Notas psicossociais sobre a vampirização

Publicado: 10/05/2015 em Situações e reflexões

Preâmbulo

Há dias, uma jornalista solicitou-me que participasse por email de uma entrevista para uma matéria sobre “pessoas sangue-sugas”, que vai sair na sessão de comportamento de uma revista local. Enviou-me as seguintes perguntas, que transcrevo tal como as recebi:

” 1 – Há pessoas que estão deprimidas, infelizes e querem sugar o que você tem de bom. Como a “vítima” pode se proteger sem parecer insensível com os problemas do outro? Ou seja, como ser solidário sem perder o seu sangue, a sua energia boa…

2 – E quando perceber que sua energia está sendo sugada, como reverter?

3 – Também há casos em que a pessoa é do bem, mas tão alegre, tão ansiosa para partilhar experiências, tão tagarela… que também suga suas energias. Como fazê-la perceber que deve ser “menos, muito menos”?

4 – Você já atendeu algum caso de vampiro(a) ou de vítima?

5 – Em casamentos, há vampiros que tiram a energia do parceiro?”

Depois de ler as perguntas, e lembrar que a jornalista havia me liberado de respondê-las todas, enchi uma taça de vinho, tomei fôlego e fui… Se o que vai sair na revista terá ou não a ver com o que disse, só depois saberei. De todo modo, a ocasião me fez produzir esse texto que vai aqui embaixo e que, depois de longo jejum, alimenta este blog pela primeira vez em 2015.

VAMPIRIZAÇÃO

Notas psicossociais sobre a vampirização (ou: “Entrevista com a Psicóloga II”)

É certo que pessoas em estado de infelicidade ou de depressão costumam ter menos energia vital, mas isso não significa que “vampirizem” o seu entorno. Muitas, inclusive, preferem recuperar forças recolhendo-se em ambientes isolados; outras se fortalecem quando (re)encontram sentidos existenciais abalados  ou mesmo perdidos, por meio do engajamento em alguma atividade (artística, religiosa, comunitária, esportiva, profissional, política, terapêutica etc). Portanto, não necessariamente a depressão ou a infelicidade levam a um modo vampiresco de se relacionar. E mesmo se levarem, é bom lembrar que uma “vampirização” pode estar presente também em relações entre pessoas supostamente felizes e bem sucedida$$$.

Por isso, prefiro falar de “modos de se relacionar” – ao invés de “identidades” estáticas, construídas por oposição (tipo: “vampiro X vampirizado”, “algoz X vítima”, “infeliz X feliz”). Acredito que mesmo as relações entre duas pessoas (chamadas diádicas em psicanálise) têm a sua complexidade… Por exemplo, essas relações tendem a perdurar através de uma complementariedade de papéis e uma psicodinâmica que pode ser mais harmônica ou desarmônica, mais cooperativa ou competitiva…

Há poucos dias, um colega citou uma teoria sobre dois tipos emblemáticos de relação diádica por meio da metáfora do jogo de tênis e do jogo de frescobol: ambos se assemelham por contarem com dois jogadores, raquetes e bola em movimento. Mas apesar das semelhanças aparentes, a lógica que rege cada um deles é totalmente diferente: enquanto no frescobol os jogadores facilitam a passagem da bola para evitar que ela caia no chão, no jogo de tênis, ao contrário, tentam derrubá-la no campo do outro: ou seja, enquanto o frescobol é regido pela lógica da cooperação, o jogo de tênis segue a lógica da competição.

tenis casamento

Percebo que em muitas relações, sobretudo nas menos maduras, esta complementariedade tende a se enrijecer: cada um vai se fixando em um determinado papel e deixando de desenvolver novas potencialidades: em si e na relação. Existem relações em que os papéis se cristalizam de tal maneira, que a repetição excessiva de um mesmo padrão suga a energia de um (ou mesmo de ambos). Por isso, penso que, assim como indivíduos, relações também podem adoecer… Relações marcadas pela constante perda de energia (vital e criativa) são relações adoecidas e adoecedoras.

O capitalismo neoliberal globalizado também tem contribuído para (re)produzir relações e situações competitivas desumanas, sugadoras de nossa vitalidade. Acho que não é à toa, por exemplo, que as narrativas, filmes e games de zumbis e vampiros estejam fazendo tanto sucesso por toda parte: de algum modo ajudam a dar sentido a esse mundo caótico, contraditório, que se desenvolve tecnologicamente, ao mesmo tempo em que deteriora ecológica e eticamente; um mundo onde a hiperconectividade coexiste com a profunda solidão…

Acredito que pessoas imersas cronicamente na solidão tendem a ficar desajeitadas na presença de outras, podendo eventualmente abusar da paciência de quem as escuta. Nesses casos, o ouvinte pode se sentir vampirizado, pois vai perdendo a disposição para dar atenção ao outro, já que não há reciprocidade. 

solidão na multidão

Há também os encontros que vampirizam e podemos dizer que neles, uma das partes envolvidas se sente fazendo um esforço imenso, além do habitual, naquela interação social. Quando isso ocorre, cabe perguntar: qual é o contexto da interação?É um contexto profissional ou social? Há uma relação de poder envolvida? Há abertura para que os sujeitos expressem suas diferenças? Estou com disposição para dialogar com essa pessoa? Ou ainda: será que a vida que levo me possibilita ter disposição para ouvir e dialogar com os outros???

Essas questões são fundamentais para que possamos reconhecer a origem da perda de energia que sofremos, e assim podermos buscar meios de enfrentamento e autopreservação.

Em um consultório de psicologia, esse fenômeno é comum. Às vezes, ele se faz presente pelo sono intenso e repentino que um determinado paciente desperta no terapeuta, quando começa a falar. Isso requer que o profissional não apenas encontre estratégias para manter sua escuta atenta, mas que consiga ir além, desenvolvendo um manejo que facilite ao outro se perceber e encontrar outras possibilidades de pensar, sentir e agir…

Por isso, mesmo não sendo uma dica simples, olhar para o contexto, para o(s) outro(s) e para si mesmo é fundamental para que consigamos nos posicionar diante de uma pessoa, de uma relação ou mesmo de um encontro que nos vampiriza. CRISTAL

Não há receita geral que não passe por uma sabedoria adquirida na prática: cada um sabe o quê, como e quando se incomoda com algo/alguém. Há gente que escolhe manter as aparências para não ameaçar o vínculo, mas acaba perdendo a autenticidade e a energia; há gente que opta pelo confronto direto, pela ironia, podendo gerar desconfortos; outros preferem sair de cena, seja dando alguma desculpa, seja assumindo seu limite; há ainda os que persistem em situações desgastantes porque acreditam que ela pode mudar… Em todos os casos, podemos encontrar alívio para as tensões; mas também pagar um preço pela escolha feita. 

Acredito que a sabedoria advinda da experiência e da (auto)análise são ingredientes indispensáveis para que possamos redimensionar nossas expectativas em relação ao(s) outro(s), nos preservarmos – o quanto possível – de situações e relações vampirescas, e ainda desenvolvermos modos de interação com mais energia, criatividade e alegria.

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