“99 não é 100”

Publicado: 02/05/2012 em Fimes que marcaram

Ou algumas reflexões sobre uma frase e seus sentidos em “Cinema Paradiso”

“99 não é 100”. Ouvi esta frase na telinha, vinda da boca de um homem chamado Valter dos Santos, um velho sábio – já falecido – que participou do documentário “Lixo Extraordinário”, aliás que título mais apropriado! Com uma boa ideia e respeito no trato com as pessoas dali, a equipe do artista plástico Vik Muniz enfrentou o desafio de penetrar o fétido cotidiano dos catadores de lixo no Jardim Gramacho – o maior aterro sanitário latino americano, localizado no Rio de Janeiro – com uma proposta dessas alquímicas: transformar lixo em arte, e de maneira coletiva! E assim, o que era, para alguns, mero labor fatigante verte-se em conversa, em projeto, em beleza e descoberta: abrem-se novos horizontes para aquela gente.  Mas a ideia, aqui, não é fazer propaganda do filme, nem discorrer sobre o impacto dessa experiência para os catadores durante e após esse acontecimento, e sim, pinçar a frase – “99 não é 100” para uma reflexão que me levará a outros territórios…

Antes, cabe lembrar o significado que ela assume ao sair da boca do catador Valter dos Santos, ao afirmar que, se de cem latas, uma é jogada no lixo, isso já é alguma coisa, sugerindo a ideia de que a mudança para um mundo mais sustentável se faz no miúdo da vida, aos poucos, desde que cada um faça a sua parte.

Cerca de um mês após assistir a esse filme, deparei-me com a mesma frase em outro contexto: durante uma aula de Psicologia Social, no curso que ministro a alunos de Terapia Ocupacional. Ao propor uma gincana em grupo, uma das equipes apresentou-se como: “99 não é 100!” Na hora, senti simpatia e familiaridade com a aquela frase-identidade do grupo, embora não me lembrasse seu contexto, e portanto, tampouco seu significado…

E eis que nesse feriadão, ao rever o poético “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore, veio de novo com força a ideia de que “99 não é 100”, ainda que nenhum personagem assim verbalize. Explicarei.

O protagonista Totó, apaixonado pela bela e inacessível Elena, inspira-se na história contada pelo amigo Alfredo, sobre um soldado que prometeu ficar à espera de sua amada por 100 noites, com a expectativa de que ela um dia abrisse a janela e, com esse gesto, declarasse a reciprocidade no amor.

Na história, o soldado fica plantado no jardim da amada por 99 noites, até que, bastante enfraquecido, decide ir embora após a nonagésima nona noite. A moça, no centésimo dia, resolveu dar as caras, mas o soldado já não estava mais lá. Totó, a princípio, não entende essa decisão do soldado: ora, depois de tanto sacrifício, por que afinal ele teria decidido“morrer na praia”?!

Inspirado pela história do soldado, e determinado a conquistar Elena, Totó propõe-se o mesmo sacrifício, plantando-se sozinho ao pé da janela da moça durante 100 noites, infalivelmente, em meio à chuva, ao frio, aos fogos de artifício do Revéillon… Elena finalmente se rende a Totó, e eles vivem um tempo de amor, fruição e promessa.

Porém, passado algum tempo, acontecimentos – que simultaneamente dependeram e não dependeram de cada um – encarregam-se de afastar os amantes de novo, gerando mal entendidos, sentimentos de abandono, tristeza e vazio.

Ainda jovem, Totó serve ao exército por um ano e nesse período perde o paradeiro de Elena. Enfraquecido, adoece e acaba retornando à vila de sua infância, onde tampouco encontra qualquer vestígio de sua amada. Numa noite, conversando com Alfredo, refere que finalmente compreendeu a razão do soldado da história, de partir na 99ª noite…

O diálogo é rápido, mas pelo que pude refletir depois, entendi que no compromisso assumido, 99 é o número máximo para assegurar que, na maior parte do tempo, o outro se sinta amado; e, ao mesmo tempo, 99 é o mínimo necessário para afirmar a grandeza, o sentido e a esperança no amor, e ao mesmo tempo a dignidade, já que sempre há a possibilidade de que o outro não apareça – frustração que, à essa altura, seria por demais atroz.

Sobre o resto da história, dá pra resumir assim: embora mantivessem vivos dentro de si a memória do amor e a saudade, Totó e Elena só vieram a se reencontrar – e a desfazer os mal entendidos – cerca de 30 anos depois. Já maduros, as condições para concretizarem esse amor encubado parecem mais complicadas, principalmente para Elena, que está casada, tem filhos, e se sente velha para realizar esse desejo. Mas mesmo diante de sua recusa, Totó reafirma o seu amor: jamais pensará como ela.

Moral da história?

“99 não é 100” pode ter muitos sentidos… Em Cinema Paradiso, o mesmo personagem o entende de modos diferentes ao longo do tempo: quando ainda jovem e determinado a conquistar a amada, 99 é desistência precoce. Depois, após viver a solidão e a sensação prolongada de abandono, 99 é esperança e dignidade teimando em sobreviver. Por fim, já tendo sobrevivido à ausência da amada e se construído como “alguém no mundo”, apesar do vazio afetivo, o reencontro com Elena só  reafirma para ele a potência do amor: mesmo que ela jamais apareça à janela, Salvatore Di Vita sabe agora que 99 é quase 100…

 

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comentários
  1. Sylvie disse:

    Às vezes, “99” não é tudo, mas é “100%”…rs.
    Como você disse, é um bom número para começar.
    Afeita que sou a “prazos” (os processuais são cruéis!), somaria aos 99 mais um, e pode até ser aquele que o Chico se refere na canção “Basta um dia”…
    O centésimo dia é, assim, por dizer, o dia D da definição, e também o L da libertação.
    Gostei.

    • adeuscafofo disse:

      Então aqui vai esse dia, minha querida Sylvie…

      E que em cada dia, seja ele apenas mais um, seja ele o centésimo – dia L ou dia D? – os amigos estejam por perto! : )

      Beijo, beijo.

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