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Preâmbulo

Há dias, uma jornalista solicitou-me que participasse por email de uma entrevista para uma matéria sobre “pessoas sangue-sugas”, que vai sair na sessão de comportamento de uma revista local. Enviou-me as seguintes perguntas, que transcrevo tal como as recebi:

” 1 – Há pessoas que estão deprimidas, infelizes e querem sugar o que você tem de bom. Como a “vítima” pode se proteger sem parecer insensível com os problemas do outro? Ou seja, como ser solidário sem perder o seu sangue, a sua energia boa…

2 – E quando perceber que sua energia está sendo sugada, como reverter?

3 – Também há casos em que a pessoa é do bem, mas tão alegre, tão ansiosa para partilhar experiências, tão tagarela… que também suga suas energias. Como fazê-la perceber que deve ser “menos, muito menos”?

4 – Você já atendeu algum caso de vampiro(a) ou de vítima?

5 – Em casamentos, há vampiros que tiram a energia do parceiro?”

Depois de ler as perguntas, e lembrar que a jornalista havia me liberado de respondê-las todas, enchi uma taça de vinho, tomei fôlego e fui… Se o que vai sair na revista terá ou não a ver com o que disse, só depois saberei. De todo modo, a ocasião me fez produzir esse texto que vai aqui embaixo e que, depois de longo jejum, alimenta este blog pela primeira vez em 2015.

VAMPIRIZAÇÃO

Notas psicossociais sobre a vampirização (ou: “Entrevista com a Psicóloga II”)

É certo que pessoas em estado de infelicidade ou de depressão costumam ter menos energia vital, mas isso não significa que “vampirizem” o seu entorno. Muitas, inclusive, preferem recuperar forças recolhendo-se em ambientes isolados; outras se fortalecem quando (re)encontram sentidos existenciais abalados  ou mesmo perdidos, por meio do engajamento em alguma atividade (artística, religiosa, comunitária, esportiva, profissional, política, terapêutica etc). Portanto, não necessariamente a depressão ou a infelicidade levam a um modo vampiresco de se relacionar. E mesmo se levarem, é bom lembrar que uma “vampirização” pode estar presente também em relações entre pessoas supostamente felizes e bem sucedida$$$.

Por isso, prefiro falar de “modos de se relacionar” – ao invés de “identidades” estáticas, construídas por oposição (tipo: “vampiro X vampirizado”, “algoz X vítima”, “infeliz X feliz”). Acredito que mesmo as relações entre duas pessoas (chamadas diádicas em psicanálise) têm a sua complexidade… Por exemplo, essas relações tendem a perdurar através de uma complementariedade de papéis e uma psicodinâmica que pode ser mais harmônica ou desarmônica, mais cooperativa ou competitiva…

Há poucos dias, um colega citou uma teoria sobre dois tipos emblemáticos de relação diádica por meio da metáfora do jogo de tênis e do jogo de frescobol: ambos se assemelham por contarem com dois jogadores, raquetes e bola em movimento. Mas apesar das semelhanças aparentes, a lógica que rege cada um deles é totalmente diferente: enquanto no frescobol os jogadores facilitam a passagem da bola para evitar que ela caia no chão, no jogo de tênis, ao contrário, tentam derrubá-la no campo do outro: ou seja, enquanto o frescobol é regido pela lógica da cooperação, o jogo de tênis segue a lógica da competição.

tenis casamento

Percebo que em muitas relações, sobretudo nas menos maduras, esta complementariedade tende a se enrijecer: cada um vai se fixando em um determinado papel e deixando de desenvolver novas potencialidades: em si e na relação. Existem relações em que os papéis se cristalizam de tal maneira, que a repetição excessiva de um mesmo padrão suga a energia de um (ou mesmo de ambos). Por isso, penso que, assim como indivíduos, relações também podem adoecer… Relações marcadas pela constante perda de energia (vital e criativa) são relações adoecidas e adoecedoras.

O capitalismo neoliberal globalizado também tem contribuído para (re)produzir relações e situações competitivas desumanas, sugadoras de nossa vitalidade. Acho que não é à toa, por exemplo, que as narrativas, filmes e games de zumbis e vampiros estejam fazendo tanto sucesso por toda parte: de algum modo ajudam a dar sentido a esse mundo caótico, contraditório, que se desenvolve tecnologicamente, ao mesmo tempo em que deteriora ecológica e eticamente; um mundo onde a hiperconectividade coexiste com a profunda solidão…

Acredito que pessoas imersas cronicamente na solidão tendem a ficar desajeitadas na presença de outras, podendo eventualmente abusar da paciência de quem as escuta. Nesses casos, o ouvinte pode se sentir vampirizado, pois vai perdendo a disposição para dar atenção ao outro, já que não há reciprocidade. 

solidão na multidão

Há também os encontros que vampirizam e podemos dizer que neles, uma das partes envolvidas se sente fazendo um esforço imenso, além do habitual, naquela interação social. Quando isso ocorre, cabe perguntar: qual é o contexto da interação?É um contexto profissional ou social? Há uma relação de poder envolvida? Há abertura para que os sujeitos expressem suas diferenças? Estou com disposição para dialogar com essa pessoa? Ou ainda: será que a vida que levo me possibilita ter disposição para ouvir e dialogar com os outros???

Essas questões são fundamentais para que possamos reconhecer a origem da perda de energia que sofremos, e assim podermos buscar meios de enfrentamento e autopreservação.

Em um consultório de psicologia, esse fenômeno é comum. Às vezes, ele se faz presente pelo sono intenso e repentino que um determinado paciente desperta no terapeuta, quando começa a falar. Isso requer que o profissional não apenas encontre estratégias para manter sua escuta atenta, mas que consiga ir além, desenvolvendo um manejo que facilite ao outro se perceber e encontrar outras possibilidades de pensar, sentir e agir…

Por isso, mesmo não sendo uma dica simples, olhar para o contexto, para o(s) outro(s) e para si mesmo é fundamental para que consigamos nos posicionar diante de uma pessoa, de uma relação ou mesmo de um encontro que nos vampiriza. CRISTAL

Não há receita geral que não passe por uma sabedoria adquirida na prática: cada um sabe o quê, como e quando se incomoda com algo/alguém. Há gente que escolhe manter as aparências para não ameaçar o vínculo, mas acaba perdendo a autenticidade e a energia; há gente que opta pelo confronto direto, pela ironia, podendo gerar desconfortos; outros preferem sair de cena, seja dando alguma desculpa, seja assumindo seu limite; há ainda os que persistem em situações desgastantes porque acreditam que ela pode mudar… Em todos os casos, podemos encontrar alívio para as tensões; mas também pagar um preço pela escolha feita. 

