Fada da poltrona

Publicado: 13/11/2015 em Diário poético

Fadada poltrona onde já findei sonhos e e hoje escaldo o pé,

Pelos teus caules curvos do tempo, bolhas e pétalas se dão a ver…

No devaneio, imagino pé virando asa e esqueço da brasa até

Então a fada aparece e sussurra sagaz algo como uma prece:

“- Ei, moça, agora é hora de escaldar a fé!”

com contorno

Preâmbulo

Há dias, uma jornalista solicitou-me que participasse por email de uma entrevista para uma matéria sobre “pessoas sangue-sugas”, que vai sair na sessão de comportamento de uma revista local. Enviou-me as seguintes perguntas, que transcrevo tal como as recebi:

” 1 – Há pessoas que estão deprimidas, infelizes e querem sugar o que você tem de bom. Como a “vítima” pode se proteger sem parecer insensível com os problemas do outro? Ou seja, como ser solidário sem perder o seu sangue, a sua energia boa…

2 – E quando perceber que sua energia está sendo sugada, como reverter?

3 – Também há casos em que a pessoa é do bem, mas tão alegre, tão ansiosa para partilhar experiências, tão tagarela… que também suga suas energias. Como fazê-la perceber que deve ser “menos, muito menos”?

4 – Você já atendeu algum caso de vampiro(a) ou de vítima?

5 – Em casamentos, há vampiros que tiram a energia do parceiro?”

Depois de ler as perguntas, e lembrar que a jornalista havia me liberado de respondê-las todas, enchi uma taça de vinho, tomei fôlego e fui… Se o que vai sair na revista terá ou não a ver com o que disse, só depois saberei. De todo modo, a ocasião me fez produzir esse texto que vai aqui embaixo e que, depois de longo jejum, alimenta este blog pela primeira vez em 2015.

VAMPIRIZAÇÃO

Notas psicossociais sobre a vampirização (ou: “Entrevista com a Psicóloga II”)

É certo que pessoas em estado de infelicidade ou de depressão costumam ter menos energia vital, mas isso não significa que “vampirizem” o seu entorno. Muitas, inclusive, preferem recuperar forças recolhendo-se em ambientes isolados; outras se fortalecem quando (re)encontram sentidos existenciais abalados  ou mesmo perdidos, por meio do engajamento em alguma atividade (artística, religiosa, comunitária, esportiva, profissional, política, terapêutica etc). Portanto, não necessariamente a depressão ou a infelicidade levam a um modo vampiresco de se relacionar. E mesmo se levarem, é bom lembrar que uma “vampirização” pode estar presente também em relações entre pessoas supostamente felizes e bem sucedida$$$.

Por isso, prefiro falar de “modos de se relacionar” – ao invés de “identidades” estáticas, construídas por oposição (tipo: “vampiro X vampirizado”, “algoz X vítima”, “infeliz X feliz”). Acredito que mesmo as relações entre duas pessoas (chamadas diádicas em psicanálise) têm a sua complexidade… Por exemplo, essas relações tendem a perdurar através de uma complementariedade de papéis e uma psicodinâmica que pode ser mais harmônica ou desarmônica, mais cooperativa ou competitiva…

Há poucos dias, um colega citou uma teoria sobre dois tipos emblemáticos de relação diádica por meio da metáfora do jogo de tênis e do jogo de frescobol: ambos se assemelham por contarem com dois jogadores, raquetes e bola em movimento. Mas apesar das semelhanças aparentes, a lógica que rege cada um deles é totalmente diferente: enquanto no frescobol os jogadores facilitam a passagem da bola para evitar que ela caia no chão, no jogo de tênis, ao contrário, tentam derrubá-la no campo do outro: ou seja, enquanto o frescobol é regido pela lógica da cooperação, o jogo de tênis segue a lógica da competição.

tenis casamento

Percebo que em muitas relações, sobretudo nas menos maduras, esta complementariedade tende a se enrijecer: cada um vai se fixando em um determinado papel e deixando de desenvolver novas potencialidades: em si e na relação. Existem relações em que os papéis se cristalizam de tal maneira, que a repetição excessiva de um mesmo padrão suga a energia de um (ou mesmo de ambos). Por isso, penso que, assim como indivíduos, relações também podem adoecer… Relações marcadas pela constante perda de energia (vital e criativa) são relações adoecidas e adoecedoras.

