A Fé e a Senhorita

Publicado: 14/08/2011 em Situações e reflexões

– Fé…

– Oi?

– Você vê algum sentido?

– Se eu vejo razão?…

– Não, caminho.

Claro! Aliás, vejo caminhos, muitos… Mas todos prum mesmo destino. – sorri.

– E como é que a gente faz pra saber se o destino está certo?

– Certo é pra onde?

– Boa pergunta…

– “Destino certo”  você quer dizer um destino em que seja possível realizar o melhor de si (para si, para os seus, para a comunidade) e, ao mesmo tempo, os outros fazerem o mesmo, de modo que o mundo fique melhor para os vivos e futuros viventes, e possam todos conviver harmoniosamente entre si e com a natureza?

– Puxa, você conseguiu traduzir!

Mas de onde você tirou que isso é viável, Senhorita?! É como acreditar que as histórias reais podem acabar com o “e foram felizes pra sempre” dos contos de fada…

– Ué, Fé, será assim tão impossível, em determinados contextos, realizar o bem geral e o bem particular simultaneamente, como se fossem partes de um mesmo todo?

Sabe que agora você me fez lembrar do livro do viejo Antonio, que conta a história de um deus que tinha duas caras e queria saber qual a origem do mundo. Uma cara fazia uma pergunta, e a outra respondia com outra pergunta. E assim o deus se movia… A pergunta movia!

– O que você quer dizer com isso, Fé?

(Longa pausa)

– Olha, talvez tenhamos que entrar numa conversa sobre economia, ou melhor, sobre o jogo de forças entre investimentos, custos e recompensas. (Isso sem considerar o acaso…)

Mas o que isso tem a ver?

– Tem a ver que, a depender das questões que o sujeito enfrenta a respeito de como pode administrar sua potência criativa, seus desejos e forças instintivas, na relação consigo e com seu entorno;  e ainda, a depender de como sua singularidade duela e se re-cria em meio a condicionantes genéticos, antropológicos, sócio-históricos, astrológicos, psicológicos, transgeracionais, políticos, e todo um babado foooorte – difícil de descrever porque para além de nós e que nos atravessa -, pode advir o que há de melhor, ou de pior!

– Nossa, vou precisar pensar com calma em tudo isso, Fé, é complexo demais! Mas… O pior seria o quê?

– Ah, Senhorita, se a humanidade parar de se fazer perguntas, seja sobre sua origem, seja sobre seu destino, ela não se move mais: para!!

– Caramba, Fé, nunca imaginei que você argumentasse de modo tão racional! De fato, às vezes fico pensando que estamos chegando a esse ponto: de parar… Ou talvez, de afundar, o que é pior!

– Sim, você tem razão, parar é afundar. Tempo e Lucidez não se manipulam nem se acumulam impunemente, Senhorita, porque fazem afundar as raízes crescidas, e as flores e frutos que poderiam um dia nascer, no pântano turvo de um presente eternizado.

– Turvo de quê?

– Ah, de sangue, excrementos, lágrimas, suor, automatismos, restos, vermes, fedor, vergonha, contradição, violência, maquiagem (muita maquiagem), dentre outras coisas. Mas vamos deixar essa conversa de lado, Senhorita, que assim vão pensar que já não me chamo mais Fé, e sim Melancolia.

– Pode crer…

– O que importa é que a Senhorita está aqui se pondo a perguntar, que seu perguntar não sossega com as respostas que lhe dou, e que a pergunta move…

– Pra onde será que está me movendo, Fé?…

– Ah… Depois você me diz, mas ao que parece, para um Outro lugar… – e sorri com o canto da boca.

– Ok, vamos conversando, mas esteja acessível, hein?!

– Fique tranquila, Senhorita, caso eu esteja off lineunder line ou on the road, basta de mim lembrar, pode até gritar, mas não de maneira inflamada, tá, que assim a casa pode incendiar!… – e franziu as sombrancelhas um tanto sarcástica, a danada.

– Combinado!

– Que a razão esteja conosco, Senhorita!

– Amem!

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