Um Homem Sério

Reflexões sobre o filme Um Homem Sério, dirigido pelos irmãos Coen

Por que sério? – me perguntei. Sério porque metódico? Sério porque emoldurado por condicionamentos? Ou sério porque sem mistérios?… Quando eles não vem por bem… Ai, ai, ai!

Larry, o protagonista, parece não enxergar nada à sua volta. Vive sua rotina como um cego ao seu entorno. Contudo, é na medida em que essa vida estruturada começa a ruir, que ele começa a ter questões e vislumbrar outros modos de perceber o que se passa. Meio no tranco mesmo. E, infelizmente, tarde demais e com inabilidade suficiente para reverter o rumo das coisas. Mas ele tenta!

Frente aos seus problemas e angústias, Larry vai em busca do conselho de especialistas: da jurisprudência, da medicina, da religião. Mas as respostas não dão conta de impedir o curso dos acontecimentos ruins, e cada vez mais sua vida familiar, conjugal, profissional, e por fim sua saúde, vão ruindo.

Os momentos preciosos do filme são aqueles em que algo da ordem de uma razão atípica, quase  irracional, aflora e quebra com o padrão de expectativas que temos sobre a linearidade do personagem, como por exemplo, o sonho no qual o seu rival lhe diz para ter raiva; e a aproximação erótica com direito a fumar um baseado com a vizinha gostosa.

O filme tem mesmo um apelo para o humor negro: é lentamente trágico, e confesso que em alguns momentos, me peguei rindo. Por exemplo, diante do misterioso caso contado pelo rabino sobre o “save me” calcado no verso dos dentes do goy. Uma história que impulsiona o personagem (e o espectador) a tentarem decifrar o enigma, que por sua vez, fica sem resposta: o mistério persiste, com elementos que golpeiam a vaidade judaica de um povo que se supõe “escolhido”. Afinal, por que uma mensagem assim viria da boca de um goy?! Tal como esse enigma é narrado (e interrompido), perde-se sua aura mística e o coração de Larry fica ainda mais atormentado.

Parece que o sentido do mistério é sustentar o sem sentido. Mas isso ocorre de um modo pra lá de cruel, porque sustenta o sem sentido de uma instituição que deveria servir para prestar acolhida espiritual aos seus fiéis.

Nesse ponto, essa dupla de diretores judeus é ferina na crítica. Esculhambam o judaísmo, escancaram seus traços conservadores, performáticos, vazios. (Mais fácil criticar o judaísmo sendo um judeu, pelo menos não se corre o risco de ser acusado de anti-semita…)

Mas eu não sosseguei: numa tentativa de dar sentido ao mistério da desgraça de Larry, pensei que o fim do filme dá alguma pista, naquela cena do diálogo entre seu filho e o mais velho e sábio dos rabinos. Recém egresso do ritual de “leitura” da torá no seu barmitzvá (momento em que fora salvo de um vexame graças ao seu talento musical), o moleque vai à sala do rabino e lá ocorre um diálogo simples, pausado, em meio a uma atmosfera de sacralidade.

E então o rabino afirma que, quando tudo está ruindo, o que importa mesmo é… E aí cita nomes. Imagino que esses nomes sejam dos músicos da banda predileta do garoto, pois suas palavras acompanham o gesto de devolução do walkman confiscado dias antes, durante a aula chata de hebraico. O que importa, então?

O fato de que alma precisa de alimento. Isso sim pode nos dar alguma razão de ser, inclusive para “sermos bons”. Moral da história, se é que tem moral: em meio aos condicionamentos sociais e religiosos, há que se recuperar – da melhor maneira possível – o mistério da vida. Como? Possivelmente buscando o que verdadeiramente nos toca a alma, ainda que isso nos leve ao olho do furacão (ou a um belo de um incêndio, rs…)

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