O capitalismo neoliberal globalizado também tem contribuído para (re)produzir relações e situações competitivas desumanas, sugadoras de nossa vitalidade. Acho que não é à toa, por exemplo, que as narrativas, filmes e games de zumbis e vampiros estejam fazendo tanto sucesso por toda parte: de algum modo ajudam a dar sentido a esse mundo caótico, contraditório, que se desenvolve tecnologicamente, ao mesmo tempo em que deteriora ecológica e eticamente; um mundo onde a hiperconectividade coexiste com a profunda solidão…

Acredito que pessoas imersas cronicamente na solidão tendem a ficar desajeitadas na presença de outras, podendo eventualmente abusar da paciência de quem as escuta. Nesses casos, o ouvinte pode se sentir vampirizado, pois vai perdendo a disposição para dar atenção ao outro, já que não há reciprocidade. 

solidão na multidão

Há também os encontros que vampirizam e podemos dizer que neles, uma das partes envolvidas se sente fazendo um esforço imenso, além do habitual, naquela interação social. Quando isso ocorre, cabe perguntar: qual é o contexto da interação?É um contexto profissional ou social? Há uma relação de poder envolvida? Há abertura para que os sujeitos expressem suas diferenças? Estou com disposição para dialogar com essa pessoa? Ou ainda: será que a vida que levo me possibilita ter disposição para ouvir e dialogar com os outros???

Essas questões são fundamentais para que possamos reconhecer a origem da perda de energia que sofremos, e assim podermos buscar meios de enfrentamento e autopreservação.

Em um consultório de psicologia, esse fenômeno é comum. Às vezes, ele se faz presente pelo sono intenso e repentino que um determinado paciente desperta no terapeuta, quando começa a falar. Isso requer que o profissional não apenas encontre estratégias para manter sua escuta atenta, mas que consiga ir além, desenvolvendo um manejo que facilite ao outro se perceber e encontrar outras possibilidades de pensar, sentir e agir…

Por isso, mesmo não sendo uma dica simples, olhar para o contexto, para o(s) outro(s) e para si mesmo é fundamental para que consigamos nos posicionar diante de uma pessoa, de uma relação ou mesmo de um encontro que nos vampiriza. CRISTAL

Não há receita geral que não passe por uma sabedoria adquirida na prática: cada um sabe o quê, como e quando se incomoda com algo/alguém. Há gente que escolhe manter as aparências para não ameaçar o vínculo, mas acaba perdendo a autenticidade e a energia; há gente que opta pelo confronto direto, pela ironia, podendo gerar desconfortos; outros preferem sair de cena, seja dando alguma desculpa, seja assumindo seu limite; há ainda os que persistem em situações desgastantes porque acreditam que ela pode mudar… Em todos os casos, podemos encontrar alívio para as tensões; mas também pagar um preço pela escolha feita. 

Acredito que a sabedoria advinda da experiência e da (auto)análise são ingredientes indispensáveis para que possamos redimensionar nossas expectativas em relação ao(s) outro(s), nos preservarmos – o quanto possível – de situações e relações vampirescas, e ainda desenvolvermos modos de interação com mais energia, criatividade e alegria.

Hoje, milhares saíram às ruas em diferentes partes do mundo para chamar a atenção para o problema do aquecimento global. “A luta é pela vida, antes que seja tarde demais” – diziam cartazes. Mas… será que estamos suficientemente preocupados com o aquecimento global? 

