Felicidade Customizada

Como pode tanta gente reclamar do trânsito em São Paulo, pensando apenas nos infindáveis congestionamentos, nos moto-louco-boys, no ar excessivamente contaminado e na selvageria que impera??

Ora, tenho visto tantas famílias alegres e sorridentes, em total harmonia, circulando pelas ruas e avenidas, junto com seus gatos e cachorros, também tão contentes…

De uns tempos pra cá, comecei a me irritar com essas familinhas contentes e estilizadas nos para-choques e capôs dos carros dentro dos quais, provavelmente, devem rolar altos quebra-paus, até porque isso faz parte da convivência familiar.

Vejo que hoje virou bem comum querer diferenciar-se mostrando ao mundo que se tem uma família feliz.

Por que será que isso tem me incomodado? – perguntei-me, no engarrafamento da 23 de maio. Será porque eu não tenho uma família assim, fundada em um núcleo matrimonial estável, com filhos fofos e obedientes? Será que é porque não dei continuidade genética à minha especial existência nesse mundo? Mas… Será que é realmente isso o que quero?…

Então fui levada a pensar que essas familinhas operam também como uma espécie de propaganda subliminar. Propaganda de uma “mercadoria” a se adquirir ao longo da vida, sem a qual não existe felicidade possível.

Afinal, em meio a tantas angústias contemporâneas, à crise das utopias coletivas, ao imediatismo, ao medo que invade a vida das pessoas nas cidades, à violência que se espraia de disfarçadas formas, junto à profusão quase patética de receitas de bem estar e sucesso, nada mais coerente do que propagandear a felicidade que existe na esfera privada: a família!

E vejam que assim como sabão em pó e absorvente,  existem variadas opções: um, dois, três filhos;  sem bichos; com bichos, com papai executivo (usa gravata), papai esportivo (segura uma raquete), papai que faz churrasco, mamãe jovem e ainda gatinha, mamãe de bolsa e sacola de compras, coraçãozinho entre o casal, mãos dadas entre todos, e a cena é tão harmônica, que a gente quase esquece que, muitas vezes, o papai tem uma amante, a mamãe se vinga estourando-lhe o cartão de crédito em futilidades, eles ficam com frequencia de saco cheio um do outro, os filhos mimados são uns pentelhos gritando “eu quero” e “eu quero AGORA!”, o dog late a noite inteira e mija a casa toda…  Melhor também esquecer que, em família, as pessoas envelhecem, adoecem, se desentendem, brigam…

Independente das composição do adesivo, fato é que na maioria deles, todos vão ficar bem na fita: até o gato vai rir! E assim reproduzirão o ideal – e a crença de que esse ideal é o único e bom – da família nuclear patricarcal moderna, iniciada com o Capitalismo.

Por acaso vcs já viram algum adesivo de família assim?

Raríssimas vezes vi famílias mais “reais” por assim dizer, ou adesivos com casais do mesmo sexo, com ou sem crianças. Nunca vi adesivos com três ou mais pessoas adultas e juntas (que não fossem o vovô ou a vóvó). E a única vez em que vi um adesivo com uma pessoa só, era um homem  ao lado de uma fila descrescente de garrafinhas, rs.

Será mesmo “impossível ser feliz sozinho” – como canta o João? Acho que não tem receita não, tenho visto pessoas mais felizes que tristes, e que fizeram precisamente esta opção. (Aqui, meu queridíssimo vizinho merece menção).

Vejam, sei que é imensa a alegria vivida no seio da família. Apenas percebo que também muitas pessoas enfiadas em rotinas familiares chatas, repletas de tarefas , e dedicadas excessivamente a demandas alheias, muitas vezes vão ficando esgotadas, afastadas de seus projetos, embora se dizendo recompensadas – do que não duvido. Assim como tampouco duvido de que pra muitas delas, felicidade é justamente poderem ficar um pouco sozinhas, escapar…

Enfim, para não me estender mais e ir fechando essa reflexão, penso ser importante lembrar que existem arranjos familiares diferentes desses que circulam sorridentes pela cidade, que mesmo esses sorridentes também choram e gritam, que existe felicidade possível também fora da esfera da família, e ainda, que família pode ser, para alguns, o caminho contrário ao da felicidade. Só pra lembrar…

Por fim, aproveito para fazer uma ressalva: pode ser que tudo o que disse seja uma grande bobagem em vários casos. Colar um adesivo desses no carro pode ser simplesmente um singelo gesto de amor aos filhos por parte dos pais, fiadores da transmissão da esperança e da convivência social, tão necessárias às novas gerações.

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