Pânico do Pânico: um espetáculo de humilhação e irresponsabilidade

Publicado: 06/11/2012 em Situações e reflexões

Acabo de assistir a um programa supostamente de humor exibido na TV aberta e divulgado no portal da UOL. É o “Pânico”. Para os que não conhecem (e sugiro que sigam sem conhecer), ele exibe reportagens com pegadinhas à base de ironias e deboches de pessoas as mais diversas, inclusive figuras públicas e midiáticas.

É certo que a ironia e o improviso são armas da linguagem que, se bem utilizadas na TV, têm o mérito de desnudarem com inteligência e “catigoria” a podridão que subjaz as belas imagens photoshopadas das criaturas da mídia: levam o outro a se enforcar com a própria corda…

Mas não. Esse definitivamente não é o caso desse programa. Ou se já foi, deixou de ser. Quando a busca por audiência veicula espetáculos da vida privada de terceiros que não pediram para estar daquela forma expostos, e ainda, às custas de mentira, coação, irresponsabilidade, machismo, humilhação e mau gosto, não dá pra ver e passar batido…

O que é isso, peloamordi?! Para quem não viu, contarei. Evidentemente, minha narrativa contemplará os incômodos e questionamentos de quem viu este show de horror até o fim.

O contexto: o rico e belo judeu da elite paulistana vai se casar com a moça de seus sonhos. Tudo está bem encaminhado. A festa será na quinta-feira, a moça é linda e o casal – ao que parece – se ama. Poucos dias antes da celebração, o noivo é chamado pela produção do programa para fazer uma participação, na qual vestiria um narigão de borracha e faria uma reportagem parodiando um famoso apresentador televisivo. Ele topou. A cena começa com ele ainda vestindo o nariz.  No meio do caminho, ele é avisado de que não era mais isso que ia rolar. O noivo não gosta da mudança, diz isso expressamente e deseja ir embora. A produção então insiste – com a voz, com o corpo e claro, com a câmera – para que ele fique e os acompanhe a uma festa que está rolando no local. Ele não quer se estressar, nem arranjar problemas na véspera de seu casamento, mas acaba sendo dissuadido a ficar e ir à tal festa. É então informado de que se trata da SUA festa de despedida de solteiro.

O galã, antes de entrar com certa resistência no elevador, ainda se rebela:

“Ok, todo mundo brinca, eu tenho que aceitar a brincadeira, mas acho que isso que vocês estão fazendo é uma calhordice, uma filha da putag…. PIIIIIII! Nesta hora, o palavrão bem dado do moçoilo é silenciado por um sinal de censura. Ah, a velha hipocrisia da moral televisiva que mais adiante vai produzir e exibir coisas bem piores que palavrões...

Enquanto isso, na sala de (in)justiça, a noiva, juntamente com as esposas dos amigos do noivo, são mantidas em um quarto no qual uma TV imensa transmite as imagens em tempo real do que está acontecendo na festa.

Lá estão seus maridos: enchendo a cara e apreciando a paisagem erótico-minimalista: pista de dança à meia luz, música alta, drinks à vontade (afinal, quanto mais bêbados, mais babados pra comentar depois!) e, para completar o grau máximo do ritual estereotipado: uma numerosa fauna de fêmeas brancas e gostosas de bunda de fora se oferecendo como garotas de programa. O repórter faz questão de destacar que a proporção é de 12 mulheres para cada homem, como se tal assimetria numérica fosse o grande fetiche do macho. Talvez seja: do macho burro, pois se conseguir ter e dar prazer com uma já é difícil, o que dirá com doze? Mas isso não importa nesse espetáculo em que fingimento e realidade se confundem…

A situação vai se complicando na medida em que o grau etílico e erótico aumenta na festa dos machos, que vão se permitindo proximidades com as fêmeas locais sem saberem que estão sendo vigiados pelas esposas.

No esconderijo das moçoilas – todas esguias, brancas, loiras e parecidas –  a equipe as incita a observar e se indignar com o mau comportamento de seus respectivos, num sadismo travestido de moralismo tão falso, que a gente chega a torcer pra que elas se excitem com as cenas. Será que elas não se dão conta de que a mesma equipe que pousa de defensora da moral e dos bons costumes está empurrando seus maridos para a tentação da libertinagem? Mas ao contrário de criticarem a produção, elas parecem agradecidas pela oportunidade de se pôr à prova o amor e a fidelidade dos maridos.

