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(Sobre o filme “O Senhor das Moscas” e algumas semelhanças com nossos tempos. Atenção! Há trechos spoilers na parte I. Querendo pular, vá direto à II)

“A massa não é confiável” (Freud, 1920)

I – Sobre a história

Escrita por William Golding, em 1953, e adaptada dez anos depois para o cinema por Peter Brook, O senhor das moscas retrata a convivência de um grupo de meninos ingleses que sobrevivem a um acidente aéreo e se encontram numa ilha deserta no Pacífico, sem que qualquer adulto tenha sobrevivido.

O grupo é composto por garotos que aparentam ter entre 6 e 12 anos. Em meio ao desamparo, dois caminhos de organização grupal se apresentam: o primeiro (da razão) é liderado por Ralph, menino mais velho que se preocupa com a sobrevivência de todos: ele propõe ao grupo o uso de uma enorme concha, cuja função era garantir o direito à palavra por parte daquele que a portasse, podendo-se também soprá-la e assim convocar – através do som – a reunião de todos; a concha simbolizava, portanto, um chamado à coesão do grupo, e o igual direito a palavra. Todos ali eram chamados à responsabilidade por zelar pela sobrevivência e pela boa convivência em meio a aquele lugar inóspito,  e sem qualquer resquício ou indício de civilização. 

Ralph simboliza a racionalidade e os conhecimentos herdados. Sua proposta para saírem daquela situação era a de que mantivessem uma fogueira acesa, para que fossem localizados pela fumaça produzida. Podendo driblar a fome com a coleta de frutos, defendia a prioridade de se manter o fogo aceso e visível aos eventuais aviões que cruzassem o céu.

Contudo, a maioria dos meninos acaba aderindo a outra liderança (ligada ao prazer mais imediato). Trata-se de Jack, que se rebela contra Ralph, impondo-se como chefe pela sua virilidade e força física. Em certo momento, ao se aventurarem em busca de caça, Jack e seus seguidores negligenciam o cuidado com o fogo, tarefa que estava sob sua responsabilidade. Ao invés disso, deixam-no apagar e saem para caçar um enorme mamífero. Na volta, envaidecidos com o próprio feito, cortam a cabeça do bicho e espetam-na em um pau: esse é o “Senhor das Moscas”.

A oferta da carne aos demais, naquelas condições de fome e fadiga, reveste o gesto de uma aura de superioridade humana sobre a natureza selvagem. A comilança parece suavizar a impotência dos meninos frente à situação, e a popularidade de Jack cresce. A maioria parece esquecer que tal decisão acarretou a perda da oportunidade de serem resgatados, já que um avião sobrevoara a ilha enquanto isso acontecia.

Com o tempo, o grupo comandado por Jack vai crescendo e apresentando um mesmo padrão de comportamentos: os meninos passam a andar em bando, com os corpos e rostos pintados, aludindo às sociedades tribais. Se antes entoavam os cânticos religiosos aprendidos na Inglaterra, com o passar do tempo passam a cantar músicas repetitivas, com ritmos bem demarcados e letras que enaltecem a própria vida e o prazer imediato através da dominação: da natureza e dos supostos inimigos.

Certa noite, enquanto os meninos pintados dançavam empunhando tochas, lançando fogo ao mar, correndo e gritando ao redor do fogo – como numa catarse coletiva -, eles escutam um barulho na mata. Comandados pelo líder, atacam impiedosamente o suposto inimigo, que em meio à escuridão, é confundido com um animal. Mas, tratava-se de um deles, que nesta “confusão” é brutalmente assassinado.

A situação vai se agravando na medida em que a prática da violência, que a princípio parecia dirigida à caça, começa se propagar e se tornar natural: passa a ser o tratamento dispensado aos animais supostamente perigosos e a aqueles que agem ou pensam diferentemente do padrão. Essa intolerância à diferença vai sendo gradativamente absorvida no interior do grupo como algo necessário à coesão grupal. Para justifica-la, fomenta-se o medo em relação ao que vem de fora (sejam as criaturas bestiais, sejam os inimigos dissidentes). Trata-se, nitidamente, de uma metáfora que alude aos regimes totalitários nazi-fascistas.

