Por que faz sentido se falar ainda de luta de classes?

Enquanto isso, na sala de justiça, os super heróis não entendiam porque Karl(gas d´água) Marx estava cortando as unhas se, afinal, a “unhão” é que faz a força…

Em recente discussão acalorada com um amigo, ele me dizia que luta de classes é uma bobagem, algo que não faz mais o menor sentido. Eu discordava dele. Mas ele se mostrava tão indisponível pra escutar meus argumentos e pensar no assunto, que só sobraram ruídos de comunicação.

Não sei se ele vai ler isso, mas tive vontade de partilhar o que vim pensando depois da “conversa”. Pois bem, acho que não apenas faz sentido se falar sim em “luta de classes”, como devemos falar dela mais e melhor!  Tentarei explicar…

Realmente, o termo “luta de classes” pode soar anacrônico, quase mítico. Talvez porque fiquemos com a palavra “luta” ecoando, remetendo a cenas de revoluções históricas e lendas, que mais pareceram utopia marxista, ou um punhado de exemplos históricos isolados que tantos consideram datados ou mal sucedidos.

Mas a luta de classes é uma uma realidade cotidiana, a luta de classes é a própria luta dos trabalhadores na vida de todo dia. É também o que dela escapa, inclusive na forma de agressividade, cansaço e violência (ora mais, ora menos explícita).

Quantos de nós podem desfrutar do acesso à boa educação, saúde, moradia, segurança e lazer sem precisar raaaalar muuuuito?! E mesmo esses muuuuitos que raaaalam muito, será que têm realmente acesso aos bens de direito preconizados pelos ideais da Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade)? Será que a passagem para a Modernidade, e o regime capitalista que com ela surgiu, viabilizaram ganho de dignidade pelos/para os homens? E se pensarmos no mundo pós moderno, repleto de tecnologias, aceleração de tempo, fronteiras permeáveis entre o público e o privado, etc. , será que superamos os velhos problemas?

Lendo um pouco Hannah Arendt hoje, tive vontade de examinar o mundo com as categorias empregadas por ela na Condição Humana (labor, trabalho e ação), mas buscando fazer o exercício à luz da (ir)racionalidade contemporânea. A categoria “labor”, por exemplo, poderia nos ajudar a pensar a noção marxista de divisão do trabalho e luta de classes da seguinte perspectiva: mesmo que a maioria de nós, no meio urbano, não esteja se empenhando na lida com a natureza e na produção do alimento necessário à sobrevivência biológica (características do LABOR), uma quantidade exorbitante de pessoas (não apenas os operários nas fábricas), necessita – como o animal laboreans – vender sua força de trabalho para tentar custear as necessidades básicas de si e de seus familiares. Para isso, exaurem-se em rotinas que põe em xeque o próprio sentido da existência e da dignidade humana.

Outras poucas pessoas, pouquíssimas mesmo, ao contrário, podem até prescindir de trabalho e terem condições materiais de vida que não apenas asseguram a sobrevivência do corpo, mas também lhes dão oportunidade de acesso aos bens duráveis e às experiências estéticas, que ativam os prazeres sensoriais, promovem deleite, relaxamento, contemplação.

Mas se inisto em dizer “luta de classes” é porque a grande maioria de pessoas ainda se submete, durante a maior parte de sua existência, a rotinas pesadas de luta pra sobreviver, com seus corpos desgastados, desalojados e cotidianamente transformados em instrumentos, coisas e mercadorias. Isso sem falar na sujeição à pressão psicológica que tende a adoecer os indivíduos psiquicamente. Resistir é uma forma de luta das classes populares. Talvez, adoecer também seja… porque o adoecimento desvela sentidos ocultos, aquilo que não vai bem e precisa ser revisto.  Lutar significa continuar apesar de. E às vezes, pra continuar, é preciso se anestesiar e relaxar um pouco: que tal uma cervejinha no fim da labuta?…

O termo “luta de classes”, no plural, também nos remete ao fato de aqueles que pertecencem à classe dominante participam da luta, mas não do lado do labor manual: na divisão do trabalho, ocupam-se de pensar e criar formas sofisticadas de otimizar o trabalho dos outros e dele tirar vantagens para si, justificando tal desigualdade como algo natural, próprio de uma lógica, e fruto de diferenças individuais.

