Entrevista com a psicóloga

Publicado: 18/10/2012 em Situações e reflexões

Ontem me perguntaram se eu podia responder umas perguntas para uma aluna do curso  de Administração da PUC/SP. Ela precisava fazer um trabalho de faculdade para a disciplina de Psicologia. Pois bem, quando vi as perguntas, pensei: isso vai dar trabalho… De fato, deu. Também porque as perguntas mereciam desconstrução. Mas não foi só isso, deu também satisfação: é bom  poder sistematizar, numa sentada, o que se vem pensando. Partilho aqui o que saiu.

1)   Fale um pouco sobre o papel das emoções no processo decisório. 

Primeiramente, é importante identificar o que se está chamando de “processo decisório”, afinal, ele pode acontecer em uma diversidade de situações, com intensidades, durações e impasses muito diferentes. Por exemplo, trata-se de um contexto limite, no qual uma decisão sobre o destino das coisas é fundamental? Se é uma situação limite, provavelmente acarreta riscos. Resta saber para quem… Para si mesmo? Para outro(s)? Há uma causa importante em jogo, capaz de justificar eticamente alguma dor ou sacrifício? É uma decisão profissional ou da vida afetiva? É algo trivial? Tem alguma relação com a esfera pública? Ou está no campo da vida privada? É algo supérfluo, como a escolha da marca de um shampoo ou de um molho de tomate? Que expectativas estão sendo depositadas sobre esta escolha? O “escolhedor” está sozinho? Ele está sendo de algum modo pressionado? Ele tem apoio de outros? Ele tem suficiente clareza sobre as escolhas que pode fazer na situação em que se encontra? Trata-se de uma situação nova ou conhecida? Ele tem clareza de suas possibilidades e limites, e das possibilidades e limites da situação? Ele está num bom dia?

Como se pode constatar, para esta pergunta não há uma resposta única. Há que se contextualizar o campo em que acontece a escolha, que por sua vez depende tanto do sujeito que vai escolher, como da (maneira como se encontra na) situação.

Uma vez que se visualiza o campo da escolha, cabe lembrar que a boa decisão empenha sensibilidade e reflexão. Portanto, deve estar para além do impulso movido pelas paixões cegas e reativas. Isso não significa negar as emoções, apenas não deixá-las ser o “carro-chefe” da ação.

Por exemplo, apesar de a vingança e a justiça serem decisões que respondem a situações de ofensa e/ou crime, elas são processos decisórios muito diferentes. Enquanto na vingança, pesa mais o sentimento ruim, o impulso de revidar o golpe que abriu uma ferida narcísica no sujeito ou em alguém que ele ama, no caso da justiça, a raiva pessoal vai pouco a pouco dando espaço à reflexão. Diferentemente da vingança, na justiça se colocam em debate as possíveis formas de reparação ou minimização dos danos causados, bem como as formas de se evitar situações semelhantes futuras. Ou seja, é um processo que requer tempo, ampliação de pontos de vista e, sobretudo, reflexão. Logo, para que seja bem feito, a companhia de outros é fundamental.

Somente por meio da troca de experiências e ideias, é possível ampliar a visão para outros pontos de vista e considerar as consequências de uma escolha: para si mesmo e para o entorno, no aqui e agora, e também depois…

Assim sendo, penso que as emoções devem ser sim, consideradas. Mas para que a ação seja frutífera, é interessante que as emoções sejam trabalhadas pela razão, e se possível, em companhia de outros em quem confiamos, para que a decisão seja menos impulsiva e mais acertada.

2)   Quais são as diferentes emoções que influenciam nas decisões das pessoas?

 De novo, depende, não há uma resposta pronta. Quem são as pessoas? Em que contexto estão escolhendo? O que está em jogo na escolha específica? É necessário sempre contextualizar a situação para não se fazer uma afirmação equivocada.

Pensando de maneira genérica e abstrata, o que não é cientificamente recomendável, podemos dizer que: quanto maior é a consciência de si, das alternativas disponíveis e das consequências (que podemos antever a partir de aprendizagens anteriores), menor será a chance de uma emoção desorganizadora tomar conta do sujeito, como por exemplo, o pânico e a angústia que paralisam a ação.

Sabendo de antemão que uma dada situação tem saída, fica mais fácil ao sujeito manter-se calmo e sereno, e então escolher o melhor modo de agir, mesmo que esteja em situação desconfortável.

Pessoas que acreditam no futuro – seja porque têm fé em algo, porque já superaram situações semelhantes antes, ou mesmo porque têm projetos futuros – tendem a conseguir manobrar as emoções perturbadoras, sem se desorganizarem ou deprimirem em momentos difíceis. Por outro lado, o excesso de fé e entusiasmo pode também levar a uma alienação do sujeito em relação a aspectos da realidade. Há decisões tomadas com base na razão e outras com base na emoção. Há, ainda, aquelas híbridas, que articulam razão e emoção. Penso que essas tendem a ser mais acertadas e verdadeiras, indicando maior maturidade subjetiva.

