De Quintana a Forrest Gump: uma reflexão sobre as ilusões

Dentre as coisas que não se queimaram (por mero acaso), encontrei uma gravação de 2005, de um poema do Quintana por mim recitado em meio ao fundo musical maluquinho do violão de Léu. E me pus a repetir os versos:

“Meu saco de ilusões bem cheio, tive-o

Com ele ia subindo as ladeiras da vida

E no entretanto, após cada ilusão perdida,  

Que extraordinária sensação de alívio!”

(Mário Quintana)

“Que extraordinária sensação de alívio?!”

Se o saco de ilusões do Quintana se esvaziasse um pouco mais, acho que uma hora o alívio passava, possivelmente antes das próximas ladeiras da vida. E no momento em que ficasse murcho, o saco virava tormento, um peso sem uso! Será que saco murcho de ilusões é saco cheio de desilusões?

Ok, se o saco tá cheio, há que esvaziá-lo, mas com moderação. Não sei se é vício de ofício pensar o humano pelo viés dos (des)equilíbrios, mas tenho cá pra mim – por experiência própria – que o excesso de ilusões gera “ilusionites” (crônicas ou agudas), que por sua vez tendem a gerar “desilusionites” bruscas (pois que são da mesma natureza). Mas como ficar sem elas?!

Imaginando as (des)ilusões como substâncias potencialmente terapêuticas, elas teriam uma posologia: a dose deveria considerar a idade, a reincidência ou não do sintoma, as reações alérgicas do usuário etc. Deveria haver uma bula explicitando que o excesso pode causar problemas, por exemplo “ortopédicos” – afinal a “queda” costuma ser alta -; mas sua falta pode causar tontura, tristeza, apatia, tédio, robotização, e até mesmo morte psíquica.

O “tratamento”, fosse eu a paciente, deveria se orientar para a dosagem capaz de me fazer:

1- Evitar o perigo do equívoco, sobretudo do equívoco de correr, frequentemente, perigos. (Talvez pra isso,  uma pá de ilusões do meu saco teria que ser tirada);

2- Querer a vida possível, em cores vivas e com marcas pessoais. (Mais um punhado de ilusões retiradas, mas ainda estamos antes da metade);

3-  Sonhar e agir, abrindo-me para o Outro e transitando por planos e profundidades “escherianas” nesse mundo bidimensional.

(Bem, relendo essas três metas, creio que seriam necessários outros ingredientes e preparos, para além das ilusões retiradas ou acrescidas…)

Seriam os antidepressivos as estratégias mais próximas desse calibrar das ilusões (e alívios)?

O universo psiquiátrico, como outros mercados, tem um cardápio variado ao cosumidor. No caso, trata-se do consumo de bem estar e do uso “apropriado” ou “eutímico” das ilusões.

Mas ao menos até aqui, venho preferindo a poesia, a música, o cinema… Lembrei de dois personagens do cinema. O primeiro que veio à cabeça foi o Forrest Gump. Por que será que ele fascina?

Depois, me lembrei de Giulieta Masina, no papel de Cabíria. Por que será que também ela fascina? Ambos são a exceção ingênua da qual muitos debocham em meio à hostilidade do mundo. Mas é nessa exceção que sustentam suas ilusões com lirismo.

Forrest, ao se desiludir certa vez, sai correndo. Corre para a fuga, corre para a vida, impondo-lhe um sentido de percurso único e literal. E nesse percurso, em que larga tudo o que tinha pra trás, perde a conta do quanto já percorreu e deixou suas marcas por aí. Afinal, não é isso que importa. Não enquanto se percorre.

Sem dúvida, há pesos que não devemos carregar no subir e descer das ladeiras, nem mesmo nos planos da vida. A gente pode se livrar deles de muitas formas e não é simples se livrar somente do necessário. Às vezes, pra perder o necessário, a gente perde muito mais que o necessário, perde o que era pra ser bagagem do viajante. Arrumar a bagagem e dela cuidar requer sabedoria. Porque os excedentes, ainda que tenham presença sedutora, só fazem atrapalhar; e o que é necessário, urgente e possível, se vier a faltar, põe em risco a nossa dignidade. (Pausa para lembrar de um antídoto: “Viva a solidariedade e a amizade!”)

