Entusiasmo e alegria na desilusão

Publicado: 05/02/2012 em Situações e reflexões

Esse post foi escrito como uma “carta-resposta” a Nila, alguém que não conheço pessoalmente, mas que andou visitando o blog e deixando comentários inspiradores. Nesse caso, o comentário dela foi para o post escrito em 6/11/10, intitulado: “De Quintana a Forrest Gump: uma reflexão pessoal sobre as ilusões” (https://ajudalivros.wordpress.com/de-quintana-a-forrest-gump-uma-reflexao-pessoal-sobre-as-ilusoes/).  Mas acho que a sua leitura não é necessária para a compreensão do que aqui se segue. Em laranja, Nila. Na sequência, sigo em azul.

A ilusao, só a percebemos quando nos ocorre a desilusao… Só nos damos conta de que estavamos iludidos quando experimentamos a dor da realidade…Compreender um conceito pelo seu oposto é sempre uma coisa esquisita. Dualista. Confusa. Contundente.  Mas nao sei se um saco murcho de ilusões é um saco cheio de desilusões… Talvez exista aqui um tempero que falta: o entusiasmo. Em Theos, preenchido portanto, mas nao de ilusoes. Acho que a substância potencialmente terapeutica é o entusiasmo, nao a ilusão. De ilusoes tambem se vive, mas sem entusiasmo…

Nila, vc também gosta de pensar, que bom! Será que saco vazio de ilusões é saco cheio de desilusões? Penso no copo vazio de água e cheio de ar…

Após algumas leituras recentes (André Comte Sponville e Alain de Botton), venho refletindo justamente sobre a conquista de uma uma espécie de “capacidade para uma felicidade desesperançada”.

Refiro-me à felicidade que se revela no entusiasmo ligado à capacidade humana de desfrutar, conhecer e agir. Não se trata, portanto, de uma felicidade nutrida somente pela espera de um ideal ou crença em uma ilusão. Até porque, no transcorrer do tempo, o que desejávamos já não é mais o mesmo; ou, se vem a ser, já não desejamos mais do mesmo jeito… 

Também não me refiro àquela felicidade fácil, movida por artifícios. É certo que necessitamos – uns mais que outros, em certos momentos mais que noutros – de dispositivos de fé para suportar o real da vida, mas será possível isso sem artifícios que, de algum modo, nos alienem, mesmo que a curto prazo?

Ora, nossa condição humana é precária, vulnerável e finita. (E olha que não estou nem considerando alguns agravantes próprios dos nossos tempos…) No xadrez da vida – como lindamente lembra Bergman – a morte sempre vence. 

Mas até que isso ocorra, Ela bem pode ser aliada… Sua presença como horizonte permite a conquista de um tipo de liberdade – ou seria sabedoria? – para nos  posicionarmos singularmente em meio à angústia, à solidão, e ao espectro de nossa (im)potência frente às situações.

Encher o saco de desilusões, nesse sentido, parece mais enchê-lo de um certo tipo de sabedoria: a de se lidar com a vertigem da vida sem atenuantes, e daí extrair conhecimento, ação e desfrute.

Fórmula pra isso?

Tenho não… Mas levanto hipóteses, todas envolvendo algum tipo de laço social. Seja pelos vínculos importantes, seja pelo trabalho que abraçamos, ou pelos atos que comunicam… Na maturidade, penso ser importante reconhecermos (algum) sentido à nossa existência.

Talvez o entusiasmo de Theos seja exatamente um combinado disso: saber desfrutar, conhecer e agir, apesar de. Porque felicidade na ignorância é só ilusão.

Por fim, lembrei daquele que bem podia ser o irmão do Entusiasmo e que é extremamente hábil: para o bem e para o mal… Trata-se do Humor. Mas vou deixá-lo pra outra ocasião, que aqui já muito me estendi. 

Obrigada, Nila, pela boa interlocução.

Um abraço,

Thaís

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s