Jardim Sonoro

Da janela da alma aos timbres do espírito: notas de um “Jardim Sonoro”   filme que venceu na categoria de melhor documentário da 34ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (texto de Thaís Seltzer Goldstein)

Niel Giardino Dei Suoni, ou Jardim Sonoro, é desses filmes-tesouros que descobri por acaso na Mostra Internacional de Cinema. É um documentário sobre a delicadeza e o abismo no/do humano, e sobre as pontes construídas para atravessá-lo a partir do encontro. Seu protagonista – gente de verdade, e não personagem de ficção – é um homem que mais parece um anjo: cada gesto seu nos apresenta e convida ao registro poético da vida.

Com um cuidado estético refinado e uma temática profunda, o documentário dirigido por Nicola Belluci é imperdível, sobretudo para terapeutas: ainda que não tenha a pretensão de ser didático, é um filme que contém lições sobre a travessia de mundos. Um filme sobre “o lado positivo da vida, o que é muito difícil” – como definiu o próprio diretor (tive ainda a sorte de participar de um debate com ele após a sessão).

A figura central do documentário é Wolfgang, um terapeuta suíço, cego, profundamente conhecedor do corpo e da terra, capaz de perceber seus ciclos e sons, e de abrir seu espírito ao encontro com a alteridade “significativamente diferente” (de si mesmo e dos outros).

Nosso “anjo-herói” tem cerca de 50 anos e ficou cego desde os 22, em virtude de uma retinose pigmentar que também levou à cegueira seus outros dois irmãos. Ele é musicoterapêuta, tendo atuado anteriormente como fisioterapeuta em Zurique, onde foi bem sucedido profissionalmente. Mas como sentia que algo faltava à sua vida, decidiu emigrar para um pequeno povoado na Toscana, onde montou um laboratório musical e passou a atender crianças e adolescentes com graves dificuldades de comunicação e desenvolvimento, em sua maioria filhos de trabalhadores locais.

Wolfgang desenvolveu uma apurada capacidade de audição quando ficou completamente cego: passou a escutar de uma maneira mais intensa, distinguindo e explorando as sonoridades e suas sutilezas, como quem apalpa e remodela um novo universo de referências.

Feito de imagens acústicas e mapas sonoros, o mundo habitado por Wolfgang se desvela não só pela musicalidade dos variados instrumentos que toca, mas pela sensibilidade de seus gestos e descobertas.

O filme é uma cuidadosa edição de um material vasto, fruto da estadia prolongada do diretor no espaço terapêutico de Wolfgang. Temos a chance de testemunhar transformações no processo terapêutico de quatro pacientes autistas, ao longo de dois anos. Nos atendimentos, vemos como a dupla produz um diálogo sonoro-corporal que, no decorrer do tempo, vai virando música, sentido e ampliação do repertório de possibilidades existenciais.

Os sons vão sendo entrelaçados a significados sempre que possível. E quando não são, estamos no campo da pura experiência estética: os timbres encantam, embelezam, arrepiam, incomodam, dão voz ao mistério.

O protagonista, além de atuar como terapeuta, também pesquisa e registra sons: da terra (e seus movimentos internos), dos animais, do vento, das águas… Nessa poética sonora do espaço e do encontro, Wolfgang apresenta-nos uma riqueza de sonoridades naturais – na Toscana a natureza ainda é bela e pulsante – e propõe usá-las como meios de comunicação originária com aqueles que, antes de aprenderem a falar, emitem grunhidos, suspiros e outros sons que se assemelham mais aos sons dos bichos do que da fala humana.

A partir de uma linguagem mais psi, poríamos dizer que a musicoterapia de Wolfgang possibilita aos seus pacientes o reconhecimento de um si mesmo e do outro, assim como de um campo possível para o aparecimento do gesto pessoal via experimentações estético-corporais, que finalmente levam à ampliação do repertório expressivo individual. Faz lembrar o jogo da espátula proposto pelo psicanalista inglês Donald Winnicott, no qual a criança vive um ciclo composto por três momentos  necessários ao seu desenvolvimento, assim como ao bom atravessamento de outros ciclos ao longo da vida. São eles:  o momento do aproximar-se do objeto desconhecido; o momento de interagir com ele – a presença discreta de um outro  tende a ajudar – e o de separar-se ou abandonar o objeto. Para esse psicanalsita, a possibilidade de se viver cada uma dessas fases é fundametal para que o ser humano supere dificuldades e conquiste a confiança em si e no mundo, nele deixando suas marcas pessoais e podendo se abrir ao encontro com a alteridade (do mundo, dos outros, de si mesmo).

Além de um espaço repleto de instrumentos musicais e objetos que acolhem o corpo de seus pacientes, Wolfgang oferece seu próprio corpo como campo de significação sonora, banhando os encontros de sentidos que insistem no chamado à comunicação, ao relaxamento, à brincadeira e à contemplação. São intervenções como toques, palavras sussurradas no contato com partes do corpo, na invenção de coreografias singulares em sintonia com a música produzida, jogos sonoros e corporais que apóiam, encorajam e transformam – sem pressa nem desinteresse – vidas humanas marcadas pela precariedade.

“Sou um anfitrião sonoro. Apresento os sons e espero pra ver por quais eles se interessam” (…) “Trabalho para que essas crianças possam estar mais felizes e dignas, para que possam relaxar, conhecer e ampliar as formas de se expressarem”.

Interessante pensar que a ética que orienta o trabalho de Wolfgang é a singularidade da vida humana, possível de se apresentar no registro estético. Também por isso, esta obra parece ter uma atmosfera sagrada.

Nos encontros com seus pacientes, o terapeuta é capaz de respeitar seus ritmos e perseverar na busca do idioma pessoal de cada um. E isso é feito de um modo tão cuidadoso, que as cenas acontecem sem que lembremos que ali havia a presença de uma equipe de filmagem e todo um aparato técnico.

Perguntei sobre isso ao diretor, que relatou ter ficado por mais de dois anos como um etnólogo, sozinho, filmando o cotidiano dos atendimentos no laboratório musical de Wolfgang, antes de chamar a equipe de filmagem. Aliás, a própria irmã do diretor é autista e foi paciente de Wolfgang.

Curioso que, ao fim do debate, ouviu-se uma pergunta curiosa: “O que Wolfgang achou quando viu o filme?” Por um instante, a pergunta soou plausível e interessante: ora, sempre nos interessa saber a respeito do impacto de um belo trabalho sobre seus participantes. E assim nos esquecemos de que Wolfgang é cego, e portanto, não pode “ver” o filme. E só nos esquecemos disso, afinal, porque ele vê muito mais do que nós!

comentários
  1. Gilmar Romao disse:

    Goldstein_ sempre sensível e perspicaz_ traz refinada observação e analise esse texto que nos remete a imensa vontade de apreciar tal obra pela tão perfeita descrição. Parabéns pelos serviços de bom senço e sobre tudo de otima qualidade.

    Carinhosamente,

    Romão.

  2. PAULO AMORIM disse:

    Querida Tata, conte sempre com a força de meu otimismo e admiração por vc e suas histórias !!!

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