Para um breve entendimento do problema, um dado numérico: em vez de as geleiras refletirem 90 % da luz que nelas incidia, há algumas décadas (mas principalmente após os anos 2000), elas vêm sendo visivelmente derretidas (pelo “efeito estufa” – acúmulo de CO2 na atmosfera).  Superfícies escuras estão tomando o lugar do gelo, e ao invés de refletirem a luz (e o calor) para fora, acabam os absorvendo em 90 %. Isso significa uma grave inversão de vetores, responsável pela absorção maciça de calor no interior da terra e das águas. Fala-se de uma cadeia de feedbacks que produz o aumento da temperatura, o derretimento das geleiras, o crescimento do volume de água dos oceanos, a liberação de gás metano, e o progressivo aquecimento global. Atualmente, a situação mais crítica está no Oceano Ártico e na Groelândia, mas a tendência é o alastramento deste processo, por exemplo, sob a forma de deslocamentos furiosos de água varrendo cidades, afora o aumento da temperatura


Tem gente que acha que isso é “catastrofismo”, “teoria da conspiração”, ou mesmo um “fenômeno natural”, sem fazer qualquer relação entre as alterações climáticas e ecossistêmicas (isso quando se chega a falar do assunto) e a produção/consumo desenfreados – e irresponsáveis – do capitalismo tardio. Discursos que ignoram ou negam a gravidade da situação são um verdadeiro desserviço: porque propagam alienação e imobilismo.

Claro está que, se não nos conscientizarmos disso que os cientistas pesarosamente nos revelam, e se não cuidarmos de reunir forças para inventarmos estratégias que, no mínimo, reduzam os danos e posterguem o processo, o fim da civilização estará mais perto e será mais avassalador do que muitos filmes apocalípticos de Hollywood exibem.

Aos que pensam no futuro de seus filhos e netos, recomendo fortemente que vejam o filme que vai no link abaixo. 

Com pesar e preocupação, despeço-me imaginando 7 bilhões de silêncios…

mitos-e-verdades-sobre-o-aquecimento-global-3

Onfray x Freud

Publicado: 13/03/2014 em Situações e reflexões

Onfray x Freud  

Este post foi escrito com base num debate realizado na rede social sobre a publicação de uma entrevista com o filósofo francês Michel Onfray, que critica as ideias do pai da Psicanálise. http://fronteiras.com/canalfronteiras/entrevistas/?16%2C193

Vi Onfray quando veio ao Brasil fazer esta conferência, em 2012, no “Fronteiras do Pensamento”. Seus argumentos pareceram-me muito bem embasados em pesquisa documental, além de filosófica e cientificamente contundentes. Um monte de psicanalistas (possivelmente os mais ortodoxos) saíram no meio batendo a porta, indignados com a desconstrução que ele fez do “guru”.

Mas o mais curioso é que, apesar de apontar as contradições silenciadas entre o que Freud dizia nas cartas e nas obras, apesar de mirar a vaidade/ambição e o uso da cocaína de Freud como motores da expansão de suas ideias, e apesar de afirmar a fragilidade teórica das universalizações indevidas que ele fez (como o Complexo de Édipo, entre outras), o próprio Onfray, em algumas discussões recentes (refiro-me a algumas presentes em seu livro “A potência de existir”, 2012), vale-se de contribuições freudianas em seus raciocínios. Por exemplo, ao discutir a origem do machismo, Onfray usa a ideia de “apoio” (fundamental para entender o conceito chave de “pulsão” em psicanálise) e defende que a limitação do prazer masculino em relação ao feminino (relacionada a condicionantes biológicos) pode ter levado o homem a reagir (inconscientemente, rs) a esta “diferença sexual” que acarreta uma desigualdade, por meio de uma esculhambação (palavra minha, tá?) do feminino.