3) Você acha que as pessoas utilizam mais o seu lado emocional ou racional na hora de tomar uma decisão?

Para não começar de novo problematizando o caráter genérico da pergunta, que abarcaria muitas respostas diferentes, buscarei respondê-la também em tom genérico, tendo em vista alguns traços que predominam no mundo de hoje, e que me levam a pensar que estamos vivendo uma espécie de “crise da razão” concomitante a uma “crise da sensibilidade”.

Infelizmente, constato muitas vezes que o lado racional tem perdido feio para o lado emocional mais primitivo e animal: o egoísmo, a mesquinhez, o imediatismo, a violência. Ou então – o que é ainda mais grave – a razão anda se enfraquecendo em meio a uma crise ética. Explico.

Penso que está havendo uma espécie de alienação da razão em nome da busca de prazer e amortecimento da dor. Temos nos relacionado com nós mesmos, com o outro e com o mundo, ora como consumidores, ora como objetos de consumo: buscamos o que é mais rápido, mais cômodo, mais lucrativo e socialmente bem visto, ainda que assim sacrifiquemos o potencial criativo e solidário do ser humano, bem como o desenvolvimento do planeta.

Tem aí lucidez?

Vejamos o exemplo da “obsolescência planejada”, alguém já ouviu falar disso? Trata-se de um fenômeno comum na atualidade: as indústrias produzem mercadorias que, em pouco tempo, se estragam ou se tornam obsoletas. Esse processo acontece em larga escala e conta com a participação de engenheiros, designers e outros profissionais qualificados, contratados para desenvolver produtos bonitinhos, mas ordinários, que quebram pouco tempo depois de vencer o prazo de garantia. O concerto, na maioria das vezes, sai mais caro que a compra de um novo. Resultado: voltamos a consumir.

Ora, considerando que a economia capitalista busca atingir metas de crescimento “sempre mais”, podemos nos perguntar: o fato de a produção nunca parar é bom? Se sim, para quem? Se por um lado o consumo desenfreado “aquece” a economia (gerando empregos e lucro ao capitalista), quais as consequências disso em médio e longo prazo?

A lógica produtivista-consumista revela sua face insana ao constarmos que a produção e consumo sem limites não podem se sustentar por muito tempo em um planeta cujos recursos são finitos. E se assim tem sido, que se digam, os efeitos são nefastos.

Alguém já pensou na quantidade incomensurável de lixo (inclusive lixo tóxico e radioativo) que se produz diariamente? E nos desperdícios? Vocês sabiam que países ditos desenvolvidos despejam na costa de países mais pobres, containers repletos de lixo tóxico? Já se perguntaram como as indústrias bélica e farmacêutica lucram, senão patrocinando a produção de guerras e de doenças?

Como consumidores, muitas vezes não paramos pra pensar na seriedade de certas decisões corriqueiras, como comprar um tênis, um celular ou uma roupa nova… Mais do que realizar um desejo pessoal (merecido, com o suor do trabalho), estamos colaborando para a continuidade de uma cadeia de processos de exploração do trabalho de muitos, para o uso irresponsável de recursos naturais, para a esterilização de territórios férteis, para o comprometimento da saúde de muitos, inclusive de pessoas que ainda nem nasceram. Para além de um contentamento passageiro ligado ao ato de consumir e portar um produto novo, pouquíssimos ganham com esse estrago todo.

Esse é o mundo em que vivemos, cheio de contradições e movido por processos de atrofiamento da razão e da sensibilidade. Talvez, se elas estivessem mais preservadas, poderíamos conter nossos impulsos consumistas – maciçamente estimulados no dia a dia pela publicidade – e estarmos mais voltados para uma ética da sustentabilidade e da solidariedade.

Entretanto, a inteligência humana parece estar mais a serviço de gratificações imediatas, emoções mesquinhas e interesses privados, do que para a construção de um futuro melhor para uma maioria e para nossos descendentes.

Mas nem tudo está perdido: há pessoas e coletivos se organizando contra isso. Imbuídas de emoções e razões ligadas não apenas à vida individual e privada, mas também à vida social e pública, essas pessoas tem se reunido virtual e fisicamente, em diversos países do mundo, para compartilharem sentimentos e indignações, e para pensarem e agirem coletivamente contra as injustiças e pela transformação dessa realidade.

Portanto, a questão é menos saber se as decisões são regidas mais pela emoção ou mais pela razão, e sim, se a razão e a emoção podem ser trabalhadas no sentido de uma ética capaz de orientar as ações e decisões rumo a um mundo menos violento e mais civilizado, em pleno XXI.

4) Quando elas utilizam mais o lado emocional, essas emoções costumam ser mais positivas ou negativas?

Há decisões acertadas e decisões equivocadas, movidas por emoções agradáveis ou desagradáveis. O saldo de uma decisão só pode ser avaliado depois, considerando os efeitos para si mesmo e para o entorno, efeitos esses que variam caso a caso.