Diz a psicanalista Maria Rita Kehl: “Os indivíduos que participam de uma formação coletiva sob o comando do representante de algum ideal comum são capazes de atos que, se estivessem sozinhos, não se atreveriam a cometer. O superego individual tira uma folga em favor do superego coletivo. Em nome deste, o sujeito dissolvido na massa se precipita em atos extremos que jamais – ou sempre, em segredo – sonhara praticar.”  (2011, p.146).

II – E o que isso tem a ver com nossos tempos?

Pode parecer absurdo associar o mundo contemporâneo à história fictícia que se passa numa ilha perdida, onde um grupo de crianças age selvagemente. Contudo, muitos de nós temos vivido como seres ilhados (ainda que virtualmente conectados), resignados a sofrer e/ou testemunhar situações de violência, recorrendo a atenuantes individuais que, ao menos por um tempo, driblam a percepção do vazio e da irracionalidade de nossos tempos.

A mídia passou a ser a principal maneira de “sabermos”  como são os outros: os golpistas, os pedófilos, os assassinos, os heróis etc. Ficamos à espera de que  governo ou alguma ONG resolva esses problemas. Ou já nem acreditamos mais que tenham solução, afundados que estamos na descrença e na impotência. Passamos reto pelo mendigo tanto quanto pelo vizinho sobrecarregado com sacolas de compras. E de braços cruzados, vamos maldizendo, estereotipando, justificando, esquecendo, e nos protegendo nos nossos casulos privados.

Subutilizamos a inteligência humana quando deixamos de cultivar a solidariedade e a coragem necessárias para o enfrentamento do que verdadeiramente ameaça e aliena: senão a nós diretamente, a nossos próximos e descendentes, herdeiros de nossa in-capacidade de reconhecer e lidar respeitosamente com a diferença.

Há quem diga, e eu concordo, que o conformismo é o traço de comportamento mais comum da organização do mal no mundo moderno. Se a ação só encontra expressão quando consonante ao líder e ao grupo, ela pode se omitir – e assim agir passivamente – legitimando práticas de dominação, repressão e mesmo de aniquilação do diferente.

Lembremos do experimento do psicólogo social Stanley Milgran, realizado na Universidade de Yale na década de 1960. Dizia-se que o experimento era sobre o efeito da punição sobre a aprendizagem, mas na verdade, era sobre a capacidade do ser humano infligir tortura num desconhecido “em nome da ciência”. Os resultados foram estarrecedores! 62,5% dos voluntários obedeceram às ordens de disparar choques elétricos – com a mais alta voltagem – nos sujeitos supostamente testados que “erravam” os testes (eles simulavam as dores, conforme combinado com o pesquisador). Ao obedecerem as ordens do pesquisador, mal sabiam que eram eles os verdadeiros sujeitos da pesquisa…

Alguns poderão dizer que agem de maneira crítica e independente, ainda que sejam rechaçados pelos demais. Como seria bom se a maioria fosse assim… Mas ao contrário, outros experimentos em Psicologia Social apontam também para o fato de que a maioria cede, ora mais, ora ou menos, à pressão social.

Ou seja: a autonomia para o sujeito se posicionar, e eventualmente destoar do consenso, vai dando lugar à heteronomia – gerada pelo anseio de pertencimento via apagamento da diferença e conformismo com a ordem vigente. Cabe lembrar que este “não posicionamento” é, afinal de contas, um posicionamento. Como bem lembra Sartre, o ser humano é condenado à liberdade, inclusive a de se omitir por detrás da opinião alheia.

Há, ainda, os que dizem que agem “por si” e esse “por si” aparece amalgamado a um “para si”. Alain de Botton, filósofo suiço contemporâneo, lembra que o sujeito moderno tem apreço pelo sentimento de amor, contudo, ele descreve esse  amor como que banhado de um narcisismo.

