Humanos ou moscas?

Publicado: 25/10/2012 em Fimes que marcaram, Situações e reflexões

(Sobre o filme “O Senhor das Moscas” e algumas semelhanças com nossos tempos. Atenção! Há trechos spoilers na parte I. Querendo pular, vá direto à II)

“A massa não é confiável” (Freud, 1920)

I – Sobre a história

Escrita por William Golding, em 1953, e adaptada dez anos depois para o cinema por Peter Brook, O senhor das moscas retrata a convivência de um grupo de meninos ingleses que sobrevivem a um acidente aéreo e se encontram numa ilha deserta no Pacífico, sem que qualquer adulto tenha sobrevivido.

O grupo é composto por garotos que aparentam ter entre 6 e 12 anos. Em meio ao desamparo, dois caminhos de organização grupal se apresentam: o primeiro (da razão) é liderado por Ralph, menino mais velho que se preocupa com a sobrevivência de todos: ele propõe ao grupo o uso de uma enorme concha, cuja função era garantir o direito à palavra por parte daquele que a portasse, podendo-se também soprá-la e assim convocar – através do som – a reunião de todos; a concha simbolizava, portanto, um chamado à coesão do grupo, e o igual direito a palavra. Todos ali eram chamados à responsabilidade por zelar pela sobrevivência e pela boa convivência em meio a aquele lugar inóspito,  e sem qualquer resquício ou indício de civilização. 

Ralph simboliza a racionalidade e os conhecimentos herdados. Sua proposta para saírem daquela situação era a de que mantivessem uma fogueira acesa, para que fossem localizados pela fumaça produzida. Podendo driblar a fome com a coleta de frutos, defendia a prioridade de se manter o fogo aceso e visível aos eventuais aviões que cruzassem o céu.

Contudo, a maioria dos meninos acaba aderindo a outra liderança (ligada ao prazer mais imediato). Trata-se de Jack, que se rebela contra Ralph, impondo-se como chefe pela sua virilidade e força física. Em certo momento, ao se aventurarem em busca de caça, Jack e seus seguidores negligenciam o cuidado com o fogo, tarefa que estava sob sua responsabilidade. Ao invés disso, deixam-no apagar e saem para caçar um enorme mamífero. Na volta, envaidecidos com o próprio feito, cortam a cabeça do bicho e espetam-na em um pau: esse é o “Senhor das Moscas”.

A oferta da carne aos demais, naquelas condições de fome e fadiga, reveste o gesto de uma aura de superioridade humana sobre a natureza selvagem. A comilança parece suavizar a impotência dos meninos frente à situação, e a popularidade de Jack cresce. A maioria parece esquecer que tal decisão acarretou a perda da oportunidade de serem resgatados, já que um avião sobrevoara a ilha enquanto isso acontecia.

Com o tempo, o grupo comandado por Jack vai crescendo e apresentando um mesmo padrão de comportamentos: os meninos passam a andar em bando, com os corpos e rostos pintados, aludindo às sociedades tribais. Se antes entoavam os cânticos religiosos aprendidos na Inglaterra, com o passar do tempo passam a cantar músicas repetitivas, com ritmos bem demarcados e letras que enaltecem a própria vida e o prazer imediato através da dominação: da natureza e dos supostos inimigos.

Certa noite, enquanto os meninos pintados dançavam empunhando tochas, lançando fogo ao mar, correndo e gritando ao redor do fogo – como numa catarse coletiva -, eles escutam um barulho na mata. Comandados pelo líder, atacam impiedosamente o suposto inimigo, que em meio à escuridão, é confundido com um animal. Mas, tratava-se de um deles, que nesta “confusão” é brutalmente assassinado.

A situação vai se agravando na medida em que a prática da violência, que a princípio parecia dirigida à caça, começa se propagar e se tornar natural: passa a ser o tratamento dispensado aos animais supostamente perigosos e a aqueles que agem ou pensam diferentemente do padrão. Essa intolerância à diferença vai sendo gradativamente absorvida no interior do grupo como algo necessário à coesão grupal. Para justifica-la, fomenta-se o medo em relação ao que vem de fora (sejam as criaturas bestiais, sejam os inimigos dissidentes). Trata-se, nitidamente, de uma metáfora que alude aos regimes totalitários nazi-fascistas.

Diz a psicanalista Maria Rita Kehl: “Os indivíduos que participam de uma formação coletiva sob o comando do representante de algum ideal comum são capazes de atos que, se estivessem sozinhos, não se atreveriam a cometer. O superego individual tira uma folga em favor do superego coletivo. Em nome deste, o sujeito dissolvido na massa se precipita em atos extremos que jamais – ou sempre, em segredo – sonhara praticar.”  (2011, p.146).

II – E o que isso tem a ver com nossos tempos?

Pode parecer absurdo associar o mundo contemporâneo à história fictícia que se passa numa ilha perdida, onde um grupo de crianças age selvagemente. Contudo, muitos de nós temos vivido como seres ilhados (ainda que virtualmente conectados), resignados a sofrer e/ou testemunhar situações de violência, recorrendo a atenuantes individuais que, ao menos por um tempo, driblam a percepção do vazio e da irracionalidade de nossos tempos.

