Show de humor ou de horror?

Publicado: 26/03/2012 em Situações e reflexões

Nesta última semana, durante uma aula de Psicologia Social, resolvi partilhar com a turma minha  perplexidade após ver um vídeo postado no FB sobre um grupo de “humoristas” que faz propagandas de seus shows com teor altamente preconceituoso. http://www.youtube.com/watch?v=8oSQ6cJlW1w .*

Nesse caso específico, o nome deste grupo de “humor”, além de sugerir gargalhadas on line, faz alusão explícita ao grupo fascista Ku Klux Klan, apresentando-se como “KKK” e mostrando um chapéu idêntico ao que cobria a cabeça dos carrascos que pertenciam a tal organização. O moço do vídeo assume que eles fazem piadas com negros, judeus, nordestinos, deficientes e gays, justificando que a casa enche, que o povo gosta.

No calor da discussão em sala de aula e da quase unanimidade das indignações, uma aluna se pronunciou na direção oposta. Disse ser a favor de tal tipo de show, afirmando que o humor é assim mesmo, que essa censura era uma bobagem (tipo a onda do “politicamente correto”) e que é uma hipocrisia negar que o ser humano não ache graça nisso.

Ela ainda mencionou um show americano que desconheço  (“The Aristocrats”) cuja audiência nos EUA é grande: nesse show, impera o humor escatológico e a humilhação. O argumento de minha aluna era de que o humor de mau gosto se  justifica na medida em que “as pessoas não riem de mais nada”. Mais tarde, essa mesma aluna escreveu um texto ratificando sua posição e sugeriu que eu o lesse em sua página do Facebook.

Minha aluna defende que esse tipo de humor é legítimo porque hoje em dia as pessoas não riem mais de nada. (Por que será que não riem?… Não, isso não é uma questão enfrentada)

Mas vejamos: esse argumento está amparado na perigosa lógica de que “os fins justificam os meios”. Supor que o objetivo seja “fazer rir” parece-me um tanto ingênuo… A finalidade, penso, é muito mais dar audiência e lucro aos empresários. E o meio, a humilhação.

Concordo que o humor se nutre de situações eventualmente humilhantes – reais ou imaginadas – em que o ser humano é como que destituído de sua inteligência, sendo abordado como coisa ou como bicho, que age por imitação ou instinto, sem racionalidade. Nós rimos disso. E rimos do outro e de nós mesmos quando (n)os percebemos em situações que revelam essas nossas facetas abobalhadas.

Agora há uma grande diferença entre rir dessas situações inusitadas – que podem acontecer com qualquer um: brancos e negros, pobres e ricos, mulheres e homens e por aí vai… – e fazer rir de situações de rebaixamento que reforçam estereótipos nada inocentes, porque atrelados a situações reais de violência. Humor apoiado em estereótipos socialmente difundidos é raso. É fácil rir de vítimas.

Como diz um dos entrevistados do ótimo documentário “O riso dos outros” (dirigido por Pedro Arantes http://www.youtube.com/watch?v=PRQ1LuBWoLg):  “Se o humor precisa de uma vítima, façamos a escolha da vítima certa. Porque tem tanta gente que merece apanhar… Pra que bater nos negros? Ou nas mulheres? Eles já apanharam bastante…”

O humor sem limites, como qualquer outro ato humano sem limites, é algo problemático.

Incomodar-se com o tema dos limites – marca da geração questionadora dos anos 60 – se por um lado trouxe a libertação de valores antiquados e a conquista de emancipações diversas, por outro, abriu espaço para novas armadilhas. A maior delas, creio (e isso aprendi com Hannah Arendt), tem a ver com a confusão entre “autoridade” e “autoritarismo”. Ou seja, ao se criticar a lei (autoritária), deixou-se vazio o lugar da autoridade. E diante de nenhuma autoridade, tudo é legítimo e permitido, inclusive os atos mais desumanos.

Ora, criticar a moral é preciso, mas abdicar totalmente dela é um convite à barbárie. Não é à tôa que – como afirma a própria aluna – “os fantasmas e demônios moram nos recônditos de nosso inconsciente”. Se chamados a se mostrarem sem qualquer limite, e ainda motivados por uma situação de massa, tendem a resultar em verdadeiros atos de violência física e psicológica. A história e o cotidiano, infelizmente, têm exemplos de sobra.