Acredito que a sabedoria advinda da experiência e da (auto)análise são ingredientes indispensáveis para que possamos redimensionar nossas expectativas em relação ao(s) outro(s), nos preservarmos – o quanto possível – de situações e relações vampirescas, e ainda desenvolvermos modos de interação com mais energia, criatividade e alegria.

Hoje, milhares saíram às ruas em diferentes partes do mundo para chamar a atenção para o problema do aquecimento global. “A luta é pela vida, antes que seja tarde demais” – diziam cartazes. Mas… será que estamos suficientemente preocupados com o aquecimento global? 

Para um breve entendimento do problema, um dado numérico: em vez de as geleiras refletirem 90 % da luz que nelas incidia, há algumas décadas (mas principalmente após os anos 2000), elas vêm sendo visivelmente derretidas (pelo “efeito estufa” – acúmulo de CO2 na atmosfera).  Superfícies escuras estão tomando o lugar do gelo, e ao invés de refletirem a luz (e o calor) para fora, acabam os absorvendo em 90 %. Isso significa uma grave inversão de vetores, responsável pela absorção maciça de calor no interior da terra e das águas. Fala-se de uma cadeia de feedbacks que produz o aumento da temperatura, o derretimento das geleiras, o crescimento do volume de água dos oceanos, a liberação de gás metano, e o progressivo aquecimento global. Atualmente, a situação mais crítica está no Oceano Ártico e na Groelândia, mas a tendência é o alastramento deste processo, por exemplo, sob a forma de deslocamentos furiosos de água varrendo cidades, afora o aumento da temperatura


Tem gente que acha que isso é “catastrofismo”, “teoria da conspiração”, ou mesmo um “fenômeno natural”, sem fazer qualquer relação entre as alterações climáticas e ecossistêmicas (isso quando se chega a falar do assunto) e a produção/consumo desenfreados – e irresponsáveis – do capitalismo tardio. Discursos que ignoram ou negam a gravidade da situação são um verdadeiro desserviço: porque propagam alienação e imobilismo.

Claro está que, se não nos conscientizarmos disso que os cientistas pesarosamente nos revelam, e se não cuidarmos de reunir forças para inventarmos estratégias que, no mínimo, reduzam os danos e posterguem o processo, o fim da civilização estará mais perto e será mais avassalador do que muitos filmes apocalípticos de Hollywood exibem.

Aos que pensam no futuro de seus filhos e netos, recomendo fortemente que vejam o filme que vai no link abaixo. 

Com pesar e preocupação, despeço-me imaginando 7 bilhões de silêncios…

mitos-e-verdades-sobre-o-aquecimento-global-3

Onfray x Freud

Publicado: 13/03/2014 em Situações e reflexões

Onfray x Freud  

Este post foi escrito com base num debate realizado na rede social sobre a publicação de uma entrevista com o filósofo francês Michel Onfray, que critica as ideias do pai da Psicanálise. http://fronteiras.com/canalfronteiras/entrevistas/?16%2C193

Vi Onfray quando veio ao Brasil fazer esta conferência, em 2012, no “Fronteiras do Pensamento”. Seus argumentos pareceram-me muito bem embasados em pesquisa documental, além de filosófica e cientificamente contundentes. Um monte de psicanalistas (possivelmente os mais ortodoxos) saíram no meio batendo a porta, indignados com a desconstrução que ele fez do “guru”.

Mas o mais curioso é que, apesar de apontar as contradições silenciadas entre o que Freud dizia nas cartas e nas obras, apesar de mirar a vaidade/ambição e o uso da cocaína de Freud como motores da expansão de suas ideias, e apesar de afirmar a fragilidade teórica das universalizações indevidas que ele fez (como o Complexo de Édipo, entre outras), o próprio Onfray, em algumas discussões recentes (refiro-me a algumas presentes em seu livro “A potência de existir”, 2012), vale-se de contribuições freudianas em seus raciocínios. Por exemplo, ao discutir a origem do machismo, Onfray usa a ideia de “apoio” (fundamental para entender o conceito chave de “pulsão” em psicanálise) e defende que a limitação do prazer masculino em relação ao feminino (relacionada a condicionantes biológicos) pode ter levado o homem a reagir (inconscientemente, rs) a esta “diferença sexual” que acarreta uma desigualdade, por meio de uma esculhambação (palavra minha, tá?) do feminino.

Seria isso uma espécie de ressentimento recalcado, rs? Ora, a equação freudiana teria então sido invertida por Onfray: da “inveja do pênis” passaríamos à inveja da vagina, do clitóris, dos orgasmos múltiplos, da forte influência cultural na construção da vida erótica, da possibilidade de gestar, parir, amamentar e por aí vai…

Mas deixando de lado esta instigante discussão, resumiria assim o que penso: 1 – não acho que é o caso de dizer quem está certo e quem está errado (há “bolas dentro” dos dois lados); 2 – sim, é preciso ter um olhar crítico para os (efeitos de) discursos que concebem sujeitos e fenômenos sociais de maneira descontextualizada e a-histórica; e apesar disso ocorrer no meio psicanalítico (mas não só), nem toda psicanálise é assim; 3 – não há como negar a importância da psicanálise (por mais que produza “igrejinhas”, que seja datada, burguesa, eurocêntrica,  e heteronormativa em sua origem), pois ela abriu novas possibilidades na história do pensamento ocidental moderno, úteis inclusive a quem as critica, como Onfray.

Por fim, me pergunto: será que Onfray já deitou num divã? Afinal, a boa compreensão, para ser transversal, precisa também da horizontal, não?

 

psicanalista

Nestes dias frios paulistanos, nem as calorosas discussões políticas nas redes sociais puderam esquentar o corpo. Contudo, a reflexão, esta sim, foi aquecida. Uma delas merece destaque: a polêmica em torno do Ato Médico.

Uma querida amiga médica, com toda delicadeza, perguntou-me com genuína curiosidade, por que eu era contra o Ato Médico? Ela não compreendia o que podia haver de errado com o Projeto de Lei do Senado 268/2002, que regulamenta o exercício profissional dos médicos

(http://comunicacao.abmnet.org.br/arquivos/Lei-do-Ato-Medico.pdf)

Este post é dedicado a ela, que com sua sensibilidade, dedicação e espírito aventureiro, vem desenvolvendo um belíssimo trabalho na fronteira entre a Medicina e a Dança, junto a pacientes HIV positivos em um Hospital Público na Bahia. Para não me derreter em elogios à moça, sigamos rumo à análise do documento conhecido como “Ato Médico”. Mas antes, dois esclarecimentos.