A mídia passou a ser a principal maneira de “sabermos”  como são os outros: os golpistas, os pedófilos, os assassinos, os heróis etc. Ficamos à espera de que  governo ou alguma ONG resolva esses problemas. Ou já nem acreditamos mais que tenham solução, afundados que estamos na descrença e na impotência. Passamos reto pelo mendigo tanto quanto pelo vizinho sobrecarregado com sacolas de compras. E de braços cruzados, vamos maldizendo, estereotipando, justificando, esquecendo, e nos protegendo nos nossos casulos privados.

Subutilizamos a inteligência humana quando deixamos de cultivar a solidariedade e a coragem necessárias para o enfrentamento do que verdadeiramente ameaça e aliena: senão a nós diretamente, a nossos próximos e descendentes, herdeiros de nossa in-capacidade de reconhecer e lidar respeitosamente com a diferença.

Há quem diga, e eu concordo, que o conformismo é o traço de comportamento mais comum da organização do mal no mundo moderno. Se a ação só encontra expressão quando consonante ao líder e ao grupo, ela pode se omitir – e assim agir passivamente – legitimando práticas de dominação, repressão e mesmo de aniquilação do diferente.

Lembremos do experimento do psicólogo social Stanley Milgran, realizado na Universidade de Yale na década de 1960. Dizia-se que o experimento era sobre o efeito da punição sobre a aprendizagem, mas na verdade, era sobre a capacidade do ser humano infligir tortura num desconhecido “em nome da ciência”. Os resultados foram estarrecedores! 62,5% dos voluntários obedeceram às ordens de disparar choques elétricos – com a mais alta voltagem – nos sujeitos supostamente testados que “erravam” os testes (eles simulavam as dores, conforme combinado com o pesquisador). Ao obedecerem as ordens do pesquisador, mal sabiam que eram eles os verdadeiros sujeitos da pesquisa…

Alguns poderão dizer que agem de maneira crítica e independente, ainda que sejam rechaçados pelos demais. Como seria bom se a maioria fosse assim… Mas ao contrário, outros experimentos em Psicologia Social apontam também para o fato de que a maioria cede, ora mais, ora ou menos, à pressão social.

Ou seja: a autonomia para o sujeito se posicionar, e eventualmente destoar do consenso, vai dando lugar à heteronomia – gerada pelo anseio de pertencimento via apagamento da diferença e conformismo com a ordem vigente. Cabe lembrar que este “não posicionamento” é, afinal de contas, um posicionamento. Como bem lembra Sartre, o ser humano é condenado à liberdade, inclusive a de se omitir por detrás da opinião alheia.

Há, ainda, os que dizem que agem “por si” e esse “por si” aparece amalgamado a um “para si”. Alain de Botton, filósofo suiço contemporâneo, lembra que o sujeito moderno tem apreço pelo sentimento de amor, contudo, ele descreve esse  amor como que banhado de um narcisismo.

Será o narcisismo “a patologia” da contemporaneidade?

De fato, mesmo quando o tema é o amor, é raro que ele esteja voltado para um valor que transcenda a existência individual – como o amor por um bem comunitário, o amor de Antígona, ou ainda o amor desapegado de algumas religiões. Esse amor, infelizmente, tem perdido para o amor pelo que é privado, romântico e mesquinho, que em geral busca na pessoa amada a grande oportunidade de se preencherem todas as necessidades afetivas do sujeito.

O anseio de pertencimento à comunidade tampouco foi deixado de lado, o que mudou foi o senso de comunidade, que hoje está centrado no culto ao sucesso profissional. São inúmeras as ocasiões sociais nas quais a resposta para a frequente pergunta: “O que você faz?” determina acolhimento ou abandono da conversa. Com esse nível de discriminação, não causa surpresa que muitos de nós decidam se atirar com tudo nas carreiras.

O narcisismo se torna patológico quando a autoafirmação (individual ou grupal) vai corroendo a razão, a sensibilidade e o acolhimento das diferenças. E como isso é comum também nesse nosso mundo de “tribos” e massificações… Temos nos tornado indiferentes à dor alheia, temos banalizado o mal, atrofiado o senso crítico e pra completar, tornamo-nos reféns de um imediatismo na lida com a agressividade e com o prazer. Olhando desta perspectiva, estamos como os meninos: naufragados. Quiçá tenhamos nos tornado moscas, regidas por instinto, competindo por um pedaço de carne, sem pensar no outro, e nem no amanhã…

Fica então a pergunta: nosso mundo está mais povoado de pessoas ou de moscas?

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comentários
  1. Vivemos em uma sociedade onde a alienação humana em prol de um grupo de convívio, de uma ideia midiática ou mesmo para manter valores e costumes capitalistas inflexíveis é estimulada. O Brasil é um grande exemplo dessa alienação. Aqui, a massa populacional esta muito mais interessada em assuntos relacionados ao futebol do que aqueles voltados para a educação, saúde cultura… E como se não bastasse, aqueles que tentam pensar com um pouco mais de consciência sobre os problemas sociais são chamados de pessimistas! ( quem assistiu a ultima propaganda da cerveja Brahma sabe bem do que estou falando!).

    É importante saber distinguir o efeito dos diferentes valores grupais dos nossos próprios valores, tendo consciência suficiente de que o movimento das massas pode ser muito destrutivo quando não elaborado individualmente.

    Gostei muito do seu texto Thaís! Parabéns!

    • adeuscafofo disse:

      Que bom ver a sua participação por aqui também, Gabi. Digo também porque as “de lá” são sempre enriquecedoras.

      Obrigada pela visita e pelo pertinente comentário.

      Um beijo pra vc, moça!

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