Por isso coloco em questão a expressão “emoções negativas” e “emoções positivas”. Para quem? Em que momento? Será que, em se tratando de gente, negativo e positivo são categorias estanques, como na física? Penso que não…

Vejamos alguns exemplos: o medo costuma ser considerado uma emoção negativa, desagradável. De fato, uma pessoa com medo tende a se acovardar diante da possibilidade de iniciar algo novo, ou mesmo diante da possibilidade de se rebelar contra alguma injustiça. Assim, ao silenciar, a pessoa amedrontada escolhe permanecer no conformismo da situação conhecida, por ruim que ela seja. Isso é algo negativo do meu ponto de vista. Por outro lado, o medo também pode servir para que o sujeito tenha mais atenção e cautela ao agir, expondo-se menos a perigos, e assim, tem um papel importante na sua auto-preservação. Nesse sentido, o medo é positivo, sobretudo quando comparece na vida de alguém que costuma agir impulsivamente.

Esta ambiguidade também pode ser observada em relação às emoções supostamente positivas, ou agradáveis. Ora, como é bom tomarmos uma decisão quando nos sentimos confiantes e entusiasmados! Como é bom quando, movidos por uma paixão, decidimos fazer um gesto de delicadeza endereçado a pessoa amada. Por outro lado, a mesma paixão também pode tirar o sono, o apetite, a concentração e a capacidade de decidir pequenas coisas com ponderação. A paixão pode nos roubar o bom senso. Também as pessoas em estado de euforia, apesar de se sentirem muito bem, podem agir de maneira inconsequente, por exemplo, gastando mais dinheiro do que têm ou se expondo a situações desgastantes que poderiam ser evitadas se não estivessem tomadas por esta emoção. Na hora é bom, mas depois…

Soma-se a isso o fato de que o que é negativo para um pode ser positivo para outro. Ou ainda, algo negativo pode vir a ser positivo para si mesmo, em um outro momento de vida. Por isso, os significados de negativo e positivo podem variar de acordo com a pessoa, o momento, a época e o lugar.

Nas sociedades globalizadas contemporâneas, por exemplo, é comum se ver com maus olhos o sofrimento.  Quando se percebe que alguém está sofrendo, rapidamente a pessoa tende a ser vista como portadora de uma patologia, ela está deprimida e deve ser tratada o mais rápido possível. Sofrer, no mundo atual, parece ter se tornado sinônimo de perda de dignidade.  Contudo, em outras épocas, como no início do século XIX, o sofrimento esteve associado à criação artística, literária, à produção filosófica e científica.

Percebo que hoje em dia, cresce uma apatia e uma indiferença entre os jovens em relação aos acontecimentos e às pessoas. O que lhes importa, muitas vezes, é atingir um ideal de sucesso e bem estar – preocupação eminentemente narcísica, reflexo de uma sociedade narcisista. Talvez pelo excesso de mensagens, imagens e informações, os significados estejam se perdendo. É como se, para se sensibilizarem, fosse preciso uma estimulação corporal e fisiológica por meio de artifícios espetaculares, caso contrário, reina a apatia e a indiferença em relação ao que se passa ao redor.

Nesse sentido, a própria capacidade de sofrer e de entrar em contato com a dor (de si e de outrem) parece indicar um processo de perda de sensibilidade. Dito assim, considero positivo quando uma pessoa que vive na apatia recupera a capacidade de sofrer, algo que hoje, no senso comum, é visto como negativo.

Quando se perde a sensibilidade, sai perdendo também a razão. E vice versa. Faz parte do potencial humano integrar o pensar, o sentir e o agir. Razão sem sensibilidade resulta em discursos abstratos, escolhas frias, e por vezes, em ações violentas. Sensibilidade sem razão gera desorganização subjetiva e ações impulsivas, de teor destrutivo. Trata-se, portanto, de cultivar uma razão-sensível. Pensamentos ajudando a compreender e a diferenciar as emoções, e assim modulando as ações. E concomitantemente, emoções se integrando ao pensamento, propiciando escolhas e ações enraizadas no mundo da vida, e não num mundo abstrato, genérico e idealizado.

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comentários
  1. deniscristian disse:

    Oi profs! rs

    “Infelizmente, constato muitas vezes que o lado racional tem perdido feio para o lado emocional mais primitivo e animal: o egoísmo, a mesquinhez, o imediatismo, a violência. ”
    Eu diria que ele lado emocional não é tão primitivo, mas que é um repertório aprendido no contexto de uma sociedade liquida, hedonista e consumista.

    Apesar das perguntas serem BEM genéricas, adorei as respostas.

    Um beijo.

    • ahdeuscafofo disse:

      É Denis, talvez eu esteja subestimando algo de mais sofisticado que possamos eventualmente aprender nos contextos de liquidez, hedonismo e consumismo.

      Me alegra que tenha gostado! ; )

      Beijo pro cê.

      Profs.

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