Primeiramente, acho importante distinguir que, levantar questionamentos ao PL não significa ir contra a regulamentação do exercício da Medicina. Como qualquer outra área, sobretudo nesse país gigantesco e heterogêneo, onde os cuidados com a saúde acontecem das formas mais variadas e bizarras, é preciso balizar diretrizes para o exercício da medicina (assim como para outras profissões), de maneira afinada às necessidades de nossa realidade, tanto para profissionais brasileiros, quanto para estrangeiros.

Em segundo lugar, o fato de eu levantar críticas a alguns pontos do Projeto, não significa que o documento seja de todo ruim. Aliás, pouco posso me pronunciar sobre boa parte dele, uma vez que na condição de psicóloga, não disponho de condições de avaliar: em sua maioria, parecem-me questões técnicas, próprias da medicina.

Dessas cláusulas mais técnicas, a única que me atrevo a questionar diz respeito ao parágrafo quarto, referente aos procedimentos invasivos da derme e epiderme. De acordo com ela, profissionais não médicos que são reconhecidos em suas áreas e praticam legalmente a acupuntura, ficariam impedidos de praticá-la, ficando esta atividade restrita ao campo da medicina. Ora, por que privar o exercício legítimo de outros profissionais, ainda mais considerando que, por décadas, a própria medicina (ocidental) desqualificou a acupuntura ou sequer mencionou-a em seus cursos de formação?!

Quanto às demais problematizações, mesmo não sendo médica, autorizo-me a falar do lugar de psicóloga, ex-servidora pública (de Centros de Atenção Psicossocial), pesquisadora no campo da saúde e cidadã, usuária de serviços de saúde públicos e privados. Então vamos a elas:

No Art. 4º, quando se abordam as “atividades privativas do médico”, consta lá: “formulação do diagnóstico nosológico e respectiva prescrição terapêutica”.

Ora, atrelar o diagnóstico e qualquer prescrição terapêutica somente ao médico significa impedir que os demais profissionais da saúde possam exercer livremente suas atividades em suas respectivas áreas de conhecimento científico e profissional, conforme já regulamentado em leis anteriores. No caso da saúde mental, por exemplo, o psicólogo ficaria de fora do processo de avaliação diagnóstica, por meio do qual poderia identificar psicopatologias, psicodinâmicas, e também propor ações terapêuticas, dado que “diagnóstico nosológico e prescrição terapêutica” também fazem parte do exercício do psicólogo. Entretanto, com tal especificação, isso passa a ser atividade restrita a médicos, correndo o risco de restringir-se, de maneira acrítica, aos padrões normativos de saúde propostos pelos questionáveis Manuais de Doença Mental (DSM IV e agora o V, dos quais ninguém escapa de ter alguma patologia, vide o artigo de Eliane Brum, “Acordei Doente Mental” http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/05/acordei-doente-mental.html)

Tampouco passa despercebida, na redação deste documento, uma certa confusão (proposital?) entre a necessária demarcação das diferenças/especificidades da medicina, e a injustificável sustentação de uma desigualdade entre as profissões da saúde. Em outras palavras, algo que o dito popular costuma chamar de “dois pesos e duas medidas”.

De fato, as responsabilidades dos médicos são diferentes, e por vezes mais radicais, do que aquelas assumidas por outros profissionais da saúde. Mas ainda assim, os profissionais não médicos também assumem riscos, responsabilidades, e – como os doutores – suas ações podem ter efeitos eficazes ou desastrosos dentro de um processo terapêutico.

No entanto, as responsabilidades, o conhecimento técnico e as intervenções dos demais profissionais da saúde são pouco reconhecidos, na medida em que existe uma escancarada desigualdade entre os contratos de médicos e não médicos. (Basta comparar as horas trabalhadas e os salários recebidos. Até no mundo acadêmico é assim: a hora/aula de um Professor Especialista no curso de Medicina vale o dobro que a hora/aula de um Professor Doutor no curso de Psicologia).

Nesse sentido, o PL do ato médico, ao invés de combater essa desigualdade, agrava-a sobremaneira. Apesar de, no Art. 3º, se falar em “em mútua colaboração do médico com os demais profissionais de saúde”, logo em seguida, no Item I do Art. 5º, afirma-se que a “direção e a chefia de serviços médicos são privativos dos médicos.” Alguns poderiam se ater ao significante “médico” e questionar: “Ué, mas como um não médico pode chefiar um “serviço médico”?!

Ora, qualquer serviço de saúde (como Centros de Atenção Psicossocial, Núcleos de Apoio à Saúde da Família, Ambulatórios de Atenção Primária, Hospitais etc), que necessariamente têm equipe multidisciplinar, têm nela também médico(s), de maneira que não tardará para que tais serviços sejam enquadrados como “serviços médicos”, a serem somente chefiados por médicos – os quais, não raras vezes, pela próprio fato de que ficam menos horas nos locais de serviço, tendem a conhecer menos a realidade da população local, acompanhada mais assiduamente pelos outros profissionais da saúde ali engajados. O artigo 5º, portanto, parece ir na contramão do que preconiza o SUS, ou seja, de que os serviços de saúde sigam os princípios da integralidade do cuidado e descentralização.

No mais, dá para acreditar que a cristalização desta assimetria (historicamente problemática) é necessariamente o que faz um serviço funcionar melhor? Dá pra crer que o modelo pré-determinado e calcado no binômio chefe  x chefiados (ou seja, médico x não médicos) é capaz de favorecer a tal “mútua colaboração”, da qual fala o Artigo 3º? Do meu ponto de vista, esta prerrogativa só dificulta.

Repare ainda que, quando o projeto aborda algo que caberia especificamente a outros campos da saúde, tais atividades são descritas como “não privativas do médico”, ou seja, se o médico quiser, até pode fazer, mesmo não sendo da sua área, o que me parece bastante problemático, porque lhe dá poderes irrestritos. Ao contrário, ai daqueles profissionais que ousarem praticar ações “privativas do médico”. Ou seja, as categorias: “privativas do médico” e “não privativas do médico”, elaboradas sem qualquer discussão com outras áreas da saúde, soam “nós podemos tudo, e os outros podem só o que a gente determinar”.

Por fim, gostaria de lembrar que esta discussão se insere em um cenário social mais amplo, no qual a lógica neoliberal têm imposto uma rotina de trabalho muitas vezes desumana, e sem atender as condições trabalhistas que seriam devidas.

Muitos médicos (mas não só) transformaram-se em prestadores de serviço terceirizados, atuando em diversas instituições e cumprindo rotinas desgastantes. Nesse mundo competitivo, profissionais liberais transformaram-se em “horistas” ou “plantonistas”, assim como educação, lazer, segurança e saúde vêm se transforando em mercadorias.

Na versão anterior, o Projeto de Lei ainda mencionava o “competitivo mercado de trabalho”, dando a entender que seu maior compromisso não era exatamente contribuir para os avanços do SUS (no que tange à atenção integral à população brasileira), mas sim, com interesses corporativos da categoria via reserva de mercado.

