O Matapu

– O que é isso? – perguntei ao índio na feirinha do Festival de Cultura Indígena em Bertioga.

– É um Matapu.

– Que Bonito! (Imaginei ele ornando belo em minha futura casa…)

– Serve para espantar onças.

Como esse que vai lá no alto, era um objeto assim bonito, em madeira pintada com formas pretas e tons terra. Era plano e comprido, em formato de peixe. E tinha uma cordinha presa numa das pontas, possivelmente para dependurá-lo como enfeite.

O índio me mostrou como é que eles fazem para espantar as onças. Disse que os Yalawapiti – grupo que, na ocasião da vinda de Orlando Vilas Boas tinha apenas 6 índios e hoje tem 300 – amarram o Matapu a uma corda comprida, giram-no várias vezes e assim produzem um zunido que afungenta as onças.

Conversamos um pouco e ele me contou que veio sozinho – trazendo grande quantidade de artesanato – do parque do Xingu até São Paulo. Durante a conversa, eu tentava disfarçar minha comoção. Tinha muitas perguntas que queria lhe fazer, mas estava acompanhada e ele também tinha outros clientes pra atender.

Mas o fato é que fiquei emocionada diante daquele ser que dialogava comigo falando tão bem a minha língua, portando uma sabedoria e uma beleza visíveis no (modo de) dizer, no corpo, no olhar, nos gestos, nos artefatos que vendia. Sabedoria e beleza que, por pouco, podiam não existir.

Em meio a esse “ritual” de compra e venda próprio da cultura do homem branco, cena corriqueira na vida urbana, na qual costumeiramente o rosto e as características das pessoas ficam apagados pelas mercadorias e pela pressa, senti imensa tristeza.

Havia índios de várias etnias vendendo artefatos naquele lugar. Como será, para eles, participarem de um evento como esse? Será que o dinheiro arrecadado realmente resulta em benefícios para seus grupos?

É certo que o capitalismo fagocita, tanto quanto produz – entre outras coisas – constrangimentos. De todo modo, nesse breve contato com o índio-vendedor, pudemos nos apresentar, olhar com calma nos olhos e ainda rir juntos. Isso porque não pude conter o comentário que veio à boca tão logo empunhei o Matapu escolhido e o ergui com o braço direito:

– As onças que se cuidem!!!

– Que onças?

– As onças da cidade…

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