A Morte e a Donzela

A Morte e a donzela: os efeitos de um crime e as possibilidades de justiça

Dirigido por Roman Polanski e com a participação de Sigourney Weaver, Ben Kigsley e Stuat Wilson, o filme se passa numa casa afastada de tudo o mais, na costa de um país latino americano, creio que final dos anos 80. Nesta casa, três personagens vivem uma noite repleta de emoções, lembranças e negociações.

A vida de um deles está em jogo, pois ao fazer um favor para o morador da casa, fôra identificado por sua esposa como sendo seu agressor no passado. Na época da ditadura militar nesse país, essa mulher fôra presa e vitimada pela tortura, e esse homem visitante, médico então contratado pelos militares para “aliviar a dor” dos presos políticos, ao invés disso, violentou-a repetidamente. Agora ele estava ali diante dela, sob quatro paredes.

Ela, habitada por sentimentos que misturam ódio, raiva, sede de vingança, nojo e vontade de se libertar desse passado terrível, tem agora o poder de mantê-lo preso e fazer com ele o que bem quer. Mas o que poderia ela querer dele? O que poderia lhe trazer alívio diante da dor, da humilhação, e da vergonha que ficaram impregnadas em sua vida e em seu casamento após o que vivera quando confinada em cativeiro?

Na noite em que transcorre o filme, a vítima de outrora, que parece ter desenvolvido ao longo dos anos uma notável habilidade para se defender de agressões, encontra-se agora em uma situação de poder: identifica o agressor antes que ele o faça, e enquanto ele dorme no sofá, ela o golpeia e o amarra, mantendo-o sob a ameaça de uma arma. Como diz o ditado: “tem a faca e o queijo na mão”.

Mas ela não está sozinha. Em verdade, quem havia recebido a visita do homem é seu marido, que por sua vez, ficara agradecido pelo gesto solidário do homem (ele havia lhe prestado ajuda na estrada sob forte tempestade), e assustado com as atitudes estranhas da esposa. Assim, ele tende a acreditar que sua mulher está enganada e perturbada, provavelmente confundindo o bondoso visitante com o torturador do passado. Sendo o marido também advogado, analisa os fatos de maneira cautelosa, tendendo a dar mais crédito à palavra do homem – que, acuado, nega ser o autor da tortura – do que à palavra de sua mulher,  que naquele momento portava uma arma e alegava reconhecer seu agressor pela voz e pelo cheiro, uma vez que teve seus olhos vendados durante as sessões de tortura.

A presença desse terceiro personagem, o marido e advogado defensor dos direitos humanos (contratado pelo presidente para digirir o comitê que vai apurar os crimes políticos durante a ditadura),  dá à trama uma complexidade interessante, matizando as paixões por elementos de uma razão alimentada por ingredientes como a desconfiança em meio ao companheirismo, a mentira em meio à estratégia de ação emergencial, a gratidão e o amor em meio aos ideais de justiça.

Para a mulher, o que interessava era que seu agressor confessasse seus crimes. Essa era sua condição para libertá-lo vivo. Mas teria de ser uma confissão verdadeira, e não mera performance. Não, ela precisava que ele confessasse verdadeiramente, perante ela e o marido, com os detalhes e motivações de seu gesto. Era preciso que ele falasse, com sinceridade, o que fez e por que fez. E se o fizesse, ela o libertaria.

Mas ele insiste em negar. Depois, aceita confessar, mas o faz como uma moeda de negociação pela sua liberdade, embora sustente que está confessando porque é coagido a isso. Até que a protagonista perde a paciência e o leva, amarrado, até a beira de um penhasco.

Nesta hora, mira seus olhos como quem o desafia a honrar o que fôra sua vida: perante o absimo da morte, para que ainda fingir?! E assim ela finalmente consegue que ele confesse o crime: com detalhes que inclusive não tivera coragem de dizer antes ao marido.

Após essa confissão, exaurida, ela simplesmente vira às costas e o deixa para trás. Já não se importa mais com a vida do homem. O marido, por sua vez, que até então desconfiava da esposa defendendo o diálogo pacífico e racional, fica indignado e cheio de raiva: parte para cima do agressor, como se fosse atirá-lo do penhasco. Mas por seus princípios, não consegue. Acaba desistindo e, com postura derrotada, também vira as costas para o agressor deixando-o para trás.

O filme faz pensar que a vingança ou a punição do torturador, por si só, não seriam soluções aos personagem, podendo inclusive trazer-lhes outros problemas, como a culpa, a perseguição policial, o incremento da própria dor. Ao contrário, o filme sugere a importância do confronto entre agressor e vítima, como uma oportunidade de reparação (ou minimização) dos danos causados,  questão da maior relevância quando se trata de superar os efeitos terríveis de uma violência e oportunizar aos atores envolvidos uma outra compreensão e assumção de responsabilidades.

Nesse sentido, é interessante notar que mesmo não estando diretamente envolvido com o crime, o marido percebe de um modo contumaz sua responsabilidade no acontecido, uma vez que o silêncio sustentado pela esposa durante as sessões de tortura fora para preservar a vida do marido. Não fosse por ele,  possivelmente a tortura não teria acontecido.

Para muitos, a vingança poderia aliviar. Por outro lado, fica a pergunta: como seria se vítimas e agressores tivessem a oportunidade de estarem tet à tet uns com os outros, na presença de um terceiro (pessoa concreta ou um coletivo), em uma situação capaz de garantir a possibilidade de falarem e se escutarem verdadeiramente, explicitarem os motivos e conseqüencias da agressão, os danos e as necessidades atuais da vítima?… Será que, se tudo isso pudesse acontecer, seríamos capazes de uma justiça não punitiva, e sim, potencialmente restauradora das dignidades perdidas: tanto da vítima quanto do agressor? (Pergunto isso inspirada por um tipo de justiça que vem se consolidando em alguns países e está orientada por essa perspectiva: chama-se “Justiça restaurativa”)

Tendo a crer que, sem esse duro processo de enfrentamento vivido pelos personagens, ainda que muito tempo se passasse, ficaria a mesma dor e os mesmos fantasmas, marcas indeléveis do trauma vivido, além de uma visão que desumanizaria por completo o agente do crime, inviabilizando qualquer possibilidade de se discriminar a crueldade do ato da pessoa que é o seu autor – sem o que fica impossível apostar na idéia de que o ser humano pode se transformar, se redimir e perdoar.

O final do filme é intrigante: em meio à peça de Schubert “A Morte e a Donzela”, tocada no teatro por um quarteto de cordas – por sinal a mesma peça que servira como trilha sonora para as sessões de tortura – revela-se um reposicionamento dos personagens. No mesmo teatro, apreciam a mesma música. Na platéia, o casal. No balcão superior, o médico ex-torturador, sua esposa e seus dois filhos. Trocam olhares. São seres humanos se olhando nos olhos.

Haverá esperança para a humanidade? Acho que Polanski levanta a questão, mas se esquiva de respondê-la, preferindo nos deixar a todos, vítimas e agressores, atores e espectadores, com a beleza e o mistério da música de Schubert…

comentários
  1. lifega disse:

    Thais, fiquei com uma vontade danada de ver o filme! Foi bastante comentado, na época, e eu – sabe-se lá por que – deixei de assistir. Sorte do dono da locadora de dvd…

  2. Acabei de assistir e por alguns instantes, cheguei a acreditar que o Miranda fosse inocente……

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