“Se você está por baixo, nada de desespero! Oferecemos treinamento e produtos diferenciados para que você conquiste o sucesso!”

Ora, não fosse essa profusão de discursos (tão convincentes quanto rasas de razão), e a luta de classes talvez nem existisse…  Talvez, num outro mundo não capitalista, a consciência individual pudesse ser simultanemente coletiva, sem necessidade de uns anularem outros para se darem bem.

Mas o fato é que nossa consciência crítica vem sendo amortecida e continuamos na luta sem a menor consciência disso; ou ainda, com alguma consciência, mas sem perceber onde está o inimigo contra o qual lutar.

A individualização de questões sociais é o que impera enquanto mecanismo ideológico hoje: às vezes enaltecendo; às vezes culpabilizando os sujeitos. Ora, quantas vezes somos tratados como “especiais”, “clientes fidelidade”, colaboradores” etc.? E quantos de nós já não foram ameaçados pela descartabilidade de um emprego ou relação social (“se vc não fizer, tem quem faça!…”; “Um líder/parceiro deve lidar com toda e qualquer situação-limite”)?

Os desempregados, por sua vez, tendem a achar que, se estão fora do mercado, isso se deve a uma incompetência pessoal. Muitos, nessa condição, adoecem e deprimem: temem não viabilizar seus anseios e necessidades, perdendo de vista um horizonte de possibilidades futuras melhores para si e para os seus. Alguns, conseguem ativar uma força de resistência criativa capaz de transformar o não reconhecimento da própria dignidade em ações inéditas e emancipatórias. Outros, se vêem despojados até da possibilidade de sonhar.

Se por um lado o capitalismo em sua fase atual promoveu um ganho no poder de consumo das classes populares, também é certo que hoje se consome muito mais ilusão: os bens de consumo, assim como os discursos e imagens propagadas, reforçam a idéia de que desigualdade política e sócio-econômica é fruto de (falta de) aptidão pessoal, de liderança e de empenho individual, pois “as oportunidades estão aí pra todos”. Discurso ideológico!

Pelas redes sociais virtuais, por exemplo, propiciou-se a aparição pública de pessoas diversas, que podem desfrutar da “liberdade” de exporem sua vida privada, forjando um status social para si em âmbito público, como se isso pudesse efetivamente operar uma forma de “inclusão”.  Bem, talvez possa…

Mas se uma maioria não “é” nem “tem” aquilo que , como cidadão de uma república democrática, deveria ter por direito e participação política; mesmo que ele “pareça que é” e “pareça que tem”, esses efeitos de pertencimento imaginário são tão eficazes quanto frágeis e fugazes: não resolvem o problema da dominação, que se opera de modos cada vez mais sofisticados, agressivos, e ganhando aliados.

São tantos discursos, informações, explicações, substâncias, justificativas, orientações, precauções, aparições, que mesmo posicionamentos críticos correm o risco de engrossar o caldo de um excesso que,  como dizia Saramago, nos cega: da razão e da sensibilidade. Meu referido amigo, por exemplo, mesmo labutando nas ruas e praças para sobreviver, mesmo fazendo do humor político matéria prima de seu labor, já não consegue mais ver….

PS – Para evitar uma possível atribuição de ingenuidade à minha posição, não penso que o universo midiático e as redes virtuais sirvam apenas como operadores ideológicos;  eles também oportunizam experiências inéditas que, paradoxalmente, podem vir a gerar formas coletivas à sua superação. Afinal, por ali também se abrem campos de partilha e iniciativa, lutas discursivas e ações políticas, que podem vir a resultar em transformações na direção de um mundo mais justo e politicamente igualitário.

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