Mas os homens também p(h)odem amar?

Entre uma cerveja e outra da noite de sábado, conversando com um amigo, perguntei-lhe qual seria a origem da dominação.

Eu, apoiada em breves leituras recentes de autores marxistas, supunha que a descoberta da agricultura teria possibilitado aos homens produzir mais alimentos do que o necessário para a sobrevivência de si e dos seus. Começaria então a divisão do trabalho: alguns se dedicariam ao labor que produz bens de consumo para a sobrevivência, enquanto outros se dedicariam à reflexão, à produção de conhecimento, às artes, e por aí vai. Pronto! Simples assim: a divisão do trabalho seria a origem da luta de classes e da dominação: os que ficaram restritos ao trabalho físico de um lado, insatisfeitos, enquanto os demais estariam ocupados com o espírito, incluindo a produção de explicações e justificativas para a divisão do trabalho.

Eis que meu amigo mencionou o “Ensaio sobre o Dom: forma e razão das trocas nas sociedades arcaicas”(1924), do sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss. Uma das idéias sugeridas nesse trabalho é a de que o ato de “dar” é uma necessidade humana: ainda que a doação, no caso da comunidade estudada por Mauss, parecesse um desperdício, havia ali uma dimensão simbólica que fortalecia a idéia do doador como um ser que não é/está carente: ao dar, fica re-afirmada a sua humanidade.

Ora, lembrar disso é lembrar que a economia se faz embasada nas necessidades biológicas, mas não só: os homens precisam doar, aceitar e trocar. Isso humaniza, coloca os seres humanos para além da condição de bichos que apenas agem por instinto ou carência. Visto assim, deixamos de operar com uma lógica talvez viciada, de que aquele que “dá” ao outro (por exemplo a força e/ou o produto de seu trabalho) está oprimido, enquanto quem recebe está explorando o pobre coitado de quem faz. Ao contrário, podemos até pensar que aquele que recebe tem confirmada a sua condição de “carente”, o que o impulsionaria ao ato de retribuir, afirmando-se como também capaz de ofertar, ou seja, existir para além da necessidade e do desejo, para além de relações instintuais ou meramente utilitárias. (Disso também fala o sociólogo francês Pierre Bourdier, décadas mais tarte, com a idéia das “trocas simbólicas”)

A dominação, dizia meu amigo, é apenas um dos modos possíveis de se lidar com as diferenças entre as pessoas. Ou seja, a divisão do trabalho não necessariamente gera dominação.

Vocês devem estar se perguntando: e o que isso tem a ver com o papo dos homens também p(h)oderem amar? Então, vou chegar lá… Dizia ele que outro modo possível de as pessoas se relacionarem é o amor. Nesse instante, eu, que ando curiosa sobre as origens das coisas, reformulei a pergunta: “Então qual é a origem do amor?”

E pra responder a essa perguntinha fácil, ele me sugeriu a leitura da obra “As duas chamas”, de Otávio Paz. (OBS: uma chama é a do erotismo e a outra, do amor).

E, partindo da premissa de que o amor é constructo social, perguntei: “E o que é tão revelador nessa obra?” Sorrindo, ele me resumiu mais ou menos assim: “O amor só se tornou possível nas sociedades em que as mulheres lutaram pela igualdade, conquistaram direitos, se emanciparam, se mostraram capazes de se colocar (micro-) politicamente nas relações e trocas, também no campo erótico. Ou seja, as mulheres saíram do papel restrito de existirem para o(s) outro(s): seja como meramente cuidadoras ou como objetos sexuais, satisfazendo necessidades e desejos alheios.

Depois disso, meu amigo acrescentou: “Por isso que nós temos tanto medo de vocês… Mulher que deseja assusta, faz a gente se sentir fraquinho!…”

“Bonito isso… Ainda mais vindo de um homem…” – Pensei.  E eu que achava que a emancipação feminina era um fenômeno historicamente recente. Que exemplos serão esses discutidos por Otávio Paz? Qual seria, então, a origem da emancipação feminina? Será que faz sentido falar em uma origem?

Conversa boa faz isso com a gente: saímos com outras perguntas…

PS – Na mesma noite, quando cheguei em casa e cumpri o ritual de abrir o Facebook, vi uma notícia interessante: o “Joelhaço”: homens que há quatro anos pedem perdão às mulheres de joelhos, na semana do dia internacional da mulher. http://oglobo.globo.com/cidades/sp/mat/2011/03/10/homens-de-joelho-pedem-perdao-as-mulheres-em-sao-paulo-923983589.asp

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comentários
  1. Anselmo Chaves disse:

    Oi, Miss. Olha eu de novo por aqui! Saudades de nossas conversas e das nossas trocas de presentes. Aliás, na parte em que você escreve que considera a necessidade de doar, aceitar e trocar algo que nos coloca para além da condição de bichos, fiquei pensando (encare isso como um exercício de tensionamento do pensamento, ok?, isso se eu não tiver interpretado adequadamente seu belo texto) se tal necessidade não seria expressão justamente do instinto animal de auto-preservação, uma vez que o ato de dar, aceitar e trocar produz como efeito uma aliança que aumenta a potência de ambas as partes e, consequentemente, as conserva – e, de quebra, possibilitam que elas resistam mais fortemente aos inimigos e obtenham auxílio-mútuo em tempos de seca. Não quero com essa hipotetização desconsiderar o prazer e o afeto proporcionado por essa relação de doação, aceitação e troca, pelo contrário, pois o aumento de potência pode muito bem ser sentido justamente como prazer e afeto, de um lado, por aquele que dá e se sente poderoso e grato em relação àquele que recebe, e, de outro, por aquele que recebe e se sente apoderador e em dívida em relação àquele que dá. De todo modo, a utilidade bem pode ser um elemento indispensável nesses fenômenos de dádivas, ainda que eles não se restrinjam a interesses utilitários – pois sem prazer e afeto como poderiam se sustentar senão em condições muito especiais? De todo modo, os gatos, com seu comportamento de oferecer presentes “deliciosos” (lagartixas, entre outros quitutes) para o/a seu/sua dono/a, não nos ensinam que a dádiva não é atributo ou capacidade única dos humanos? Enfim, questões para pensar e, na maioria das vezes, para desconstruir. Depois dessa espiadinha em um dos cômodos acolhedores de seu espírito, volto perfumado, de mãos dadas com Foucault, à minha caverna da Antiguidade . Beijos saudosos.

  2. adeuscafofonofogo disse:

    Lorde, querido, sempre instigantes tuas linhas de inspiração nitzschiana. Sim, parece que seguimos com questões e dilemas de acentuação: será no rabo do jacaré ou na cabeça da lagartixa?

    Venha sempre me espionar nos cômodos a-colhedores de meu espírito: certamente o aroma que você leva mistura-se ao raro perfume bom que você traz.

    Saudades de nossas tardes na tua bat caverna com vista por mar.

    Até já!

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