E para apimentar um pouco mais a discussão, cabe lembrar que não são poucas as tentações ofertadas aos profissionais médicos, relacionadas à prescrição de tal ou qual medicamento/procedimento/exame, patrocinado por tal ou qual laboratório, que pode lhe dar “brinde$,” como: canetas, bebedouros, viagens internacionais, hotéis cinco estrelas, mobiliários para consultório etc. Não acho que isso necessariamente seja ruim, apenas questiono se tal prática não atenua a capacidade crítica do profissional. Será que a prática comum de tais “parcerias” não favorece que muitos médicos se acostumem a tais benefícios e deixem de perceber que podem estar contribuindo para (re)produzir fenômenos bem perigosos, como a patologização e a medicalização de problemas que não são necessariamente doenças?

Claro que qualquer generalização é injusta com as exceções. E claro que as práticas anti-éticas atravessam os mais diversos campos de atuação profissional, inclusive a Psicologia, onde me coloco de maneira igualmente crítica. Precisamente por isso, ampliar a discussão é preciso.

Sinceramente, acho que mais do que nunca é preciso horizontalizar as relações de poder, ampliar o diálogo (também com a população) e retomar as rédeas na direção do que preconiza o SUS, e não o mercado, cuja lógica é excludente e perversa. E o Ato Médico, redigido tal como está, não colabora pra isso.

Por fim, agradeço a oportunidade que me foi dada pela querida amiga, e também a atenção e a paciência daqueles que se dispuseram a ler esse texto até aqui. Em especial, aos médicos.

Saudações des-atadas,

Thaís S. Goldstein

(Psicóloga, Supervisora e Docente no Ensino Superior)

PS – Não pude evitar a piadinha de Quino frente à onda de patologização e medicalização da vida. Por favor, não levem como ofensa pessoal, doutores!

quinoterapia20

Acabo de assistir a um programa supostamente de humor exibido na TV aberta e divulgado no portal da UOL. É o “Pânico”. Para os que não conhecem (e sugiro que sigam sem conhecer), ele exibe reportagens com pegadinhas à base de ironias e deboches de pessoas as mais diversas, inclusive figuras públicas e midiáticas.

É certo que a ironia e o improviso são armas da linguagem que, se bem utilizadas na TV, têm o mérito de desnudarem com inteligência e “catigoria” a podridão que subjaz as belas imagens photoshopadas das criaturas da mídia: levam o outro a se enforcar com a própria corda…

Mas não. Esse definitivamente não é o caso desse programa. Ou se já foi, deixou de ser. Quando a busca por audiência veicula espetáculos da vida privada de terceiros que não pediram para estar daquela forma expostos, e ainda, às custas de mentira, coação, irresponsabilidade, machismo, humilhação e mau gosto, não dá pra ver e passar batido…

O que é isso, peloamordi?! Para quem não viu, contarei. Evidentemente, minha narrativa contemplará os incômodos e questionamentos de quem viu este show de horror até o fim.

O contexto: o rico e belo judeu da elite paulistana vai se casar com a moça de seus sonhos. Tudo está bem encaminhado. A festa será na quinta-feira, a moça é linda e o casal – ao que parece – se ama. Poucos dias antes da celebração, o noivo é chamado pela produção do programa para fazer uma participação, na qual vestiria um narigão de borracha e faria uma reportagem parodiando um famoso apresentador televisivo. Ele topou. A cena começa com ele ainda vestindo o nariz.  No meio do caminho, ele é avisado de que não era mais isso que ia rolar. O noivo não gosta da mudança, diz isso expressamente e deseja ir embora. A produção então insiste – com a voz, com o corpo e claro, com a câmera – para que ele fique e os acompanhe a uma festa que está rolando no local. Ele não quer se estressar, nem arranjar problemas na véspera de seu casamento, mas acaba sendo dissuadido a ficar e ir à tal festa. É então informado de que se trata da SUA festa de despedida de solteiro.

O galã, antes de entrar com certa resistência no elevador, ainda se rebela:

“Ok, todo mundo brinca, eu tenho que aceitar a brincadeira, mas acho que isso que vocês estão fazendo é uma calhordice, uma filha da putag…. PIIIIIII! Nesta hora, o palavrão bem dado do moçoilo é silenciado por um sinal de censura. Ah, a velha hipocrisia da moral televisiva que mais adiante vai produzir e exibir coisas bem piores que palavrões...

Enquanto isso, na sala de (in)justiça, a noiva, juntamente com as esposas dos amigos do noivo, são mantidas em um quarto no qual uma TV imensa transmite as imagens em tempo real do que está acontecendo na festa.

Lá estão seus maridos: enchendo a cara e apreciando a paisagem erótico-minimalista: pista de dança à meia luz, música alta, drinks à vontade (afinal, quanto mais bêbados, mais babados pra comentar depois!) e, para completar o grau máximo do ritual estereotipado: uma numerosa fauna de fêmeas brancas e gostosas de bunda de fora se oferecendo como garotas de programa. O repórter faz questão de destacar que a proporção é de 12 mulheres para cada homem, como se tal assimetria numérica fosse o grande fetiche do macho. Talvez seja: do macho burro, pois se conseguir ter e dar prazer com uma já é difícil, o que dirá com doze? Mas isso não importa nesse espetáculo em que fingimento e realidade se confundem…

A situação vai se complicando na medida em que o grau etílico e erótico aumenta na festa dos machos, que vão se permitindo proximidades com as fêmeas locais sem saberem que estão sendo vigiados pelas esposas.

No esconderijo das moçoilas – todas esguias, brancas, loiras e parecidas –  a equipe as incita a observar e se indignar com o mau comportamento de seus respectivos, num sadismo travestido de moralismo tão falso, que a gente chega a torcer pra que elas se excitem com as cenas. Será que elas não se dão conta de que a mesma equipe que pousa de defensora da moral e dos bons costumes está empurrando seus maridos para a tentação da libertinagem? Mas ao contrário de criticarem a produção, elas parecem agradecidas pela oportunidade de se pôr à prova o amor e a fidelidade dos maridos.

O ápice da humilhação é quando, depois de um desfile de moças gostosas se insinuando e se esfregando no noivo, a produção convida uma mulher negra, relativamente gorda e velha – que deve ter precisado de dinheiro para se prestar a esta cena enfadonha – a se insinuar eroticamente ao noivo e lhe pedir um beijo na boca na frente de todos.

