A Ilha do Medo

Shutter Island, EUA, 2010. Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Laeta Kalodridis. Baseado em livro de Denis Lehane. Com Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Max Von Sydow, Bem Kingsley, Patricia Clarkson e Lack Earle Harley. WARNER.

A Ilha do Medo e o paradoxo da razão ilhada pela memória do insuportável

Para quem ainda não viu o filme, advirto que meu comentário se apóia em um spoiler, ou seja,se você prefere a supresa, deixe essas linhas pra depois… Para quem já viu, e tem vontade de pensar sobre o filme, siga-me! Quem sabe você me ajuda a enxergar essa obra por outros ângulos… E para aqueles que não viram, mas não se importam em saber do filme antes de o apreciarem na telona/linha, segue um breve resumo para que, minimamente, você possa me acompanhar nessa incursão reflexiva.

Di Caprio encena um personagem que vai até uma Ilha-Presídio, onde se situa um manicômio judiciário. Ele é viúvo, ex militar e policial, em uma importante missão (uma explícita e outras implícitas, reveladas aos poucos). Leva consigo, além da astúcia e coragem de um agente federal norte americano, a marca traumática das lembranças dos campos de concentração nazistas, pois que servira no exército durante a segunda guerra. Essas lembranças o atormentam fortemente, misturando-se a fragmentos de sonhos, visões e memórias de experiências.

No navio a caminho da Ilha, ele conhece o parceiro, policial que o acompanhará na missão de descobrir o paradeiro de uma suposta paciente/presa que fugira – essa era a missão explícita. Contudo, as razões de estarem ambos ali, bem como a lealdade do colega, vão sendo colocadas em xeque na medida em que Di Caprio vai ficando perturbado por ouvir vozes, ter visões, pesadelos, enxaquecas, fotofobia e freqüente mal estar. Junto a isso, sem saber, ele está ingerindo neurolépticos e sendo submetido a sessões regulares de “terapia” que pretendem confrontá-lo com “a verdade” latente: ele não é quem pensa que é e está ali porque também é louco e criminoso.

Descobrimos no decorrer do filme que o personagem Teddy Daniels, interpretado por Di Caprio, matou sua mulher após perceber que ela assassinara os 3 filhos do casal. (O tema lembrou-me a história de Medéia… Mas no filme, a mãe assassina não parece ter a intenção de matar os próprios filhos para se vingar do marido: ela comete os crimes em meio a um surto psicótico pouco explorado na trama)

O delírio do protagonista vai sendo desmantelado à força, por meio do confronto compulsório com “dados de realidade” – fotos, nomes, noções de tempo e espaço, revelação de identidades. A lucidez vai se produzindo como um efeito da eficácia do método terapêutico preconizado pelo personagem de Ben Kingsley, o psiquiatra. O “tratamento” desconstrói a defesa psíquica delirante do personagem, obrigando-o a se defrontar com os vestígios mnêmicos de seu ato homicida.

Uma vez recuperada a memória do evento traumático, Teddy passa a culpar-se terrivelmente e se sentir um monstro. 

Qual a serventia dessa lucidez, afinal?!

Em sua loucura e parcial amnésia, o personagem ao menos tinha um ideal pelo qual lutar. Não era um monstro, mas um herói em potencial, disposto a salvar vidas (e, na expressão cultural e onipotente do delírio, a “salvar o próprio país”).

Claro que esse herói era capaz de sofrer e por isso mesmo se voltava para a ação. Lembrava-se desde o iníco do filme, por exemplo, de que não conseguira salvar os judeus nos campos de concentração invadidos por sua tropa, pois chegaram tarde demais, quando muitos já estavam mortos. Isso o motivava a agir profissionalmente com mais astúcia e prontidão.

Interessante pensar que essa memória do holocausto evoca – e ao mesmo tempo encobre – uma outra: a da morte de seus próprios filhos e do assassinato de sua mulher, que talvez pudessem ter sido evitados caso ele não tivesse se omitido diante da percepção da loucura da esposa. Ao invés disso, à época, ele bebeu e se anestesiou… 

E quando, já perto do fim, ele já está supostamente “curado” da psicose, somos jogados numa ambigüidade de compreensões que, mais do que servir para nos confundir, serve para nos apresentar o desfecho do filme como um paradoxo da razão ilhada pela memória do insuportável.

Na cena final, ele se dirige ao psiquiatra como se aquele ainda fosse o velho parceiro policial do delírio. Dessa maneira, parece reavivar um status e uma importância que lhe foram arrancados junto com o delírio. Mas não é só isso…  

Na brincadeira de retomar o delírio – via jogo de encenação – ele acaba fazendo uma escolha ética: livrar-se do peso insuportável da culpa e da dor, ainda que pra isso tivesse que perder a própria capacidade de escolha.

Ora, sem a esposa, sem os filhos, sem o amigo, sem o delírio (que lhe permitia ser um outro “si mesmo”), e ainda por cima, física e psiquicamente “ilhado”, já não tinha mais nada a perder. Sua escolha, aparentemente irracional, nesta condição está informada pela mais justa razão: livrar-se de sua miserável existência entregando-se à lobotomia.

Eis o paradoxo: seu gesto mais lúcido foi entregar a própria lucidez de bandeja. Afinal, esta não lhe serviria mais pra nada, muito menos pra sobreviver à corrosiva e dilacerante dor de existir atravessado pela a culpa, pelo horror e pela solidão.

Retomando a cena final, o personagem de Di Caprio, aparentemente resignado e consciente, vira-se para o psiquiatra como quem inesperadamente volta a delirar, mas, ao contrário, está apenas partilhando com seu semelhante um impasse ético-existencial passível de se colocar a qualquer ser humano: 

“O que é menos pior: (sobre)viver como um monstro, ou escolher morrer como um homem bom?”