Será o narcisismo “a patologia” da contemporaneidade?

De fato, mesmo quando o tema é o amor, é raro que ele esteja voltado para um valor que transcenda a existência individual – como o amor por um bem comunitário, o amor de Antígona, ou ainda o amor desapegado de algumas religiões. Esse amor, infelizmente, tem perdido para o amor pelo que é privado, romântico e mesquinho, que em geral busca na pessoa amada a grande oportunidade de se preencherem todas as necessidades afetivas do sujeito.

O anseio de pertencimento à comunidade tampouco foi deixado de lado, o que mudou foi o senso de comunidade, que hoje está centrado no culto ao sucesso profissional. São inúmeras as ocasiões sociais nas quais a resposta para a frequente pergunta: “O que você faz?” determina acolhimento ou abandono da conversa. Com esse nível de discriminação, não causa surpresa que muitos de nós decidam se atirar com tudo nas carreiras.

O narcisismo se torna patológico quando a autoafirmação (individual ou grupal) vai corroendo a razão, a sensibilidade e o acolhimento das diferenças. E como isso é comum também nesse nosso mundo de “tribos” e massificações… Temos nos tornado indiferentes à dor alheia, temos banalizado o mal, atrofiado o senso crítico e pra completar, tornamo-nos reféns de um imediatismo na lida com a agressividade e com o prazer. Olhando desta perspectiva, estamos como os meninos: naufragados. Quiçá tenhamos nos tornado moscas, regidas por instinto, competindo por um pedaço de carne, sem pensar no outro, e nem no amanhã…

Fica então a pergunta: nosso mundo está mais povoado de pessoas ou de moscas?

Woody foi à Roma!

Publicado: 19/07/2012 em Fimes que marcaram

Dentre as pessoas com quem conversei, a maioria disse que o filme “Para Roma com Amor” era fraco. Uma chegou a dizer que era previsível e superficial. E olha que era gente apreciadora de Woody Allen. Resultado: fui preparada para o pior. E eis que… Saí no lucro. Feliz. : )

Logo no início, quando uma das personagens sai às ruas de Roma perguntando a desconhecidos como chegar a seu destino, acabei me lembrando do dito popular: “Quem tem boca vai à Roma!”  Pois então, o Woody foi! E ainda brincou com o ditado, pois mesmo em Roma, quem tem boca também se perde…

Quem foi que disse que (tentar) seguir o caminho indicado pelos outros necessariamente nos leva aonde queremos?

Woody nos pega precisamente pela boca, não pelo que nela entra, até porque a única referência explícita a comida – creio que eram crostines – causa nojo nos personagens. A boca é destacada através do que dela sai: pelo dizer. É boca que busca, que articula contatos, que aposta no outro, que o ironiza, que (se) indaga, boca que se solta em canto debaixo de ducha, que seduz pelo que diz, ainda que muitas vezes não se diga nada que valha à pena.

Por entre vielas, praças, pedras e pedestres, as quatro tramas paralelas – a meu ver, todas deliciosas – têm em comum a ocorrência de um ou mais fatos inusitados que alteram a rotina dos personagens e diluem as fronteiras entre o possível e o impossível, assim como entre o que se faz em público e na intimidade. São esses inusitados que atiçam desejos, produzem receios, devaneios e confusões. Os desejos empenham riscos, escolhas, (ex)posições e transformações. Também são eles que estimulam o improviso e a ação criativa que, tanto quanto mudar o rumo das coisas, podem promover uma conversão de 360º, e assim permitir que a vida siga, inusitada e paradoxalmente, justo na direção inicialmente prevista (tal como nas tragédias gregas).

Outro aspecto merecedor de atenção é a satirização da indústria cultural, que mesmo não sendo um tema inédito, ganha comicidade, e até um certo lirismo, ao ser encarnada pelo personagem de Roberto Benigni.

Lembro-me de que certa vez ouvi um teórico midiático dizer que a pós-modernidade havia começado numa tarde de quinta-feira do ano de 1980, quando durante um programa de auditório, colocou-se em debate o caso de uma mulher que não vinha conseguindo ter orgasmos.

