Onfray x Freud

Publicado: 13/03/2014 em Situações e reflexões

Onfray x Freud  

Este post foi escrito com base num debate realizado na rede social sobre a publicação de uma entrevista com o filósofo francês Michel Onfray, que critica as ideias do pai da Psicanálise. http://fronteiras.com/canalfronteiras/entrevistas/?16%2C193

Vi Onfray quando veio ao Brasil fazer esta conferência, em 2012, no “Fronteiras do Pensamento”. Seus argumentos pareceram-me muito bem embasados em pesquisa documental, além de filosófica e cientificamente contundentes. Um monte de psicanalistas (possivelmente os mais ortodoxos) saíram no meio batendo a porta, indignados com a desconstrução que ele fez do “guru”.

Mas o mais curioso é que, apesar de apontar as contradições silenciadas entre o que Freud dizia nas cartas e nas obras, apesar de mirar a vaidade/ambição e o uso da cocaína de Freud como motores da expansão de suas ideias, e apesar de afirmar a fragilidade teórica das universalizações indevidas que ele fez (como o Complexo de Édipo, entre outras), o próprio Onfray, em algumas discussões recentes (refiro-me a algumas presentes em seu livro “A potência de existir”, 2012), vale-se de contribuições freudianas em seus raciocínios. Por exemplo, ao discutir a origem do machismo, Onfray usa a ideia de “apoio” (fundamental para entender o conceito chave de “pulsão” em psicanálise) e defende que a limitação do prazer masculino em relação ao feminino (relacionada a condicionantes biológicos) pode ter levado o homem a reagir (inconscientemente, rs) a esta “diferença sexual” que acarreta uma desigualdade, por meio de uma esculhambação (palavra minha, tá?) do feminino.

Seria isso uma espécie de ressentimento recalcado, rs? Ora, a equação freudiana teria então sido invertida por Onfray: da “inveja do pênis” passaríamos à inveja da vagina, do clitóris, dos orgasmos múltiplos, da forte influência cultural na construção da vida erótica, da possibilidade de gestar, parir, amamentar e por aí vai…

Mas deixando de lado esta instigante discussão, resumiria assim o que penso: 1 – não acho que é o caso de dizer quem está certo e quem está errado (há “bolas dentro” dos dois lados); 2 – sim, é preciso ter um olhar crítico para os (efeitos de) discursos que concebem sujeitos e fenômenos sociais de maneira descontextualizada e a-histórica; e apesar disso ocorrer no meio psicanalítico (mas não só), nem toda psicanálise é assim; 3 – não há como negar a importância da psicanálise (por mais que produza “igrejinhas”, que seja datada, burguesa, eurocêntrica,  e heteronormativa em sua origem), pois ela abriu novas possibilidades na história do pensamento ocidental moderno, úteis inclusive a quem as critica, como Onfray.

Por fim, me pergunto: será que Onfray já deitou num divã? Afinal, a boa compreensão, para ser transversal, precisa também da horizontal, não?

 

psicanalista

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