Nesta hora, enquanto os presentes gritavam “beija, beija, beija!” com um notável ar de deboche, tive vontade de bater palmas pro noivo! Não sei se por rebeldia, por tesão encubado,  porque estava bêbado ou um misto de tudo isso – o galã surpreendeu a todos: tascou-lhe um beijo de língua de fazer gosto e dar nó no Tico e no Teco daqueles cérebros enlameados de preconceito. Até a noiva pareceu curtir o beijo, ao menos por alguns instantes, antes de perceber que, na vista dos outros, cabia repudiá-lo.

Depois de induzir os maridos – que obviamente não são santos – a transgredirem a fidelidade sexual com mulheres-comestíveis contratadas como se fossem fêmeas no cio, depois de provocar o desgosto nas esposas e ainda humilhar alguém que destoa dos padrões dominantes de beleza, a produção  ainda não estava satisfeita.

Convenceram a noiva a se vestir de coelhinha erótica mascarada e entrar na festa, pois queriam ver como o noivo reagiria. Mesmo não sendo profissional do ramo, e principalmente, por estar  psicologicamente abalada com tudo aquilo, ela topou. Mas, em pouco tempo, a moça retirou a máscara e se fez reconhecer, o que causou espanto no noivo. Afinal, estaria ela por detrás de tudo isso?! Teria ela planejado esse espetáculo de mau gosto às vésperas do casamento?!

Do jeito sacana como a coisa foi conduzida pela produção, o noivo ficou sem saber que ela também havia sido pega de surpresa. E ela, sem conseguir adiar a exposição de seu mal estar, acabou querendo satisfações dele ali mesmo, no meio de todos e das câmeras. E como se não bastasse a DR pública dos casal protagonista, a porteira do salão se abriu e entraram o resto do bando das esposas raivosas.

Pronto, era isso que a produção queria: acabar a festa com um barraco coletivo! Não adiantava mais, àquela altura, declarações de amor, pedidos de desculpas, e tentativas de sanar o mal estar com beijos e abraços forçados dos maridos bêbados em suas companheiras furiosas… Ora, não é com mágica que se resolvem mágoas e conflitos dessa ordem. Lamentavelmente, ninguém botou pra correr a equipe do Pânico, pois era o que mereciam. E não é que ainda tiveram a cara de pau de encerrar o programa com uma coletânea de filmagens nas quais desejavam votos de felicidade ao casal?!

Eu até entendo a intenção de se problematizar a face hipócrita que permeia a vida de muitos casais. Mas ainda assim pergunto: desse jeito? Para quê?

Ora, determinadas crenças e valores – como a ideia de que o amor só se realiza no casamento monogâmico e fiel, na coabitação e na procriação – ainda são, como diria o filósofo Michel Onfray, “ficções socialmente úteis e necessárias”. Portanto, para desconstruí-las, há que no mínimo se arcar com o ônus da decepção – que no caso, foi socialmente induzida e irresponsavelmente exibida como espetáculo. E indo mais além – e sei que isso é o mais difícil – proporem-se saídas mais interessantes e honestas para o enfrentamento dos problemas conjugais. Mas de novo, não é esse o caso.

Pena que ainda tem gente que aprecie e defenda esse tipo de programa, muitas vezes com o argumento de que é disso que o povo gosta, é isso que o povo quer. Lembrando que povo, não é só o dito “povão” não, mas também uma elite endinheirada que, ironicamente, está imersa na miséria da futilidade e do gozo enlatado.

Que tal nivelar por baixo qualquer ética pra vender riso perverso? Que tal alimentar o “lado B” dos espectadores entediados? Esse deve ser o pensamento da produção desse lixo televisivo.

Isso te entretém? Ok, só não me venha depois se queixar de pânico, tá?

(Sobre o filme “O Senhor das Moscas” e algumas semelhanças com nossos tempos. Atenção! Há trechos spoilers na parte I. Querendo pular, vá direto à II)

“A massa não é confiável” (Freud, 1920)

I – Sobre a história

Escrita por William Golding, em 1953, e adaptada dez anos depois para o cinema por Peter Brook, O senhor das moscas retrata a convivência de um grupo de meninos ingleses que sobrevivem a um acidente aéreo e se encontram numa ilha deserta no Pacífico, sem que qualquer adulto tenha sobrevivido.

O grupo é composto por garotos que aparentam ter entre 6 e 12 anos. Em meio ao desamparo, dois caminhos de organização grupal se apresentam: o primeiro (da razão) é liderado por Ralph, menino mais velho que se preocupa com a sobrevivência de todos: ele propõe ao grupo o uso de uma enorme concha, cuja função era garantir o direito à palavra por parte daquele que a portasse, podendo-se também soprá-la e assim convocar – através do som – a reunião de todos; a concha simbolizava, portanto, um chamado à coesão do grupo, e o igual direito a palavra. Todos ali eram chamados à responsabilidade por zelar pela sobrevivência e pela boa convivência em meio a aquele lugar inóspito,  e sem qualquer resquício ou indício de civilização. 

Ralph simboliza a racionalidade e os conhecimentos herdados. Sua proposta para saírem daquela situação era a de que mantivessem uma fogueira acesa, para que fossem localizados pela fumaça produzida. Podendo driblar a fome com a coleta de frutos, defendia a prioridade de se manter o fogo aceso e visível aos eventuais aviões que cruzassem o céu.

Contudo, a maioria dos meninos acaba aderindo a outra liderança (ligada ao prazer mais imediato). Trata-se de Jack, que se rebela contra Ralph, impondo-se como chefe pela sua virilidade e força física. Em certo momento, ao se aventurarem em busca de caça, Jack e seus seguidores negligenciam o cuidado com o fogo, tarefa que estava sob sua responsabilidade. Ao invés disso, deixam-no apagar e saem para caçar um enorme mamífero. Na volta, envaidecidos com o próprio feito, cortam a cabeça do bicho e espetam-na em um pau: esse é o “Senhor das Moscas”.

A oferta da carne aos demais, naquelas condições de fome e fadiga, reveste o gesto de uma aura de superioridade humana sobre a natureza selvagem. A comilança parece suavizar a impotência dos meninos frente à situação, e a popularidade de Jack cresce. A maioria parece esquecer que tal decisão acarretou a perda da oportunidade de serem resgatados, já que um avião sobrevoara a ilha enquanto isso acontecia.

Com o tempo, o grupo comandado por Jack vai crescendo e apresentando um mesmo padrão de comportamentos: os meninos passam a andar em bando, com os corpos e rostos pintados, aludindo às sociedades tribais. Se antes entoavam os cânticos religiosos aprendidos na Inglaterra, com o passar do tempo passam a cantar músicas repetitivas, com ritmos bem demarcados e letras que enaltecem a própria vida e o prazer imediato através da dominação: da natureza e dos supostos inimigos.