To Rome with love brinca com esse aspecto no mínimo curioso das sociedades contemporâneas, que, por razões nada razoáveis, produzem consenso e visibilidade em torno do que ocorre na vida privada do outro, ainda que esse outro seja absolutamente trivial e desinteressante. Isso porque, em um tempo veloz que prescinde de feitos e de história, uma pessoa qualquer pode se tornar protagonista de um espetáculo cuja finalidade nada mais é do que exaltar o poder de manipulação subjetiva da própria mídia (ou de um grupo social). Assim, mesmo não sendo novidade, reconheço que esse filme dialoga de modo divertido com a ideia de “sociedade do espetáculo”, proposta pelo cineasta e teórico marxista Guy Debord. (http://www.cisc.org.br/portal/biblioteca/socespetaculo.pdf).

Não diria que o filme é previsível justamente porque nele não esperei encontrar nada diferente do que vi em outras boas rodagens anteriores do diretor: um elenco com estrelas e novos artistas, personagens com sensualidade, com intensidades psicológicas, desejos e conflitos humanos tão comuns quanto bisonhos… Também já sabia que o palco era, de novo, uma bela cidade europeia, desta vez berço da civilização ocidental, com suas ruínas, vestígios, tradições e massificações globalizadas.

Ironicamente, o que se pode reconhecer como “previsível” é justamente a presença do inusitado, que opera alterações nos arranjos cotidianos pré estabelecidos e estabilizados. De fato, o tema é recorrente em Allen, mas penso que foi tratado aqui, com especial leveza e  graça. Coisa de quem já não teme brincar com as palavras e fazer trocadilhos óbvios, porque sabe celebrar, de modo inconfundível, o fato de que desejo é o que move o ser humano a (se re) inventar e agir singularmente nesse mundo banhado de conformismo, banalização e mesmice.

Por fim, partilho uma cena que imaginei: Allen, acabando de concluir a edição desse filme, junto com sua equipe. São 4 horas da manhã e ele está cansado, descabelado e com olheiras fuuundas. Apesar disso, está satisfeito e grato. Nesse momento, lacrando a caixa da película, ele estica o corpo, alcança o o post it e a caneta, respira fundo e soltando o ar escreve:

PARA O AMOR,

COM ROMA,

WOODY

“99 não é 100”

Publicado: 02/05/2012 em Fimes que marcaram

Ou algumas reflexões sobre uma frase e seus sentidos em “Cinema Paradiso”

“99 não é 100”. Ouvi esta frase na telinha, vinda da boca de um homem chamado Valter dos Santos, um velho sábio – já falecido – que participou do documentário “Lixo Extraordinário”, aliás que título mais apropriado! Com uma boa ideia e respeito no trato com as pessoas dali, a equipe do artista plástico Vik Muniz enfrentou o desafio de penetrar o fétido cotidiano dos catadores de lixo no Jardim Gramacho – o maior aterro sanitário latino americano, localizado no Rio de Janeiro – com uma proposta dessas alquímicas: transformar lixo em arte, e de maneira coletiva! E assim, o que era, para alguns, mero labor fatigante verte-se em conversa, em projeto, em beleza e descoberta: abrem-se novos horizontes para aquela gente.  Mas a ideia, aqui, não é fazer propaganda do filme, nem discorrer sobre o impacto dessa experiência para os catadores durante e após esse acontecimento, e sim, pinçar a frase – “99 não é 100” para uma reflexão que me levará a outros territórios…

Antes, cabe lembrar o significado que ela assume ao sair da boca do catador Valter dos Santos, ao afirmar que, se de cem latas, uma é jogada no lixo, isso já é alguma coisa, sugerindo a ideia de que a mudança para um mundo mais sustentável se faz no miúdo da vida, aos poucos, desde que cada um faça a sua parte.

