Restos noturnos

Ou simplesmente o que lembrei de um sonho

Eu e minha família mudávamos para a casa da vizinha, que era bem outra, muito diferente, com vários planos crescendo pra cima, plantas entremeando arquibancadas de cimento em forma semi-circular e um cassino abandonado.

Antes de caminhar por esta “nova” casa, eu havia ido visitar uma amiga, que de novo tinha se mudado para uma casa que, apesar de “nova”, era parecida com as anteriores. Eu não chegava a entrar, a não ser na área externa e não sei porque.

Depois disso, me lembro de estar passeando por um parque,  sozinha, numa bela tarde de luz e nuvens. De repente, dava explicações – sem que me fossem pedidas – a duas moças do interior, talvez namoradas, que pareciam estar perdidas naquele local.  Dizia-lhes que notassem a diferença entre o Jardim de Versailles ao longe (será que era lá que estávamos?) e a sua estilização simplificada nas páginas de um livro grande e aberto ao nosso alcance, apoiado em algo que poderia ser uma estante musical.

Cena seguinte: eu, caminhando à noite na beira de uma balsa parada, talvez um barco de pesca estacionado, vendo um homem sujo matar um porco cor de rosa por sufocamento, para depois cortá-lo em pedaços e comê-lo cru, como “suchi”. As pessoas o olhavam e nada diziam e eu, quieta, pensava que não bastava ter um discurso contra aquela violência, se eu mesma apreciava comer daquela carne. No fundo, eu precisava que alguém fizesse o chamado “serviço sujo”.

Só que àquela altura, esse gesto me pareceu uma violência descabida, injustificável.  Alguns pedaços que o sujo homem cortava eram arremessados dentro de sua camisa, que também estava imunda. 

E notando meu olhar de desaprovação, ele disse – como que pra me agradar – que aqueles pedaços estavam sendo guardados pra mim. Num misto de perplexidade e alívio, virei de costas e me afastei em silêncio.

Tudo isso não é bem enigmático? E aí, algum analista de plantão se arrisca a fazer alguma interpretação?

A mim só ocorre pensar que a casa da gente começa no corpo… 

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