Certa noite, enquanto os meninos pintados dançavam empunhando tochas, lançando fogo ao mar, correndo e gritando ao redor do fogo – como numa catarse coletiva -, eles escutam um barulho na mata. Comandados pelo líder, atacam impiedosamente o suposto inimigo, que em meio à escuridão, é confundido com um animal. Mas, tratava-se de um deles, que nesta “confusão” é brutalmente assassinado.

A situação vai se agravando na medida em que a prática da violência, que a princípio parecia dirigida à caça, começa se propagar e se tornar natural: passa a ser o tratamento dispensado aos animais supostamente perigosos e a aqueles que agem ou pensam diferentemente do padrão. Essa intolerância à diferença vai sendo gradativamente absorvida no interior do grupo como algo necessário à coesão grupal. Para justifica-la, fomenta-se o medo em relação ao que vem de fora (sejam as criaturas bestiais, sejam os inimigos dissidentes). Trata-se, nitidamente, de uma metáfora que alude aos regimes totalitários nazi-fascistas.

Diz a psicanalista Maria Rita Kehl: “Os indivíduos que participam de uma formação coletiva sob o comando do representante de algum ideal comum são capazes de atos que, se estivessem sozinhos, não se atreveriam a cometer. O superego individual tira uma folga em favor do superego coletivo. Em nome deste, o sujeito dissolvido na massa se precipita em atos extremos que jamais – ou sempre, em segredo – sonhara praticar.”  (2011, p.146).

II – E o que isso tem a ver com nossos tempos?

Pode parecer absurdo associar o mundo contemporâneo à história fictícia que se passa numa ilha perdida, onde um grupo de crianças age selvagemente. Contudo, muitos de nós temos vivido como seres ilhados (ainda que virtualmente conectados), resignados a sofrer e/ou testemunhar situações de violência, recorrendo a atenuantes individuais que, ao menos por um tempo, driblam a percepção do vazio e da irracionalidade de nossos tempos.

A mídia passou a ser a principal maneira de “sabermos”  como são os outros: os golpistas, os pedófilos, os assassinos, os heróis etc. Ficamos à espera de que  governo ou alguma ONG resolva esses problemas. Ou já nem acreditamos mais que tenham solução, afundados que estamos na descrença e na impotência. Passamos reto pelo mendigo tanto quanto pelo vizinho sobrecarregado com sacolas de compras. E de braços cruzados, vamos maldizendo, estereotipando, justificando, esquecendo, e nos protegendo nos nossos casulos privados.

Subutilizamos a inteligência humana quando deixamos de cultivar a solidariedade e a coragem necessárias para o enfrentamento do que verdadeiramente ameaça e aliena: senão a nós diretamente, a nossos próximos e descendentes, herdeiros de nossa in-capacidade de reconhecer e lidar respeitosamente com a diferença.

Há quem diga, e eu concordo, que o conformismo é o traço de comportamento mais comum da organização do mal no mundo moderno. Se a ação só encontra expressão quando consonante ao líder e ao grupo, ela pode se omitir – e assim agir passivamente – legitimando práticas de dominação, repressão e mesmo de aniquilação do diferente.

Lembremos do experimento do psicólogo social Stanley Milgran, realizado na Universidade de Yale na década de 1960. Dizia-se que o experimento era sobre o efeito da punição sobre a aprendizagem, mas na verdade, era sobre a capacidade do ser humano infligir tortura num desconhecido “em nome da ciência”. Os resultados foram estarrecedores! 62,5% dos voluntários obedeceram às ordens de disparar choques elétricos – com a mais alta voltagem – nos sujeitos supostamente testados que “erravam” os testes (eles simulavam as dores, conforme combinado com o pesquisador). Ao obedecerem as ordens do pesquisador, mal sabiam que eram eles os verdadeiros sujeitos da pesquisa…

Alguns poderão dizer que agem de maneira crítica e independente, ainda que sejam rechaçados pelos demais. Como seria bom se a maioria fosse assim… Mas ao contrário, outros experimentos em Psicologia Social apontam também para o fato de que a maioria cede, ora mais, ora ou menos, à pressão social.

Ou seja: a autonomia para o sujeito se posicionar, e eventualmente destoar do consenso, vai dando lugar à heteronomia – gerada pelo anseio de pertencimento via apagamento da diferença e conformismo com a ordem vigente. Cabe lembrar que este “não posicionamento” é, afinal de contas, um posicionamento. Como bem lembra Sartre, o ser humano é condenado à liberdade, inclusive a de se omitir por detrás da opinião alheia.

Há, ainda, os que dizem que agem “por si” e esse “por si” aparece amalgamado a um “para si”. Alain de Botton, filósofo suiço contemporâneo, lembra que o sujeito moderno tem apreço pelo sentimento de amor, contudo, ele descreve esse  amor como que banhado de um narcisismo.

Será o narcisismo “a patologia” da contemporaneidade?

De fato, mesmo quando o tema é o amor, é raro que ele esteja voltado para um valor que transcenda a existência individual – como o amor por um bem comunitário, o amor de Antígona, ou ainda o amor desapegado de algumas religiões. Esse amor, infelizmente, tem perdido para o amor pelo que é privado, romântico e mesquinho, que em geral busca na pessoa amada a grande oportunidade de se preencherem todas as necessidades afetivas do sujeito.

O anseio de pertencimento à comunidade tampouco foi deixado de lado, o que mudou foi o senso de comunidade, que hoje está centrado no culto ao sucesso profissional. São inúmeras as ocasiões sociais nas quais a resposta para a frequente pergunta: “O que você faz?” determina acolhimento ou abandono da conversa. Com esse nível de discriminação, não causa surpresa que muitos de nós decidam se atirar com tudo nas carreiras.

O narcisismo se torna patológico quando a autoafirmação (individual ou grupal) vai corroendo a razão, a sensibilidade e o acolhimento das diferenças. E como isso é comum também nesse nosso mundo de “tribos” e massificações… Temos nos tornado indiferentes à dor alheia, temos banalizado o mal, atrofiado o senso crítico e pra completar, tornamo-nos reféns de um imediatismo na lida com a agressividade e com o prazer. Olhando desta perspectiva, estamos como os meninos: naufragados. Quiçá tenhamos nos tornado moscas, regidas por instinto, competindo por um pedaço de carne, sem pensar no outro, e nem no amanhã…

Fica então a pergunta: nosso mundo está mais povoado de pessoas ou de moscas?

Ontem me perguntaram se eu podia responder umas perguntas para uma aluna do curso  de Administração da PUC/SP. Ela precisava fazer um trabalho de faculdade para a disciplina de Psicologia. Pois bem, quando vi as perguntas, pensei: isso vai dar trabalho… De fato, deu. Também porque as perguntas mereciam desconstrução. Mas não foi só isso, deu também satisfação: é bom  poder sistematizar, numa sentada, o que se vem pensando. Partilho aqui o que saiu.

