Midnight in Paris, meio dia aqui mesmo…

P. S. – (Pré-Scriptum): Cuidado, trechos spoilers!

Que coincidência assistir a esse filme justamente nesses dias em que partilhava com um amigo um anseio que andei tendo recentemente. Pois é, era uma vontade de tipo nostálgica-surreal: ter nascido em outra época! No caso, entre os anos 20 e 30 do século passado. Uma época em que, no (meu) imaginário, as palavras e os gestos tinham mais valor, os encontros mais delicadeza, o tempo mais duração, os espaços mais “frequentação”, os olhares mais esperança.

Cheguei a perguntar ao meu amigo se ele também tinha essa vontade. Ele, que nasceu no fim dos anos 60, disse estar satisfeito com sua data de nascimento: “se eu tivesse que escolher, escolhia nascer exatamente quando nasci!” – me respondeu.  Ah, os anos dourados!… Rock´n Roll, Woodstock, pílula anticoncepcional, conquistas de liberdades…” – pensei.

Claro que, nesta hora, não veio à cabeça a ditadura militar no Brasil e seu rastro de sangue e silêncio, tampouco o descrédito no papel da ciência no pós guerra, o clima tenso de guerra fria, a inflação, o forte moralismo ainda vigente etc etc etc.

Mas é fato que cada época tem suas dores e delícias, ainda que tendamos a atribuir ao tempo presente uma carga de realidade opaca, tantas vezes esvaziada de mistério, ilusão e satisfação, de maneira que o sonho, o relaxamento e a fruição vão sendo localizados em épocas longínquas: ou em um futuro distante e utópico, ou em um passado acessível por meio de seus vestígios históricos, narrativos e artísticos, que, com o tempo e as fortuitas transmissões, aprendemos a apreciar.

Penso ser possível fazer uma articulação com aquilo que alguns autores (como Simone Weil, Ecléa Bosi e Gilberto Safra) chamam de “enraizamento”, e que tem a ver com uma relação entre o indivíduo e o coletivo, relação esta que simultaneamente os constitui. Isso acontece de maneira que um tempo passado – vivido coletivamente – é retomado por meio de rituais, canções, narrativas, provérbios, obras de arte – , podendo trazer um grande benefício ao sujeito do presente, em geral absorvido pelas tarefas e demandas práticas da vida moderna de todo dia. Essa imersão irrefletida no cotidiano encolhe, e até mesmo impede, a experiência da temporalidade alargada – quando podemos exercitar a memória, a imaginação, o devaneio, a criatividade… O sujeito do presente, quando bebe das águas do passado, hidrata-se subjetivamente e se t0rna capaz de buscar um futuro melhor para si e para os seus.

Woody Allen conseguiu me fisgar (de novo!) porque soube tratar disso de maneira leve e cômica. Mas não só. Ele combina uma bela fotografia, trilha sonora impecável e um ótimo roteiro, que por si sós já teriam grande mérito. Acrescentem-se diálogos ágeis e personagens verossímeis (ainda que fantásticos): isso dá um caldo cinematográfico saboroso! E claro, como não podia faltar, um protagonista escritor que não escapa das angústias autobiográficas do diretor.

Como eu, o protagonista também tinha o anseio de freqüentar um tempo passado. No filme, ele é chamado a essa travessia após a meia noite. Vejam que, ao contrário de Cinderela, que à meia noite voltava a ser gata borralheira, nosso herói adentra o instigante mundo artístico das noites parisienses no início dos anos 30, exatamente após as doze badaladas. (Ai, que inveja!…) Lá, ele encontra interlocutores especialíssimos: escritores, críticos e artistas  admiráveis (já mortos) que marcaram a história da literatura e das artes no mundo ocidental. Com eles, o protagonista partilha suas angústias, suas idéias, sua literatura iniciante, enfim. Literatura esta que, até então, vinha sendo preservada de outros leitores que não ele próprio.

É, portanto, nesse mundo fantástico que o protagonista encontra comunicação, paixão e sentido existencial. É nesse mundo que ele re-encontra a si mesmo, aprimorando seu modo de pensar e escrever. Mas é também desse mundo que ele precisará se libertar, caso contrário, o efeito nostálgico de desejar viver no passado tenderia a se repetir e tonar o “presente” chato  – como ele constata por meio da personagem Adriana. Eis o momento do insight pós midnight!

O desfecho do filme, se eu fosse usar os termos de Winnicott, diria que ocorre em um “espaço potencial” – por sinal, uma das pontes sobre o Sena. Tem ilusão e fantasia, mas não se reduz a elas; tem realidade objetiva, mas também não é só isso. É um espaço onde fantasia e realidade se mesclam e se integram, formando um campo híbrido de travessia, chamado pelo psicanalista inglês de “transicional”.  Nele, é perfeitamente possível caminhar pelas ruas de Paris, ouvir as 12 badaladas noturnas, e ter um encontro de sorte com alguém tão real e atual, quanto capaz de ligá-lo ao sonho vivido em tempos passados, naquilo que o sonho – em sua melhor expressão – permite à vida andar pra trás, mas sobretudo no que pode impulsioná-la a andar pra frente…

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