Woody foi à Roma!

Publicado: 19/07/2012 em Fimes que marcaram

Dentre as pessoas com quem conversei, a maioria disse que o filme “Para Roma com Amor” era fraco. Uma chegou a dizer que era previsível e superficial. E olha que era gente apreciadora de Woody Allen. Resultado: fui preparada para o pior. E eis que… Saí no lucro. Feliz. : )

Logo no início, quando uma das personagens sai às ruas de Roma perguntando a desconhecidos como chegar a seu destino, acabei me lembrando do dito popular: “Quem tem boca vai à Roma!”  Pois então, o Woody foi! E ainda brincou com o ditado, pois mesmo em Roma, quem tem boca também se perde…

Quem foi que disse que (tentar) seguir o caminho indicado pelos outros necessariamente nos leva aonde queremos?

Woody nos pega precisamente pela boca, não pelo que nela entra, até porque a única referência explícita a comida – creio que eram crostines – causa nojo nos personagens. A boca é destacada através do que dela sai: pelo dizer. É boca que busca, que articula contatos, que aposta no outro, que o ironiza, que (se) indaga, boca que se solta em canto debaixo de ducha, que seduz pelo que diz, ainda que muitas vezes não se diga nada que valha à pena.

Por entre vielas, praças, pedras e pedestres, as quatro tramas paralelas – a meu ver, todas deliciosas – têm em comum a ocorrência de um ou mais fatos inusitados que alteram a rotina dos personagens e diluem as fronteiras entre o possível e o impossível, assim como entre o que se faz em público e na intimidade. São esses inusitados que atiçam desejos, produzem receios, devaneios e confusões. Os desejos empenham riscos, escolhas, (ex)posições e transformações. Também são eles que estimulam o improviso e a ação criativa que, tanto quanto mudar o rumo das coisas, podem promover uma conversão de 360º, e assim permitir que a vida siga, inusitada e paradoxalmente, justo na direção inicialmente prevista (tal como nas tragédias gregas).

Outro aspecto merecedor de atenção é a satirização da indústria cultural, que mesmo não sendo um tema inédito, ganha comicidade, e até um certo lirismo, ao ser encarnada pelo personagem de Roberto Benigni.

Lembro-me de que certa vez ouvi um teórico midiático dizer que a pós-modernidade havia começado numa tarde de quinta-feira do ano de 1980, quando durante um programa de auditório, colocou-se em debate o caso de uma mulher que não vinha conseguindo ter orgasmos.

To Rome with love brinca com esse aspecto no mínimo curioso das sociedades contemporâneas, que, por razões nada razoáveis, produzem consenso e visibilidade em torno do que ocorre na vida privada do outro, ainda que esse outro seja absolutamente trivial e desinteressante. Isso porque, em um tempo veloz que prescinde de feitos e de história, uma pessoa qualquer pode se tornar protagonista de um espetáculo cuja finalidade nada mais é do que exaltar o poder de manipulação subjetiva da própria mídia (ou de um grupo social). Assim, mesmo não sendo novidade, reconheço que esse filme dialoga de modo divertido com a ideia de “sociedade do espetáculo”, proposta pelo cineasta e teórico marxista Guy Debord. (http://www.cisc.org.br/portal/biblioteca/socespetaculo.pdf).

Não diria que o filme é previsível justamente porque nele não esperei encontrar nada diferente do que vi em outras boas rodagens anteriores do diretor: um elenco com estrelas e novos artistas, personagens com sensualidade, com intensidades psicológicas, desejos e conflitos humanos tão comuns quanto bisonhos… Também já sabia que o palco era, de novo, uma bela cidade europeia, desta vez berço da civilização ocidental, com suas ruínas, vestígios, tradições e massificações globalizadas.

Ironicamente, o que se pode reconhecer como “previsível” é justamente a presença do inusitado, que opera alterações nos arranjos cotidianos pré estabelecidos e estabilizados. De fato, o tema é recorrente em Allen, mas penso que foi tratado aqui, com especial leveza e  graça. Coisa de quem já não teme brincar com as palavras e fazer trocadilhos óbvios, porque sabe celebrar, de modo inconfundível, o fato de que desejo é o que move o ser humano a (se re) inventar e agir singularmente nesse mundo banhado de conformismo, banalização e mesmice.

Por fim, partilho uma cena que imaginei: Allen, acabando de concluir a edição desse filme, junto com sua equipe. São 4 horas da manhã e ele está cansado, descabelado e com olheiras fuuundas. Apesar disso, está satisfeito e grato. Nesse momento, lacrando a caixa da película, ele estica o corpo, alcança o o post it e a caneta, respira fundo e soltando o ar escreve:

PARA O AMOR,

COM ROMA,

WOODY

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comentários
  1. Adorei, Miss! Você, como sempre, é um grande estímulo às peraltices intelectivas! Um graannde beijo!!!

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