Quintana se livrou das ilusões e achou alívio. E quanto a mim, bastará delas me livrar pra encontrar também? Será que quero alívio? E em meio ao fato de que tudo é fugaz, não será fugaz também o alívio?

Do excesso certamente já me livrei, não porque quis. Só me resta saber arranjar o que me falta, montar essa bagagem. Em vez de alívio ou bem-estar, minha ambição agora, meu caro Quintana, é apenas essa: bem percorrer…

comentários
  1. A iIlusao, só a percebemos quando nos ocorre a desilusao…só nos damos conta de que estavamos iludidos quando experimentamos a dor da realidade…compreender um conceito pelo seu oposto é sempre uma coisa esquisita.dualista. Confusa.contundente.
    Mas nao sei se um saco murcho de ilusoes é um saco cheio de desilusoes…talvez exista aqui um tempero que falta: o entusiasmo. Em Theos, preenchido portanto.mas nao de ilusoes. Acho que a substancia ptencialmente terapeutica é o entusiasmo, nao a ilusao. De ilusoes tambem se vive, mas sem entusiasmo…

    • adeuscafofo disse:

      Nila, que bom que vc apareceu por aqui! Vejo que vc também gosta de pensar…

      Vc tem razão: saco vazio de ilusões não necessariamente é saco cheio de desilusões. Após algumas leituras recentes (André Comte Sponville e Alain de Bouton), venho refletindo justamente sobre a conquista de uma uma espécie de “capacidade para uma felicidade desesperançada”.

      Uma felicidade que se revele não pelas ilusões, mas pelo entusiasmo ligado às capacidades humanas de desfrutar, conhecer e agir.

      Não se trata, portanto, de uma felicidade nutrida pela espera de um ideal ou crença em uma ilusão. Até porque, no transcorrer do tempo e das contradições, o que desejávamos já não mais é; ou, se ainda é, não desejamos mais do mesmo jeito…

      Também não me refiro àquela felicidade fácil, movida pelos mais diversos artifícos.

      É certo que necessitamos – uns mais do que outros, em alguns momentos mais do que outros – de crenças e utopias para suportar o real da vida. Ora, nossa condição humana é precária, vulnerável e finita. E olha que não estou nem considerando alguns agravantes próprios dos nossos tempos…

      Mas é fato que, no xadrez da vida – como lindamente lembra Bergman – a morte sempre vence.

      Por outro lado, penso que sim, é possível sobreviver a “Ela”. E isso empenha um tipo de liberdade (ou destreza?) para encararmos a vida com lucidez e nos posicionarmos singularmente em meio à angústia, à solidão, ao medo e à nossa impotência diante de certas situações.

      Encher o saco de desilusões, nesse sentido, é como experimentar a vertigem da vida sem atenuantes, e ainda assim poder se entusiasmar.

      Fórumula pra isso? Não tenho. Mas tenho hipóteses, todas envolvendo algum tipo de laço social. Seja pelos vínculos afetivos significativos que estabelecemos, seja pela inserção sócio-comunitária… Na maturidade, parece-me importante a aceitação do envelhecimento e da morte pela via do reconhecimento de (algum) sentido à própria existência.

      Não sei se entusiasmo é substância potencialmente terapêutica, ou se é o próprio efeito-conquista de uma transformação para uma condição melhor (tanto mais feliz quanto mais lúcida).

      Por fim, lembrei desse que bem poderia ser o primo-irmão do entusiasmo, habilidoso no trato com as tragédias: o humor. Mas deixemo sesse tema para uma outra ocasião, que aqui já muito me estendi.

      Obrigada, Nila, pela interlocução. Um abraço,

      Thaís

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