Cerca de um mês após assistir a esse filme, deparei-me com a mesma frase em outro contexto: durante uma aula de Psicologia Social, no curso que ministro a alunos de Terapia Ocupacional. Ao propor uma gincana em grupo, uma das equipes apresentou-se como: “99 não é 100!” Na hora, senti simpatia e familiaridade com a aquela frase-identidade do grupo, embora não me lembrasse seu contexto, e portanto, tampouco seu significado…

E eis que nesse feriadão, ao rever o poético “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, veio de novo com força a ideia de que “99 não é 100”, ainda que nenhum personagem assim verbalize. Explicarei.

O protagonista Totó, apaixonado pela bela e inacessível Elena, inspira-se na história contada pelo amigo Alfredo, sobre um soldado que prometeu ficar à espera de sua amada por 100 noites, com a expectativa de que ela um dia abrisse a janela e, com esse gesto, declarasse a reciprocidade no amor.

Na história, o soldado fica plantado no jardim da amada por 99 noites, até que, bastante enfraquecido, decide ir embora após a nonagésima nona noite. A moça, no centésimo dia, resolveu dar as caras, mas o soldado já não estava mais lá. Totó, a princípio, não entende essa decisão do soldado: ora, depois de tanto sacrifício, por que afinal ele teria decidido“morrer na praia”?!

Inspirado pela história do soldado, e determinado a conquistar Elena, Totó propõe-se o mesmo sacrifício, plantando-se sozinho ao pé da janela da moça durante 100 noites, infalivelmente, em meio à chuva, ao frio, aos fogos de artifício do Revéillon… Elena finalmente se rende a Totó, e eles vivem um tempo de amor, fruição e promessa.

Porém, passado algum tempo, acontecimentos – que simultaneamente dependeram e não dependeram de cada um – encarregam-se de afastar os amantes de novo, gerando mal entendidos, sentimentos de abandono, tristeza e vazio.

Ainda jovem, Totó serve ao exército por um ano e nesse período perde o paradeiro de Elena. Enfraquecido, adoece e acaba retornando à vila de sua infância, onde tampouco encontra qualquer vestígio de sua amada. Numa noite, conversando com Alfredo, refere que finalmente compreendeu a razão do soldado da história, de partir na 99ª noite…

O diálogo é rápido, mas pelo que pude refletir depois, entendi que no compromisso assumido, 99 é o número máximo para assegurar que, na maior parte do tempo, o outro se sinta amado; e, ao mesmo tempo, 99 é o mínimo necessário para afirmar a grandeza, o sentido e a esperança no amor, e ao mesmo tempo a dignidade, já que sempre há a possibilidade de que o outro não apareça – frustração que, à essa altura, seria por demais atroz.

Sobre o resto da história, dá pra resumir assim: embora mantivessem vivos dentro de si a memória do amor e a saudade, Totó e Elena só vieram a se reencontrar – e a desfazer os mal entendidos – cerca de 30 anos depois. Já maduros, as condições para concretizarem esse amor encubado parecem mais complicadas, principalmente para Elena, que está casada, tem filhos, e se sente velha para realizar esse desejo. Mas mesmo diante de sua recusa, Totó reafirma o seu amor: jamais pensará como ela.

Moral da história?

“99 não é 100” pode ter muitos sentidos… Em Cinema Paradiso, o mesmo personagem o entende de modos diferentes ao longo do tempo: quando ainda jovem e determinado a conquistar a amada, 99 é desistência precoce. Depois, após viver a solidão e a sensação prolongada de abandono, 99 é esperança e dignidade teimando em sobreviver. Por fim, já tendo sobrevivido à ausência da amada e se construído como “alguém no mundo”, apesar do vazio afetivo, o reencontro com Elena só  reafirma para ele a potência do amor: mesmo que ela jamais apareça à janela, Salvatore Di Vita sabe agora que 99 é quase 100…

 

(Aviso aos leitores: há trechos spoilers!)

Lindo e impactante, quase que literalmente, rs. Assim me pareceu este filme de Lars Von Trier.