Assim, fica claro que o limite que foi transposto nesse tipo de “humor” não é só o limite de um “bom gosto” (como ela defende), mas o limite de um ethos humano. Essa transposição tem consequências que não apenas desumanizam os alvos da humilhação, mas os próprios “comediantes” que, coitados, revelam-se paupérrimos de espírito e criatividade, ao precisarem se promover às custas do rebaixamento alheio.

Se é só assim que sabem fazer piada, melhor é que fiquem de boca fechada!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

* Soube tempos depois, que o vídeo referido (do KKK) era, na verdade, uma paródia feita pelo humorista e crítico Rafucko! Tão próxima à realidade de alguns discursos reais, que acabei acreditando ser verdade.

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comentários
  1. Ana Helena Belline disse:

    Concordo plenamente. Toda vez que ouço ou leio expressões do tipo “a chatice do politicamente correto” lembro-me dos “ecochatos”. Como ninguém quer ser considerado chato, vamos continuar alimentando preconceitos e destruindo o meio-ambiente.
    Lembro-me também de um texto do início dos anos noventa, que discuti com meus alunos, quando começava a reação contra o politicamente correto: este é um país que não pode se dar o luxo de ignorar direitos, e é uma pena que isto continue a acontecer.

  2. adeuscafofo disse:

    : ) Qual texto? Fiquei curiosa…

  3. Anselmo Chaves disse:

    Rir de situações de rebaixamento do outro pode ser visto como sintoma de profunda baixa auto-estima. Incapaz de extrair alegria de si mesmo, e sem qualquer outro recurso para diminuir a própria bílis anímica, o miserável recorre ao mais vil dos recursos, numa tentativa desesperadora de sentir-se bem consigo mesmo.

    A afirmação da sua aluna, Miss, de que ninguém ri mais de nada, talvez indique o alastramento de uma pobreza contra a qual dificilmente, creio eu, algum Estado vai elaborar um programa de combate: a pobreza espiritual. A sexta maior economia do mundo atrai os espíritos para se dedicarem ao Estado e ao Dinheiro, retirando muito da paixão que poderia ser voltada para a cultura, para a elevação da cultura – o que leva à decadência espiritual do Brasil.

    No fundo, é bem provável que esses “humoristas da lama” não sejam mais que bajuladores dos preconceitos das camadas mais miseráveis da população, independente de classe social, visando explorar delas seu poder de consumo, sem qualquer compromisso com a verdade e a paz social. Quase não vale a pena falar deles se não fosse importante apontar o perigo que representam.

    Um beijo, querida.

  4. Anisha disse:

    Tive a infeliz oportunidade de presenciar esse show de “humor humilhante”. E sabe o que percebi? Que nem todas as pessoas riem, inclusive algumas ficam horrorizadas, como eu fiquei, com certas piadas que são tão infames quanto possíveis! Outras pessoas gostam das piadas talvez porque nesse ambiente se sintam à vontade para tirarem suas máscaras sociais; é como se pudessem liberar suas quimeras malignas há tanto aprisionadas. Se não bastasse as piadas vis, eles escolhem pessoas na platéia para humilhar publicamente, e essas pessoas ficam envergonhadas, isso mesmo, envergonhadas de não darem risadas e aceitarem tal humilhação, pois o ambiente é propicio e permitido à barbarie! Quem tem coragem de se voltar contra a massa ensandecida? E o mais incrível dessa situação é que paga-se por isso, e caro! A humilhação social chegou em tal ponto que é vendida, negociada como mercadoria. Então me questiono, será que evoluímos desde Roma e os circos?

  5. Olivia de Oliveira disse:

    Concordo com o que você escreveu, não por ser minha professora, mas acredito nisso como pessoa mesmo. É diferente quando vc ri de si mesmo ou de situações inusitadas ou do cotidiano que acontecem com as pessoas. E me sinto grata por tentar ampliar os horizontes clarear as lentes das pessoas ou sençao tentar fazer com que elas troquem seus óculos por alguns momentos e enxergem as coisas por outro ângulo.

    Beijo,

    Olivia

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