 Noutros termos, poderíamos colocar o dilema assim: o que é pior, viver ilhado em uma terrível verdade ou instaurar (ao preço da amnésia, da subserviência e da morte subjetiva) uma condição existencial menos tortuosa? 

Ou ainda: você preferia ser uma cauda de jacaré ou uma cabeça de lagartixa?

Vejamos que, nesse contexto,  “morrer (no tempo natural da vida) como um homem bom” remete-se não à figura mítica do herói americano – afinal, seu delírio já tinha sido eficazmente demolido – , mas à ideia de um homem dócil, inofensivo, sem passado comprometedor e que segue de maneira obediente as regras sociais. 

Se o protagonista é porta voz do autor da obra, poderíamos supor que Denis Lehane prefere escapar da lucidez terrorífica (ainda que dotada de alguma liberdade), possivelmente a mesma que por vezes motiva um suicida a concluir seu ato. 

Então, a escolha do personagem é pelo suicídio. No caso, simbólico, porque escolhe (deixar) matar sua consciência pesada de jacaré para ter uma vida lagartixa, seguindo – como uma cauda – o comando de outra cabeça, mesmo que “pequena”.

Ora, o que pode restar de humano após uma lobotomia? De meu ponto de vista, nada, a não ser o testemunho daqueles que, minutos antes da escolha, puderam perceber a motivação legítima desta escolha como meio de escapar de uma outra prisão: a culpa. 

E pra ir encerrando, porque já falei um bocado, sugiro um outro excelente filme sobre o intrigante tema da memória da violência vivida/testemunhada e os percursos de seu enfrentamento: ora ligados ao binômio loucura X lucidez; ora ao binômio autonomia X heteronomia. Trata-se de: “O Segredo de seus olhos”, do argentino Juan Jose Campanella, 2009.

 Em ambos, somos confrontados com dilemas éticos, tais como: O que se pode/deve fazer com aquilo que opera violentamente uma disrupção em nossa vida ou na vida de outrem? Como sustentar um devir possível, sem alguma relação com o passado? Ou: como, na relação com um passado traumático, não ficar à mercê dele?

O post “Vale à pena lembrar do que dói e corrói?” dá pistas para enfrentar essas questões…

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comentários
  1. ótimo texto. assisti ao filme por estes dias e a cena final não sai da minha mente.

  2. rachel asheley disse:

    a primeira vez que assistir,nao entendi o que supostamente o que o filme queria expressar.Fiquei na duvida,ele era loco realmente ou apenas estavam tentando impor este modo de ser nele?mas depois de ler o resumo ficou claro….

  3. Ritinha disse:

    Adorei o resumo explica bem a historia do filme…

  4. Fabio enfermeiro disse:

    Assisti esse filme, quando foi lançado para locação, e agora assisti mais uma vez. E agora realmente achei ele bom, alucinante e as vezes fantástico. É engraçado como Scorsese trabalha esse suspense com um fundo de só psiquiatria, assisti também esses dias o Cassino dele também, e ele é completamente outro diretor: o enredo as máfias americanas, as táticas de relacionamento a corrupção, o figurino dos personagens, o deleite com a linda Sharon Stone, realmente um diretor completamente diferente, simplesmente fantástico.

  5. Camila Pedrazza Coelho disse:

    Não sei o por que ele foi preso num manicômio, até porque ele chega na sua casa e encontra os três filhos mortos, qualquer júri iria inocentar, devido ao grande impaquito emocional que ele teve, quando a mulher dele pede que ele a liberte ele concede devido a grande carga emocional que ele está sentindo na hora, tento me colocar no lugar dele, quando a gente recebe uma notícia que alguém morreu de nosso convívio ficamos com um zunido em nossa cabeça, não pensamos na hora, imagine você chegar em sua casa e se deparar com seus três filhos mortos e quem os matou foi a sua mulher, e ela te abraça falando que te ama e pedindo para você levar seus filhos para dar banho, e depois talvez fazer um pique-nique e depois te pede para a libertar, pedindo para você matar, ou melhor libertar ela e você se culpando por não ter chegado a tempo e mesmo ele sabendo que ela era maniaca depressiva nunca iria passar pela cabeça dele que ela mataria os filhos, claro que você vai procurar se culpar . É normal do ser-humano querer sempre culpar alguém para tentar se redimir da culpa, e ele não tendo ninguém próximo ele se culpou e fez um mundinho pra que ele tivesse uma válvula de escape. No mundo que ele fez ele se isentou de culpa, até eu trataria de entrar num Mundo de Fantasia para que eu ao menos tivesse uma paz de espírito. Lembro da história Alice no País das Maravilhas e outros filmes que já assisti nessa linha. Acho que sempre o ser humano vai tentar fugir de suas consequências, ora matando a seu desafeto, ora fugindo das obrigações da vida pelos devaneios psíquicos. Sem querer descobri o porque estou triste, pois é mais fácil procurar uma doença, ou um porque do que lutar pela vida. Adoro esses filmes com carga psicológicas, no fundo eles nos ajudam a achar saídas das quais não estamos achando sozinhos.

  6. Larissa disse:

    Eu já vi esse filme várias vezes! E o final sempre me intriga! Afinal, ele é Teddy Daniels ou Andrew Laddis? Pq na hora em que ele é confrontado pelo médico no farol, o mesmo diz que ele é Andrew Laddis, o que teria supostamente incendiado o lugar onde a esposa estava…

  7. Denize disse:

    O filme mais perfeito q já vi. Como sempre, DiCaprio dá um show de interpretação.

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