisso.

Ela ainda mencionou um show americano que desconheço  (“The Aristocrats”) cuja audiência nos EUA é grande: nesse show, impera o humor escatológico e a humilhação. O argumento de minha aluna era de que o humor de mau gosto se  justifica na medida em que “as pessoas não riem de mais nada”. Mais tarde, essa mesma aluna escreveu um texto ratificando sua posição e sugeriu que eu o lesse em sua página do Facebook.

Minha aluna defende que esse tipo de humor é legítimo porque hoje em dia as pessoas não riem mais de nada. (Por que será que não riem?… Não, isso não é uma questão enfrentada)

Mas vejamos: esse argumento está amparado na perigosa lógica de que “os fins justificam os meios”. Supor que o objetivo seja “fazer rir” parece-me um tanto ingênuo… A finalidade, penso, é muito mais dar audiência e lucro aos empresários. E o meio, a humilhação.

Concordo que o humor se nutre de situações eventualmente humilhantes – reais ou imaginadas – em que o ser humano é como que destituído de sua inteligência, sendo abordado como coisa ou como um bicho, que age meramente por imitação ou instinto, abobalhado, sem racionalidade. Nós rimos disso. E rimos do outro e de nós mesmos quando (n)os percebemos em situações que revelam essas nossas facetas abobalhadas.

Agora há uma grande diferença entre rir dessas situações inusitadas – que podem acontecer com qualquer um: seja branco ou preto, pobre ou rico, japonês ou ariano, tarado ou assexuado, nordestino ou sulista, mulher ou homem, hetero ou gay, judeu ou árabe, crente ou ateu, obeso ou magérrimo, presidiário ou presidente, e por aí vai… – e fazer rir de situações de rebaixamento que reforçam estereótipos nada inocentes, porque atrelados a situações reais de violência.

O humor sem limites, como qualquer outro ato humano sem limites, é algo problemático.

Incomodar-se com o tema dos limites – marca da geração questionadora dos anos 60 – se por um lado trouxe a libertação de valores antiquados e a conquista de emancipações diversas, por outro, abriu espaço para novas armadilhas. A maior delas, creio (e isso aprendi com Hannah Arendt), tem a ver com a confusão entre “autoridade” e “autoritarismo”. Ou seja, ao se criticar a lei (autoritária), deixou-se vazio o lugar da autoridade. E diante de nenhuma autoridade, tudo é legítimo e permitido, inclusive os atos mais desumanos.

Ora, criticar a moral é preciso, mas abdicar totalmente dela é um convite à barbárie. Não é à tôa que – como afirma a própria aluna – “os fantasmas e demônios moram nos recônditos de nosso inconsciente”. Se chamados a se mostrarem sem qualquer limite, e ainda motivados por uma situação de massa, tendem a resultar em verdadeiros atos de violência física e psicológica. A história e o cotidiano, infelizmente, têm exemplos de sobra.

Assim, fica claro que o limite que foi transposto nesse tipo de “humor” não é só o limite de um “bom gosto” (como ela defende), mas o limite de um ethos humano. Essa transposição tem consequências que não apenas desumanizam os alvos da humilhação, mas os próprios “comediantes” que, coitados, revelam-se paupérrimos de espírito e criatividade, ao precisarem se promover às custas do rebaixamento alheio.

Se é só assim que sabem fazer piada, melhor é que fiquem de boca fechada!

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