Melancholia é duplamente protagonista: é metáfora de nosso tempos (só que posta do lado de fora, na forma de um planeta em rota de colisão com a Terra); e também é a marca da personagem principal, Justine, que finalmente desiste do esforço de tentar ser, ter e desejar como os demais, assumindo – na contra-mão do que socialmente se espera – o vazio mortífero que lhe é possível e próprio.

Justine tem um saber silencioso sobre as coisas, uma lucidez sobre a pecariedade humana, que provavelmente tornam sua existência extremanente difícil de ser suportada. O filme dá pistas para que possamos construir hipóteses sobre as bases de sua melancolia, como por exemplo, a constatação de que sua mãe não dispunha de qualquer capacidade para estar amorosamente presente e maternar, de maneira que, enquanto uma das filhas (Justine) constituiu-se no vazio solitário da melancolia, a outra (Claire), passou a depender profundamente do olhar e da presença do outro para poder – fragilmente – ser.

Uma das cenas marcantes é quando Justine deita-se nua sobre as pedras do rio e, numa atmosfera quase erótica, toma banho de luz proveniente do planeta Melancholia. É um momento tão belo quanto sugestivo: como se a natureza enigmática, solitária e mórbida da personagem entrasse em profunda comunhão com a beleza destruidora de Melancholia, que por sua vez, vai encarregar-se  de dar fim à sua própria melancolia (e ela sabe disso), sem que ela precise fazê-lo por si mesma. Ora, se comparado a um dispendioso ato suicida, ser cosmicamente destruída junto com toda a humanidade (e sua precariedade, hipocrisia, ganância, mesquinhez etc) parece ser um destino bem mais triunfal.

Melancolia era a sua desgraça, e Melancholia, sua salvação. Cúmplice (e quiçá desejante) do destino fatal do planeta, destino esse negado pelo cunhado (que por fim se mostra um covarde, suicidando-se às escondidas antes da hora “H”), e temido nervosamente pela irmã, Justine faz de seu vazio melancólico a condição para um gesto autêntico de cuidado com o outro (o sobrinho), cuidado este imprescindível na hora trágica e mágica do fim do mundo. 

Se Lars Von Trier anda descrente da humanidade? Provavelmente sim, como tantos outros que  “sofrem” de arguta lucidez. Mas uma coisa é certa: a beleza do filme também fica na gente…

Que mais posso querer?

Publicado: 26/06/2011 em Fimes que marcaram

Além de ser jovem, saudável, ter um amor-parceiro, um trabalho vocacionado, uma boa família, uma casa aconchegante, numa bela cidade, que mais posso querer?!…

Uma outra forma colocar a pergunta seria : tendo já tudo isso, o que é que não quero?

A resposta não tarda: a estabilidade se encarrega de abrir a porta para um convidado que não é bem vindo: o tédio. E aí, um simples café pode começar tudo…

Ah, as paixões…  Esse é mais um filme desses que parecem histórias da vida real, sobre amantes que não podem  estar juntos porque são compromissados e têm que arranjar jeitos de se amar escondido.

Ao sair da sessão, observo uma rodinha de amigos conversando sobre o filme:

– O que fez ele notar ela, hein?

– E ela, como notou ele?

(Cabe uma notinha, além de os protagonistas não serem duas beldades – embora tampouco fossem feios – , no primeiro encontro, ele exercia uma profissão socialmente “invisível”: era garçom ).

 – Será que foi o olhar? Ou o sorriso?

– Ah, eles vêm juntos, não dá pra separar…

– Será que foi à primeira vista?

– Ah, são os opostos que se atraem! Ela era patricinha e do norte;  ele um trabalhador simples do sul… 

– Gente, não importa como nem porque começa, o que importa é que depois que começa, é quase impossível parar! Porque quando se afastam chega uma hora que a saudade rasga de novo e  vem uma fome do corpo, da voz, do jeito, do olhar, que atiça o anseio do até onde se pode gozar; carne habitada, o corpo inebria com suas texturas e odores próprios, irresistíveis! Pra sair dessa, meus amigos, só com um corte bem dado! 