Seria isso uma espécie de ressentimento recalcado, rs? Ora, a equação freudiana teria então sido invertida por Onfray: da “inveja do pênis” passaríamos à inveja da vagina, do clitóris, dos orgasmos múltiplos, da forte influência cultural na construção da vida erótica, da possibilidade de gestar, parir, amamentar e por aí vai…

Mas deixando de lado esta instigante discussão, resumiria assim o que penso: 1 – não acho que é o caso de dizer quem está certo e quem está errado (há “bolas dentro” dos dois lados); 2 – sim, é preciso ter um olhar crítico para os (efeitos de) discursos que concebem sujeitos e fenômenos sociais de maneira descontextualizada e a-histórica; e apesar disso ocorrer no meio psicanalítico (mas não só), nem toda psicanálise é assim; 3 – não há como negar a importância da psicanálise (por mais que produza “igrejinhas”, que seja datada, burguesa, eurocêntrica,  e heteronormativa em sua origem), pois ela abriu novas possibilidades na história do pensamento ocidental moderno, úteis inclusive a quem as critica, como Onfray.

Por fim, me pergunto: será que Onfray já deitou num divã? Afinal, a boa compreensão, para ser transversal, precisa também da horizontal, não?

 

psicanalista

uma breve

Publicado: 27/01/2014 em Diário poético

“Escondo o objeto pra lhe garantir um futuro” – disse o moço da embalagem.

“Já eu, ilumino um futuro pra me desgarrar do objeto” – respondeu a moça, tomando o pacote nas mãos.

Enquanto isso, a utopia-e-vinha como um ioiô…

Roda-gigante-que-gira-para-os-dois-lados

Clube da esquina 15 mil *

Publicado: 24/11/2013 em Diário poético

Não sei quem assustou mais, se foi ele ou eu. Bastou o coração voltar do pulo que deu, e pedimos desculpas um pro outro, quase que ao mesmo tempo. Ele, por se aprumar subitamente desconfiado, com gestos de corpo prontos pra se defender de um possível ataque vindo de cima (melhor que nós, sabe que dormir na rua significa não poder relaxar); eu, porque até o momento em que dele me aproximei, só via um homem imóvel deitado de costas, ao lado de uma carroça. Desfeito o susto mútuo que diluiu nossa desigualdade, saí com uma bênção. E ele, com um iogurte.

cama de papelão

* 15 mil é o número aproximado de moradores de rua em São Paulo.

Nestes dias frios paulistanos, nem as calorosas discussões políticas nas redes sociais puderam esquentar o corpo. Contudo, a reflexão, esta sim, foi aquecida. Uma delas merece destaque: a polêmica em torno do Ato Médico.

Uma querida amiga médica, com toda delicadeza, perguntou-me com genuína curiosidade, por que eu era contra o Ato Médico? Ela não compreendia o que podia haver de errado com o Projeto de Lei do Senado 268/2002, que regulamenta o exercício profissional dos médicos

(http://comunicacao.abmnet.org.br/arquivos/Lei-do-Ato-Medico.pdf)

Este post é dedicado a ela, que com sua sensibilidade, dedicação e espírito aventureiro, vem desenvolvendo um belíssimo trabalho na fronteira entre a Medicina e a Dança, junto a pacientes HIV positivos em um Hospital Público na Bahia. Para não me derreter em elogios à moça, sigamos rumo à análise do documento conhecido como “Ato Médico”. Mas antes, dois esclarecimentos.

Primeiramente, acho importante distinguir que, levantar questionamentos ao PL não significa ir contra a regulamentação do exercício da Medicina. Como qualquer outra área, sobretudo nesse país gigantesco e heterogêneo, onde os cuidados com a saúde acontecem das formas mais variadas e bizarras, é preciso balizar diretrizes para o exercício da medicina (assim como para outras profissões), de maneira afinada às necessidades de nossa realidade, tanto para profissionais brasileiros, quanto para estrangeiros.

Em segundo lugar, o fato de eu levantar críticas a alguns pontos do Projeto, não significa que o documento seja de todo ruim. Aliás, pouco posso me pronunciar sobre boa parte dele, uma vez que na condição de psicóloga, não disponho de condições de avaliar: em sua maioria, parecem-me questões técnicas, próprias da medicina.

