Memória e História: fragmentos de conversas feicebuquianas

Nesses dias de calorosas discussões políticas feicebuquianas, uma me fez pensar no que já vinha pensando. Ou melhor, retomar e sintetizar esses pensamentos que me habitam há cerca de um ano.  Alguns amigos de FB, ao comentarem uma reportagem que postei, crítica à presença da PM no Campus da USP, se posicionaram a favor, em ternos gerais, defendendo a idéia de que a PM é um “mal necessário”. Além disso, afirmam que aquela PM (da época da ditadura) não existe mais, nem aquele campus existe mais. Uma das opiniões – maquiavélica, assumia a autora – era de que o discurso que associa a ação da PM hoje à época da ditadura poderia ser uma espécie de “saudade” daqueles tempos. Ironia ou paradoxo? – ela se pergunta.

Transcrevo abaixo, com poucas alterações, o que esse comentário me fez pensar.

Ao mencionar a “saudade” como paradoxo ou ironia, esta amiga acabou me lembrando de um tema central à Psicologia Social: a Memória. Em maiúsculo mesmo, rs. Talvez, dizer o “Trabalho da Memória” seria mais preciso.

A saudade, no caso, ao invés de impulso paradoxal por um possível gozo masoquista (lembrar-se de um trauma), poderia ser a oportunidade de conduzir uma nação à elaboração consciente de algo que ficou silenciado, excluído das narrativas, nas sombras da história, talvez porque também na sombra da condição humana.

Falo da dominação, da violência e da tortura exercidas nesse período para que uma ordem geral, imposta à força, fosse mantida. Aliás, os arquivos atinentes às práticas policiais nesse período, no Brasil, ainda não foram abertos. Há uma luta em curso pela instauração das “Comissões da Verdade”, já ativas em países vizinhos também vitimados por ditaduras militares. Muitos desses arquivos foram eliminados; afora as distorções que permeiam a história oficial (que privilegia o ponto de vista das classes dominantes). Veja só que curioso (soube disso via FB): o reitor da USP, nesses dias, inaugurou um monumento na Praça do Relógio em homenagem à “Revolução” de 64. Revolução?! Esse é o nome que ele dá a um golpe militar que instaurou uma ditadura?! Dizer isso é ASSALTAR a nossa história!

O Trabalho da Memória exige brigar também pela sondagem de outros pontos de vista diferentes do oficial, para além dos estereótipos e da opinião de senso comum: é o direito a outros discursos e compreensões, que em geral ficam emudecidas, silenciadas, marginalizadas, criminalizadas. A saudade, então, é de alguma coisa que não pôde vir a ser; saudade de verdade, espécie de “carecimento radical”, como diria Agnes Heller.

No sentido de tamponá-la, contribuem os grande veículos de mídia, que dão munição de sobra para os discursos que fomentam medo e,  “respaldados juridicamente”, defendem ações autoritárias, excludentes, privatistas  e terceirizadoras de responsabilidades/decisões políticas. Justificam que isso é necessário, pois não há outro jeito: o público está perdido!

Enfim, pra não mais me estender, penso que recuperar nossa história é o único jeito de compreendermos suas (des)continuidades, lacunas e repetições, ainda que travestidas. Se não deitarmos nesse “divã coletivo”, aquilo que foi sombrio e nefasto permanece vivo e com grandes chances de se repetir.

Obrigada, amigos de FB, por mais essa oportunidade de me fazerem refletir.

 

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