– Nossa, vc já passou por isso? Rs…

–  “E o que mais posso dizer”? Rs…

             (Rs geral)

– Mudando de assunto, pessoal, vocêis acham que alcoolismo tem cura?

–  Que tal se a gente discutisse isso tomando uma breja?

(E assim o grupo se foi, mas parece que o assunto seguiria sendo o mesmo…)

P. S. – (Pré-Scriptum): Cuidado, trechos spoilers!

Que coincidência assistir a esse filme justamente nesses dias em que partilhava com um amigo um anseio que andei tendo recentemente. Pois é, era uma vontade de tipo nostálgica-surreal: ter nascido em outra época! No caso, entre os anos 20 e 30 do século passado. Uma época em que, no (meu) imaginário, as palavras e os gestos tinham mais valor, os encontros mais delicadeza, o tempo mais duração, os espaços mais “frequentação”, os olhares mais esperança.

Cheguei a perguntar ao meu amigo se ele também tinha essa vontade. Ele, que nasceu no fim dos anos 60, disse estar satisfeito com sua data de nascimento: “se eu tivesse que escolher, escolhia nascer exatamente quando nasci!” – me respondeu.  Ah, os anos dourados!… Rock´n Roll, Woodstock, pílula anticoncepcional, conquistas de liberdades…” – pensei.

Claro que, nesta hora, não veio à cabeça a ditadura militar no Brasil e seu rastro de sangue e silêncio, tampouco o descrédito no papel da ciência no pós guerra, o clima tenso de guerra fria, a inflação, o forte moralismo ainda vigente etc etc etc.

Mas é fato que cada época tem suas dores e delícias, ainda que tendamos a atribuir ao tempo presente uma carga de realidade opaca, tantas vezes esvaziada de mistério, ilusão e satisfação, de maneira que o sonho, o relaxamento e a fruição vão sendo localizados em épocas longínquas: ou em um futuro distante e utópico, ou em um passado acessível por meio de seus vestígios históricos, narrativos e artísticos, que, com o tempo e as fortuitas transmissões, aprendemos a apreciar.

Penso ser possível fazer uma articulação com aquilo que alguns autores (como Simone Weil, Ecléa Bosi e Gilberto Safra) chamam de “enraizamento”, e que tem a ver com uma relação entre o indivíduo e o coletivo, relação esta que simultaneamente os constitui. Isso acontece de maneira que um tempo passado – vivido coletivamente – é retomado por meio de rituais, canções, narrativas, provérbios, obras de arte – , podendo trazer um grande benefício ao sujeito do presente, em geral absorvido pelas tarefas e demandas práticas da vida moderna de todo dia. Essa imersão irrefletida no cotidiano encolhe, e até mesmo impede, a experiência da temporalidade alargada – quando podemos exercitar a memória, a imaginação, o devaneio, a criatividade… O sujeito do presente, quando se bebe das águas do passado, hidrata-se subjetivamente e se t0rna capaz de buscar um futuro melhor para si e para os seus.

Woody Allen conseguiu me fisgar (de novo!) porque soube tratar disso de maneira leve e cômica. Mas não só. Ele combina uma bela fotografia, trilha sonora impecável e um ótimo roteiro, que por si sós já teriam grande mérito. Acrescentem-se diálogos ágeis e personagens verossímeis (ainda que fantásticos): isso dá um caldo cinematográfico saboroso! E claro, como não podia faltar, um protagonista escritor que não escapa das angústias autobiográficas do diretor.

Como eu, o protagonista também tinha o anseio de freqüentar um tempo passado. No filme, ele é chamado a essa travessia após a meia noite. Vejam que, ao contrário de Cinderela, que à meia noite voltava a ser gata borralheira, nosso herói adentra o instigante mundo artístico das noites parisienses no início dos anos 30, exatamente após as doze badaladas. (Ai, que inveja!…) Lá, ele encontra interlocutores especialíssimos: escritores, críticos e artistas  admiráveis (já mortos) que marcaram a história da literatura e das artes no mundo ocidental. Com eles, o protagonista partilha suas angústias, suas idéias, sua literatura iniciante, enfim. Literatura esta que, até então, vinha sendo preservada de outros leitores que não ele próprio.