Dessas cláusulas mais técnicas, a única que me atrevo a questionar diz respeito ao parágrafo quarto, referente aos procedimentos invasivos da derme e epiderme. De acordo com ela, profissionais não médicos que são reconhecidos em suas áreas e praticam legalmente a acupuntura, ficariam impedidos de praticá-la, ficando esta atividade restrita ao campo da medicina. Ora, por que privar o exercício legítimo de outros profissionais, ainda mais considerando que, por décadas, a própria medicina (ocidental) desqualificou a acupuntura ou sequer mencionou-a em seus cursos de formação?!

Quanto às demais problematizações, mesmo não sendo médica, autorizo-me a falar do lugar de psicóloga, ex-servidora pública (de Centros de Atenção Psicossocial), pesquisadora no campo da saúde e cidadã, usuária de serviços de saúde públicos e privados. Então vamos a elas:

No Art. 4º, quando se abordam as “atividades privativas do médico”, consta lá: “formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica”.

Ora, atrelar o diagnóstico e qualquer prescrição terapêutica somente ao médico significa impedir que os demais profissionais da saúde possam exercer livremente suas atividades em suas respectivas áreas de conhecimento científico e profissional, conforme já regulamentado em leis anteriores. No caso da saúde mental, por exemplo, o psicólogo ficaria de fora do processo de avaliação diagnóstica, por meio do qual poderia identificar psicopatologias, psicodinâmicas, e também propor ações terapêuticas, dado que “diagnóstico nosológico e prescrição terapêutica” também fazem parte do exercício do psicólogo. Entretanto, com tal especificação, isso passa a ser atividade restrita a médicos, correndo o risco de restringir-se, de maneira acrítica, aos padrões normativos de saúde propostos pelos questionáveis Manuais de Doença Mental (DSM IV e agora o V, dos quais ninguém escapa de ter alguma patologia, vide o artigo de Eliane Brum, “Acordei Doente Mental” http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/05/acordei-doente-mental.html)

Tampouco passa despercebida, na redação deste documento, uma certa confusão (proposital?) entre a necessária demarcação das diferenças/especificidades da medicina, e a injustificável sustentação de uma desigualdade entre as profissões da saúde. Em outras palavras, algo que o dito popular costuma chamar de “dois pesos e duas medidas”.

De fato, as responsabilidades dos médicos são diferentes, e por vezes mais radicais, do que aquelas assumidas por outros profissionais da saúde. Mas ainda assim, os profissionais não médicos também assumem riscos, responsabilidades, e – como os doutores – suas ações podem ter efeitos eficazes ou desastrosos dentro de um processo terapêutico.

No entanto, as responsabilidades, o conhecimento técnico e as intervenções dos demais profissionais da saúde são pouco reconhecidos, na medida em que existe uma escancarada desigualdade entre os contratos de médicos e não médicos. (Basta comparar as horas trabalhadas e os salários recebidos. Até no mundo acadêmico é assim: a hora/aula de um Professor Especialista no curso de Medicina vale o dobro que a hora/aula de um Professor Doutor no curso de Psicologia).

Nesse sentido, o PL do ato médico, ao invés de combater essa desigualdade, agrava-a sobremaneira. Apesar de, no Art. 3º, se falar em “em mútua colaboração do médico com os demais profissionais de saúde”, logo em seguida, no Item I do Art. 5º, afirma-se que a “direção e a chefia de serviços médicos são privativos dos médicos.” Alguns poderiam se ater ao significante “médico” e questionar: “Ué, mas como um não médico pode chefiar um “serviço médico”?!

Ora, qualquer serviço de saúde (como Centros de Atenção Psicossocial, Núcleos de Apoio à Saúde da Família, Ambulatórios de Atenção Primária, Hospitais etc), que necessariamente têm equipe multidisciplinar, têm nela também médico(s), de maneira que não tardará para que tais serviços sejam enquadrados como “serviços médicos”, a serem somente chefiados por médicos – os quais, não raras vezes, pela próprio fato de que ficam menos horas nos locais de serviço, tendem a conhecer menos a realidade da população local, acompanhada mais assiduamente pelos outros profissionais da saúde ali engajados. O artigo 5º, portanto, parece ir na contramão do que preconiza o SUS, ou seja, de que os serviços de saúde sigam os princípios da integralidade do cuidado e descentralização.