O ápice da humilhação é quando, depois de um desfile de moças gostosas se insinuando e se esfregando no noivo, a produção convida uma mulher negra, relativamente gorda e velha – que deve ter precisado de dinheiro para se prestar a esta cena enfadonha – a se insinuar eroticamente ao noivo e lhe pedir um beijo na boca na frente de todos.

Nesta hora, enquanto os presentes gritavam “beija, beija, beija!” com um notável ar de deboche, tive vontade de bater palmas pro noivo! Não sei se por rebeldia, por tesão encubado,  porque estava bêbado ou um misto de tudo isso – o galã surpreendeu a todos: tascou-lhe um beijo de língua de fazer gosto e dar nó no Tico e no Teco daqueles cérebros enlameados de preconceito. Até a noiva pareceu curtir o beijo, ao menos por alguns instantes, antes de perceber que, na vista dos outros, cabia repudiá-lo.

Depois de induzir os maridos – que obviamente não são santos – a transgredirem a fidelidade sexual com mulheres-comestíveis contratadas como se fossem fêmeas no cio, depois de provocar o desgosto nas esposas e ainda humilhar alguém que destoa dos padrões dominantes de beleza, a produção  ainda não estava satisfeita.

Convenceram a noiva a se vestir de coelhinha erótica mascarada e entrar na festa, pois queriam ver como o noivo reagiria. Mesmo não sendo profissional do ramo, e principalmente, por estar  psicologicamente abalada com tudo aquilo, ela topou. Mas, em pouco tempo, a moça retirou a máscara e se fez reconhecer, o que causou espanto no noivo. Afinal, estaria ela por detrás de tudo isso?! Teria ela planejado esse espetáculo de mau gosto às vésperas do casamento?!

Do jeito sacana como a coisa foi conduzida pela produção, o noivo ficou sem saber que ela também havia sido pega de surpresa. E ela, sem conseguir adiar a exposição de seu mal estar, acabou querendo satisfações dele ali mesmo, no meio de todos e das câmeras. E como se não bastasse a DR pública dos casal protagonista, a porteira do salão se abriu e entraram o resto do bando das esposas raivosas.

Pronto, era isso que a produção queria: acabar a festa com um barraco coletivo! Não adiantava mais, àquela altura, declarações de amor, pedidos de desculpas, e tentativas de sanar o mal estar com beijos e abraços forçados dos maridos bêbados em suas companheiras furiosas… Ora, não é com mágica que se resolvem mágoas e conflitos dessa ordem. Lamentavelmente, ninguém botou pra correr a equipe do Pânico, pois era o que mereciam. E não é que ainda tiveram a cara de pau de encerrar o programa com uma coletânea de filmagens nas quais desejavam votos de felicidade ao casal?!

Eu até entendo a intenção de se problematizar a face hipócrita que permeia a vida de muitos casais. Mas ainda assim pergunto: desse jeito? Para quê?

Ora, determinadas crenças e valores – como a ideia de que o amor só se realiza no casamento monogâmico e fiel, na coabitação e na procriação – ainda são, como diria o filósofo Michel Onfray, “ficções socialmente úteis e necessárias”. Portanto, para desconstruí-las, há que no mínimo se arcar com o ônus da decepção – que no caso, foi socialmente induzida e irresponsavelmente exibida como espetáculo. E indo mais além – e sei que isso é o mais difícil – proporem-se saídas mais interessantes e honestas para o enfrentamento dos problemas conjugais. Mas de novo, não é esse o caso.

Pena que ainda tem gente que aprecie e defenda esse tipo de programa, muitas vezes com o argumento de que é disso que o povo gosta, é isso que o povo quer. Lembrando que povo, não é só o dito “povão” não, mas também uma elite endinheirada que, ironicamente, está imersa na miséria da futilidade e do gozo enlatado.

Que tal nivelar por baixo qualquer ética pra vender riso perverso? Que tal alimentar o “lado B” dos espectadores entediados? Esse deve ser o pensamento da produção desse lixo televisivo.

Isso te entretém? Ok, só não me venha depois se queixar de pânico, tá?

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comentários
    • luiz disse:

      Thaisita, creio que esse é o pior programa da tv brasileira e olha que tem uns concorrentes fortes…penso que a única solução é não assistir e cantar com Caetano: “love, love, love”!

      • adeuscafofo disse:

        E com Pelé, né Luizito?

        Só mesmo muito love…

        Beijo pro ce.

  1. Se é que tudo não passou de uma grande armação, hein?!

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