É, portanto, nesse mundo fantástico que o protagonista encontra comunicação, paixão e sentido existencial. É nesse mundo que ele re-encontra a si mesmo, aprimorando seu modo de pensar e escrever. Mas é também desse mundo que ele precisará se libertar, caso contrário, o efeito nostálgico de desejar viver no passado tenderia a se repetir e tonar o “presente” chato  – como ele constata por meio da personagem Adriana. Eis o momento do insight pós midnight!

O desfecho do filme, se eu fosse usar os termos de Winnicott, diria que ocorre em um “espaço potencial” – por sinal, uma das pontes sobre o Sena. Tem ilusão e fantasia, mas não se reduz a elas; tem realidade objetiva, mas também não é só isso. É um espaço onde fantasia e realidade se mesclam e se integram, formando um campo híbrido de travessia, chamado pelo psicanalista inglês de “transicional”.  Nele, é perfeitamente possível caminhar pelas ruas de Paris, ouvir as 12 badaladas noturnas, e ter um encontro de sorte com alguém tão real e atual, quanto capaz de ligá-lo ao sonho vivido em tempos passados, naquilo que o sonho – em sua melhor expressão – permite à vida andar pra trás, mas sobretudo no que pode impulsioná-la a andar pra frente…

Saturno em Oposição

Publicado: 13/06/2011 em Fimes que marcaram

 Filme de Fernan Ozpetek, Saturno Contro é uma co-produção franco-italiana-turca de 2007, atualmente em cartaz no Cine SESC-SP

Talvez pela sua beleza, talvez porque fazia tempo que eu não ia ao cinema, tá difícil traduzir o bem que esse filme me fez… Além de belo e envolvente, os atores são muito bons, e também esbanjam beleza.

Saturno em Oposição faz lembrar que é possível – vertiginoso, mas possível – atravessar abismos. E nessa travessia, naqueles trechos em que o chão parece que se alarga um bocadinho, nada melhor do que companhia: companhia de amigos.

Amigos que estabelecem conosco um laço que mais parece de família. Família “escolhida”, e não, “engolida”. Gente que se ama e se acompanha e vibra junto e sofre junto e sabe fazer silêncio junto, e se desloca junto para o insólito, se necessário, e se une pra valer na hora do aperto.

Será que, semelhante ao efeito de alguns bons filmes românticos, saí acreditando que esse tipo de solidariedade e amizade acontece ainda para além das telas? Estarei eu iludida, como de hábito?

É certo que, com as vidas ocupadas e o cansaço que nos acompanha, mal encontramos nosso amigos. É ou não é?!… Novas “amizades” vão se fazendo na conveniência dos contextos, e aquelas pessoas cuja existência nos faz mais felizes, ficamos por muito tempo sem falar ou ver.

Ontém fui a uma “festa junina”num lindo sítio, convidada por gente querida e acolhedora. Uma noite muito especial por sinal. Mas qual não foi a minha surpresa, ao perceber que os únicos convidados (dentre muitos) que realmente compareceram, fomos eu e o amigo que estava comigo. Que bom que esta ausência em massa em nada prejudicou nossa reunião.

De fato, Saturno, no zodíaco, não é nada romântico. Muito menos se está em oposição a algum planeta ou elemento importante numa carta astrológica. Dizia uma amiga, entendedora dos atros, que Saturno é o “auditor” do zodíaco: por onde passa, exige prestação de contas, o que não raras vezes gera crises lentas e estruturais! Mas Saturno (ou Chronos, se preferirem) é também o construtor, gosta de edificar e fazer durar aquilo que com cuidado se construiu.

No filme, pode-se dizer que a estrutura desse grupo de amigos é radicalmente abalada por um acontecimento trágico. Mas há indícios de que essa estrutura é capaz de se manter, ou se reinventar, pela vontade e reciprocidade de cada um ali. Como num pingue-pongue onde todos jogam…