1)   Fale um pouco sobre o papel das emoções no processo decisório. 

Primeiramente, é importante identificar o que se está chamando de “processo decisório”, afinal, ele pode acontecer em uma diversidade de situações, com intensidades, durações e impasses muito diferentes. Por exemplo, trata-se de um contexto limite, no qual uma decisão sobre o destino das coisas é fundamental? Se é uma situação limite, provavelmente acarreta riscos. Resta saber para quem… Para si mesmo? Para outro(s)? Há uma causa importante em jogo, capaz de justificar eticamente alguma dor ou sacrifício? É uma decisão profissional ou da vida afetiva? É algo trivial? Tem alguma relação com a esfera pública? Ou está no campo da vida privada? É algo supérfluo, como a escolha da marca de um shampoo ou de um molho de tomate? Que expectativas estão sendo depositadas sobre esta escolha? O “escolhedor” está sozinho? Ele está sendo de algum modo pressionado? Ele tem apoio de outros? Ele tem suficiente clareza sobre as escolhas que pode fazer na situação em que se encontra? Trata-se de uma situação nova ou conhecida? Ele tem clareza de suas possibilidades e limites, e das possibilidades e limites da situação? Ele está num bom dia?

Como se pode constatar, para esta pergunta não há uma resposta única. Há que se contextualizar o campo em que acontece a escolha, que por sua vez depende tanto do sujeito que vai escolher, como da (maneira como se encontra na) situação.

Uma vez que se visualiza o campo da escolha, cabe lembrar que a boa decisão empenha sensibilidade e reflexão. Portanto, deve estar para além do impulso movido pelas paixões cegas e reativas. Isso não significa negar as emoções, apenas não deixá-las ser o “carro-chefe” da ação.

Por exemplo, apesar de a vingança e a justiça serem decisões que respondem a situações de ofensa e/ou crime, elas são processos decisórios muito diferentes. Enquanto na vingança, pesa mais o sentimento ruim, o impulso de revidar o golpe que abriu uma ferida narcísica no sujeito ou em alguém que ele ama, no caso da justiça, a raiva pessoal vai pouco a pouco dando espaço à reflexão. Diferentemente da vingança, na justiça se colocam em debate as possíveis formas de reparação ou minimização dos danos causados, bem como as formas de se evitar situações semelhantes futuras. Ou seja, é um processo que requer tempo, ampliação de pontos de vista e, sobretudo, reflexão. Logo, para que seja bem feito, a companhia de outros é fundamental.

Somente por meio da troca de experiências e ideias, é possível ampliar a visão para outros pontos de vista e considerar as consequências de uma escolha: para si mesmo e para o entorno, no aqui e agora, e também depois…

Assim sendo, penso que as emoções devem ser sim, consideradas. Mas para que a ação seja frutífera, é interessante que as emoções sejam trabalhadas pela razão, e se possível, em companhia de outros em quem confiamos, para que a decisão seja menos impulsiva e mais acertada.

2)   Quais são as diferentes emoções que influenciam nas decisões das pessoas?

 De novo, depende, não há uma resposta pronta. Quem são as pessoas? Em que contexto estão escolhendo? O que está em jogo na escolha específica? É necessário sempre contextualizar a situação para não se fazer uma afirmação equivocada.

Pensando de maneira genérica e abstrata, o que não é cientificamente recomendável, podemos dizer que: quanto maior é a consciência de si, das alternativas disponíveis e das consequências (que podemos antever a partir de aprendizagens anteriores), menor será a chance de uma emoção desorganizadora tomar conta do sujeito, como por exemplo, o pânico e a angústia que paralisam a ação.

Sabendo de antemão que uma dada situação tem saída, fica mais fácil ao sujeito manter-se calmo e sereno, e então escolher o melhor modo de agir, mesmo que esteja em situação desconfortável.

Pessoas que acreditam no futuro – seja porque têm fé em algo, porque já superaram situações semelhantes antes, ou mesmo porque têm projetos futuros – tendem a conseguir manobrar as emoções perturbadoras, sem se desorganizarem ou deprimirem em momentos difíceis. Por outro lado, o excesso de fé e entusiasmo pode também levar a uma alienação do sujeito em relação a aspectos da realidade. Há decisões tomadas com base na razão e outras com base na emoção. Há, ainda, aquelas híbridas, que articulam razão e emoção. Penso que essas tendem a ser mais acertadas e verdadeiras, indicando maior maturidade subjetiva.

3) Você acha que as pessoas utilizam mais o seu lado emocional ou racional na hora de tomar uma decisão?

Para não começar de novo problematizando o caráter genérico da pergunta, que abarcaria muitas respostas diferentes, buscarei respondê-la também em tom genérico, tendo em vista alguns traços que predominam no mundo de hoje, e que me levam a pensar que estamos vivendo uma espécie de “crise da razão” concomitante a uma “crise da sensibilidade”.

Infelizmente, constato muitas vezes que o lado racional tem perdido feio para o lado emocional mais primitivo e animal: o egoísmo, a mesquinhez, o imediatismo, a violência. Ou então – o que é ainda mais grave – a razão anda se enfraquecendo em meio a uma crise ética. Explico.

Penso que está havendo uma espécie de alienação da razão em nome da busca de prazer e amortecimento da dor. Temos nos relacionado com nós mesmos, com o outro e com o mundo, ora como consumidores, ora como objetos de consumo: buscamos o que é mais rápido, mais cômodo, mais lucrativo e socialmente bem visto, ainda que assim sacrifiquemos o potencial criativo e solidário do ser humano, bem como o desenvolvimento do planeta.

Tem aí lucidez?

Vejamos o exemplo da “obsolescência planejada”, alguém já ouviu falar disso? Trata-se de um fenômeno comum na atualidade: as indústrias produzem mercadorias que, em pouco tempo, se estragam ou se tornam obsoletas. Esse processo acontece em larga escala e conta com a participação de engenheiros, designers e outros profissionais qualificados, contratados para desenvolver produtos bonitinhos, mas ordinários, que quebram pouco tempo depois de vencer o prazo de garantia. O concerto, na maioria das vezes, sai mais caro que a compra de um novo. Resultado: voltamos a consumir.

Ora, considerando que a economia capitalista busca atingir metas de crescimento “sempre mais”, podemos nos perguntar: o fato de a produção nunca parar é bom? Se sim, para quem? Se por um lado o consumo desenfreado “aquece” a economia (gerando empregos e lucro ao capitalista), quais as consequências disso em médio e longo prazo?

A lógica produtivista-consumista revela sua face insana ao constarmos que a produção e consumo sem limites não podem se sustentar por muito tempo em um planeta cujos recursos são finitos. E se assim tem sido, que se digam, os efeitos são nefastos.

