Comparação Infeliz

(OBS: Carta feminista inspirada em fatos reais a mim relatados pela ex namorada de Julio)

Caro Julio,

Mais uma vez, tudo corria bem nesse nosso “reencontro”, até que, de novo aconteceu: algumas palavras suas me caíram mal. E sendo como sou, aproveito a ocasião do meu silêncio no fim da noite abreviada, mais o tempo de ruminação do dia seguinte, para buscar compreender o porquê de tal indigestão.

Te escrevo supondo estar devolvendo algo que, de algum modo, também te pertence, porque produzido por você. Espero verdadeiramente que, ao tomar ciência disso, você possa se aprimorar na arte de bem dizer, pra quem quer que seja, sobretudo para as mulheres, seres em geral de apurada sensibilidade. Por isso, o que tenho a dizer parte de dois lugares distintos e simultâneos: um particular e outro coletivo, de gênero.

Comecemos pelo segundo: como mulher, não posso deixar de dizer que achei o “ó” sua metáfora machista de comparar sua atual namorada e eu com comidas. Melhor deixar esse tipo de “piada” para conversas entre homens (que sejam também machistas), longe de mulheres. Ou no mááááximo – e ainda assim acho contra- indicado – perto de mulheres que não tenham participado da sua biografia de relacionamentos afetivos.
Não sei o que sua namorada acharia de ser comparada a um prato de “arroz com feijão”… Suponho que não gostasse. De minha parte, detestei ser comparada à uma “comida mexicana”, por mais bem temperada e exótica que seja. E o pior é que naquela hora, você provavelmente achou que estava tecendo um elogio a mim. Só que o efeito foi o contrário…

Para além do repúdio à idéia de você nos colocar, eu e ela, na condição de mulheres-comidas a serem consumidas, saciando – ou não – o seu apetite de macho comedor, devo dizer que, fosse eu levar a sério sua metáfora, e diria que prefiro, sinceramente, ser um bom prato de arroz com feijão!

E aqui entramos na dimensão mais pessoal do assunto: que homem (que não os mexicanos) agüentaria comer comida mexicana todos os dias?! Por outro lado, meu caro, a maioria dos brasileiros – inclusive alguns dos homens que julgo interessantes no momento – preferem estar ao lado de “mulheres arroz feijão”.  Até porque, vejamos: é uma digestão fácil, garantida, nutritiva e faz a vida bem funcionar. Já a comida mexicana, apimentada que é, desce mais difícil…

Pois bem: sei que tenho lá meus (des)temperos, e não são apenas intelectuais (perdeste a depilação e a langerie especial selecionada para a “prometida” noite de ontém, antes de você estragá-la), mas enfim, ficar nesse lugar da amante inteligente, instigante e deliciosa, que se encontra de vez em quando e “apimenta” a vidinha formatada de um homem compromissado com uma “mulher arroz feijão”, definitivamente, não me apetece!

Desta vez, quem (não) tem apetite sou eu!

Ainda usando sua comparação infeliz, Julio, acho que teria mais a minha cara ser um delicioso e caseiro arroz com feijão de dia, e uma saborosa comida bem temperada à noite, para uma pessoa que também me nutrisse com sabores, texturas e idéias das mais diversas: sem clandestinidade ou intervalo de tempo previsto para encerrar a refeição: isso sim me parece uma boa pedida!

Espero que você possa me compreender e não pisar na guaca mole de novo…

Um beijo, azedo,

Maia

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