Melancholia pra dar fim à melancolia

Publicado: 08/08/2011 em Fimes que marcaram

(Aviso aos leitores: há trechos spoilers!)

Lindo e impactante, quase que literalmente, rs. Assim me pareceu este filme de Lars Von Trier.

Melancholia é duplamente protagonista: é metáfora de nosso tempos (só que posta do lado de fora, na forma de um planeta em rota de colisão com a Terra); e também é a marca da personagem principal, Justine, que finalmente desiste do esforço de tentar ser, ter e desejar como os demais, assumindo – na contra-mão do que socialmente se espera – o vazio mortífero que lhe é possível e próprio.

Justine tem um saber silencioso sobre as coisas, uma lucidez sobre a pecariedade humana, que provavelmente tornam sua existência extremanente difícil de ser suportada. O filme dá pistas para que possamos construir hipóteses sobre as bases de sua melancolia, como por exemplo, a constatação de que sua mãe não dispunha de qualquer capacidade para estar amorosamente presente e maternar, de maneira que, enquanto uma das filhas (Justine) constituiu-se no vazio solitário da melancolia, a outra (Claire), passou a depender profundamente do olhar e da presença do outro para poder – fragilmente – ser.

Uma das cenas marcantes é quando Justine deita-se nua sobre as pedras do rio e, numa atmosfera quase erótica, toma banho de luz proveniente do planeta Melancholia. É um momento tão belo quanto sugestivo: como se a natureza enigmática, solitária e mórbida da personagem entrasse em profunda comunhão com a beleza destruidora de Melancholia, que por sua vez, vai encarregar-se  de dar fim à sua própria melancolia (e ela sabe disso), sem que ela precise fazê-lo por si mesma. Ora, se comparado a um dispendioso ato suicida, ser cosmicamente destruída junto com toda a humanidade (e sua precariedade, hipocrisia, ganância, mesquinhez etc) parece ser um destino bem mais triunfal.

Melancolia era a sua desgraça, e Melancholia, sua salvação. Cúmplice (e quiçá desejante) do destino fatal do planeta, destino esse negado pelo cunhado (que por fim se mostra um covarde, suicidando-se às escondidas antes da hora “H”), e temido nervosamente pela irmã, Justine faz de seu vazio melancólico a condição para um gesto autêntico de cuidado com o outro (o sobrinho), cuidado este imprescindível na hora trágica e mágica do fim do mundo. 

Se Lars Von Trier anda descrente da humanidade? Provavelmente sim, como tantos outros que  “sofrem” de arguta lucidez. Mas uma coisa é certa: a beleza do filme também fica na gente…

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comentários
  1. Alguns podem achar que pensam como Lars Von Trier, outros podem acreditar mais nas ideias de Terrence Malick.

  2. El trabajo de Lars von Trier no es un mal uso de la hipotà tica subjetividad de lujo a la que quiere hacer referencia mediante su mensaje.

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