Alguém já pensou na quantidade incomensurável de lixo (inclusive lixo tóxico e radioativo) que se produz diariamente? E nos desperdícios? Vocês sabiam que países ditos desenvolvidos despejam na costa de países mais pobres, containers repletos de lixo tóxico? Já se perguntaram como as indústrias bélica e farmacêutica lucram, senão patrocinando a produção de guerras e de doenças?

Como consumidores, muitas vezes não paramos pra pensar na seriedade de certas decisões corriqueiras, como comprar um tênis, um celular ou uma roupa nova… Mais do que realizar um desejo pessoal (merecido, com o suor do trabalho), estamos colaborando para a continuidade de uma cadeia de processos de exploração do trabalho de muitos, para o uso irresponsável de recursos naturais, para a esterilização de territórios férteis, para o comprometimento da saúde de muitos, inclusive de pessoas que ainda nem nasceram. Para além de um contentamento passageiro ligado ao ato de consumir e portar um produto novo, pouquíssimos ganham com esse estrago todo.

Esse é o mundo em que vivemos, cheio de contradições e movido por processos de atrofiamento da razão e da sensibilidade. Talvez, se elas estivessem mais preservadas, poderíamos conter nossos impulsos consumistas – maciçamente estimulados no dia a dia pela publicidade – e estarmos mais voltados para uma ética da sustentabilidade e da solidariedade.

Entretanto, a inteligência humana parece estar mais a serviço de gratificações imediatas, emoções mesquinhas e interesses privados, do que para a construção de um futuro melhor para uma maioria e para nossos descendentes.

Mas nem tudo está perdido: há pessoas e coletivos se organizando contra isso. Imbuídas de emoções e razões ligadas não apenas à vida individual e privada, mas também à vida social e pública, essas pessoas tem se reunido virtual e fisicamente, em diversos países do mundo, para compartilharem sentimentos e indignações, e para pensarem e agirem coletivamente contra as injustiças e pela transformação dessa realidade.

Portanto, a questão é menos saber se as decisões são regidas mais pela emoção ou mais pela razão, e sim, se a razão e a emoção podem ser trabalhadas no sentido de uma ética capaz de orientar as ações e decisões rumo a um mundo menos violento e mais civilizado, em pleno XXI.

4) Quando elas utilizam mais o lado emocional, essas emoções costumam ser mais positivas ou negativas?

Há decisões acertadas e decisões equivocadas, movidas por emoções agradáveis ou desagradáveis. O saldo de uma decisão só pode ser avaliado depois, considerando os efeitos para si mesmo e para o entorno, efeitos esses que variam caso a caso.

Por isso coloco em questão a expressão “emoções negativas” e “emoções positivas”. Para quem? Em que momento? Será que, em se tratando de gente, negativo e positivo são categorias estanques, como na física? Penso que não…

Vejamos alguns exemplos: o medo costuma ser considerado uma emoção negativa, desagradável. De fato, uma pessoa com medo tende a se acovardar diante da possibilidade de iniciar algo novo, ou mesmo diante da possibilidade de se rebelar contra alguma injustiça. Assim, ao silenciar, a pessoa amedrontada escolhe permanecer no conformismo da situação conhecida, por ruim que ela seja. Isso é algo negativo do meu ponto de vista. Por outro lado, o medo também pode servir para que o sujeito tenha mais atenção e cautela ao agir, expondo-se menos a perigos, e assim, tem um papel importante na sua auto-preservação. Nesse sentido, o medo é positivo, sobretudo quando comparece na vida de alguém que costuma agir impulsivamente.

Esta ambiguidade também pode ser observada em relação às emoções supostamente positivas, ou agradáveis. Ora, como é bom tomarmos uma decisão quando nos sentimos confiantes e entusiasmados! Como é bom quando, movidos por uma paixão, decidimos fazer um gesto de delicadeza endereçado a pessoa amada. Por outro lado, a mesma paixão também pode tirar o sono, o apetite, a concentração e a capacidade de decidir pequenas coisas com ponderação. A paixão pode nos roubar o bom senso. Também as pessoas em estado de euforia, apesar de se sentirem muito bem, podem agir de maneira inconsequente, por exemplo, gastando mais dinheiro do que têm ou se expondo a situações desgastantes que poderiam ser evitadas se não estivessem tomadas por esta emoção. Na hora é bom, mas depois…

Soma-se a isso o fato de que o que é negativo para um pode ser positivo para outro. Ou ainda, algo negativo pode vir a ser positivo para si mesmo, em um outro momento de vida. Por isso, os significados de negativo e positivo podem variar de acordo com a pessoa, o momento, a época e o lugar.

Nas sociedades globalizadas contemporâneas, por exemplo, é comum se ver com maus olhos o sofrimento.  Quando se percebe que alguém está sofrendo, rapidamente a pessoa tende a ser vista como portadora de uma patologia, ela está deprimida e deve ser tratada o mais rápido possível. Sofrer, no mundo atual, parece ter se tornado sinônimo de perda de dignidade.  Contudo, em outras épocas, como no início do século XIX, o sofrimento esteve associado à criação artística, literária, à produção filosófica e científica.

Percebo que hoje em dia, cresce uma apatia e uma indiferença entre os jovens em relação aos acontecimentos e às pessoas. O que lhes importa, muitas vezes, é atingir um ideal de sucesso e bem estar – preocupação eminentemente narcísica, reflexo de uma sociedade narcisista. Talvez pelo excesso de mensagens, imagens e informações, os significados estejam se perdendo. É como se, para se sensibilizarem, fosse preciso uma estimulação corporal e fisiológica por meio de artifícios espetaculares, caso contrário, reina a apatia e a indiferença em relação ao que se passa ao redor.

Nesse sentido, a própria capacidade de sofrer e de entrar em contato com a dor (de si e de outrem) parece indicar um processo de perda de sensibilidade. Dito assim, considero positivo quando uma pessoa que vive na apatia recupera a capacidade de sofrer, algo que hoje, no senso comum, é visto como negativo.

Quando se perde a sensibilidade, sai perdendo também a razão. E vice versa. Faz parte do potencial humano integrar o pensar, o sentir e o agir. Razão sem sensibilidade resulta em discursos abstratos, escolhas frias, e por vezes, em ações violentas. Sensibilidade sem razão gera desorganização subjetiva e ações impulsivas, de teor destrutivo. Trata-se, portanto, de cultivar uma razão-sensível. Pensamentos ajudando a compreender e a diferenciar as emoções, e assim modulando as ações. E concomitantemente, emoções se integrando ao pensamento, propiciando escolhas e ações enraizadas no mundo da vida, e não num mundo abstrato, genérico e idealizado.