No mais, dá para acreditar que a cristalização desta assimetria (historicamente problemática) é necessariamente o que faz um serviço funcionar melhor? Dá pra crer que o modelo pré-determinado e calcado no binômio chefe  x chefiados (ou seja, médico x não médicos) é capaz de favorecer a tal “mútua colaboração”, da qual fala o Artigo 3º? Do meu ponto de vista, esta prerrogativa só dificulta.

Repare ainda que, quando o projeto aborda algo que caberia especificamente a outros campos da saúde, tais atividades são descritas como “não privativas do médico”, ou seja, se o médico quiser, até pode fazer, mesmo não sendo da sua área, o que me parece bastante problemático, porque lhe dá poderes irrestritos. Ao contrário, ai daqueles profissionais que ousarem praticar ações “privativas do médico”. Ou seja, as categorias: “privativas do médico” e “não privativas do médico”, elaboradas sem qualquer discussão com outras áreas da saúde, soam “nós podemos tudo, e os outros podem só o que a gente determinar”.

Por fim, gostaria de lembrar que esta discussão se insere em um cenário social mais amplo, no qual a lógica neoliberal têm imposto uma rotina de trabalho muitas vezes desumana, e sem atender as condições trabalhistas que seriam devidas.

Muitos médicos (mas não só) transformaram-se em prestadores de serviço terceirizados, atuando em diversas instituições e cumprindo rotinas desgastantes. Nesse mundo competitivo, profissionais liberais transformaram-se em “horistas” ou “plantonistas”, assim como educação, lazer, segurança e saúde vêm se transforando em mercadorias.

Na versão anterior, o Projeto de Lei ainda mencionava o “competitivo mercado de trabalho”, dando a entender que seu maior compromisso não era exatamente contribuir para os avanços do SUS (no que tange à atenção integral à população brasileira), mas sim, com interesses corporativos da categoria via reserva de mercado.

E para apimentar um pouco mais a discussão, cabe lembrar que não são poucas as tentações ofertadas aos profissionais médicos, relacionadas à prescrição de tal ou qual medicamento/procedimento/exame, patrocinado por tal ou qual laboratório, que pode lhe dar “brinde$,” como: canetas, bebedouros, viagens internacionais, hotéis cinco estrelas, mobiliários para consultório etc. Não acho que isso necessariamente seja ruim, apenas questiono se tal prática não atenua a capacidade crítica do profissional. Será que a prática comum de tais “parcerias” não favorece que muitos médicos se acostumem a tais benefícios e deixem de perceber que podem estar contribuindo para (re)produzir fenômenos bem perigosos, como a patologização e a medicalização de problemas que não são necessariamente doenças?

Claro que qualquer generalização é injusta com as exceções. E claro que as práticas anti-éticas atravessam os mais diversos campos de atuação profissional, inclusive a Psicologia, onde me coloco de maneira igualmente crítica. Precisamente por isso, ampliar a discussão é preciso.

Sinceramente, acho que mais do que nunca é preciso horizontalizar as relações de poder, ampliar o diálogo (também com a população) e retomar as rédeas na direção do que preconiza o SUS, e não o mercado, cuja lógica é excludente e perversa. E o Ato Médico, redigido tal como está, não colabora pra isso.

Por fim, agradeço a oportunidade que me foi dada pela querida amiga, e também a atenção e a paciência daqueles que se dispuseram a ler esse texto até aqui. Em especial, aos médicos.

Saudações des-atadas,

Thaís S. Goldstein

(Psicóloga, Supervisora e Docente no Ensino Superior)

PS – Não pude evitar a piadinha de Quino frente à onda de patologização e medicalização da vida. Por favor, não levem como ofensa pessoal, doutores!

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