Mas os homens também p(h)odem amar…

Publicado: 14/03/2011 em Situações e reflexões

Entre uma cerveja e outra da noite de sábado, conversando com um amigo, perguntei-lhe qual seria a origem da dominação.

Eu, apoiada em breves leituras recentes de autores marxistas, supunha que a descoberta da agricultura teria possibilitado aos homens produzir mais alimentos do que o necessário para a sobrevivência de si e dos seus. Começaria então a divisão do trabalho: alguns se dedicariam ao labor que produz bens de consumo para a sobrevivência, enquanto outros se dedicariam à reflexão, à produção de conhecimento, às artes, e por aí vai. Pronto! Simples assim: a divisão do trabalho seria a origem da luta de classes e da dominação: os que ficaram restritos ao trabalho físico de um lado, insatisfeitos, enquanto os demais estariam ocupados com o espírito, incluindo a produção de explicações e justificativas para a divisão do trabalho.

Eis que meu amigo mencionou o “Ensaio sobre o Dom: forma e razão das trocas nas sociedades arcaicas”(1924), do sociólogo e antropólogo francês Marcel Mauss. Uma das idéias sugeridas nesse trabalho é a de que o ato de “dar” é uma necessidade humana: ainda que a doação, no caso da comunidade estudada por Mauss, parecesse um desperdício, havia ali uma dimensão simbólica que fortalecia a idéia do doador como um ser que não é/está carente: ao dar, fica re-afirmada a sua humanidade.

Ora, lembrar disso é lembrar que a economia se faz embasada nas necessidades biológicas, mas não só: os homens precisam doar, aceitar e trocar. Isso humaniza, coloca os seres humanos para além da condição de bichos que apenas agem por instinto ou carência. Visto assim, deixamos de operar com uma lógica talvez viciada, de que aquele que “dá” ao outro (por exemplo a força e/ou o produto de seu trabalho) está oprimido, enquanto quem recebe está explorando o pobre coitado de quem faz. Ao contrário, podemos até pensar que aquele que recebe tem confirmada a sua condição de “carente”, o que o impulsionaria ao ato de retribuir, afirmando-se como também capaz de ofertar, ou seja, existir para além da necessidade e do desejo, para além de relações instintuais ou meramente utilitárias. (Disso também fala o sociólogo francês Pierre Bourdier, décadas mais tarte, com a idéia das “trocas simbólicas”)

A dominação, dizia meu amigo, é apenas um dos modos possíveis de se lidar com as diferenças entre as pessoas. Ou seja, a divisão do trabalho não necessariamente gera dominação.

Vocês devem estar se perguntando: e o que isso tem a ver com o papo dos homens também p(h)oderem amar? Então, vou chegar lá… Dizia ele que outro modo possível de as pessoas se relacionarem é o amor. Nesse instante, eu, que ando curiosa sobre as origens das coisas, reformulei a pergunta: “Então qual é a origem do amor?”

E pra responder a essa perguntinha fácil, ele me sugeriu a leitura da obra “As duas chamas”, de Otávio Paz. (OBS: uma chama é a do erotismo e a outra, do amor).

E, partindo da premissa de que o amor é constructo social, perguntei: “E o que é tão revelador nessa obra?” Sorrindo, ele me resumiu mais ou menos assim: “O amor só se tornou possível nas sociedades em que as mulheres lutaram pela igualdade, conquistaram direitos, se emanciparam, se mostraram capazes de se colocar (micro-) politicamente nas relações e trocas, também no campo erótico. Ou seja, as mulheres saíram do papel restrito de existirem para o(s) outro(s): seja como meramente cuidadoras ou como objetos sexuais, satisfazendo necessidades e desejos alheios.

Depois disso, meu amigo acrescentou: “Por isso que nós temos tanto medo de vocês… Mulher que deseja assusta, faz a gente se sentir fraquinho!…”

“Bonito isso… Ainda mais vindo de um homem…” – Pensei.  E eu que achava que a emancipação feminina era um fenômeno historicamente recente. Que exemplos serão esses discutidos por Otávio Paz? Qual seria, então, a origem da emancipação feminina? Será que faz sentido falar em uma origem?

Conversa boa faz isso com a gente: saímos com outras perguntas…

PS – Na mesma noite, quando cheguei em casa e cumpri o ritual de abrir o Facebook, vi uma notícia interessante: o “Joelhaço”: homens que há quatro anos pedem perdão às mulheres de joelhos, na semana do dia internacional da mulher. http://oglobo.globo.com/cidades/sp/mat/2011/03/10/homens-de-joelho-pedem-perdao-as-mulheres-em-sao-paulo-923983589.asp

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comentários
  1. sgold disse:

    vc se localiza em qual lado, dos que produzem bens de consumo para a sobrevivencia e ficam restritos ao trabalho físico, ou dos que produzem conhecimento, se dedicam à arte e à reflexao e estao preocupados com o espírito?

    os bens de consumo produzidos pelo primeiro grupo nao podem ser artisticos? a arte nao pode tomar a forma de bem de consumo?

    como se ve, apenas algumas perguntas

    abs
    sgold

    • adeuscafofo disse:

      Vamu lá, então sgold:
      Por bens de consumo, entendo aquilo que não têm durabilidade e que é necessário para a sobrevivência biológica do corpo. Nesse sentido, tenho a sorte – ou azar? – de saciar minhas necessidades corporais às custas dos bens de consumo produzidos por outros.

      Então, respondendo à sua pergunta, coloco-me hoje ao lado dos que produzem outros tipos de bens, abstratos, cuja durabilidade, teor artístico, filófico e científico podem ser questionados, o que daria uma outra discussão.

      Na Grécia antiga, os ditos “homens livres” também só podiam se dedicar à vida política e à troca de idéias porque outros (mulheres e escravos) se ocupavam de produzir os bens materiais de consumo e de uso, por meio do labor e da fabricação, como nos ensina Hannah Arendt (A Condição Humana).

      É certo que o mundo mudou muito de lá pra cá, que por exemplo o próprio trabalho dito “do espírito” vêm se precariazando nas nossas instituições de produção de conhecimento, artes, filosofia etc. Muitas vezes, ele fica condicionado a determinações tão restritivas (burocracias, impedimentos orçamentários, jornadas absurdas), que muito acaba se assemelhando ao labor – vira atividade predominantemente regida pela necessidade de sobrevivência.

      E quanto à segunda pergunta, se vc conceber que um chef de cozinha faz uma obra de arte ao propor um prato delicioso e lindo, sim, aí uma “obra de arte” pode ser um bem de consumo, rs. Mas apoiada em Arendt, tendo a crer que a única “utilidade” da obra de arte (excluo aqui a enigmática e controversa arte contemporânea) é resistir ao tempo, promover – esteticamente – a transcendência do ser humano para além de sua existência.

      Ufa! Respondi?
      Putz, ainda tem mais uma, né? Vou pra próxima agora… nos vemos lá!

  2. sgold disse:

    moreover:

    producao artistica relevante pode ser realizada sem que seus autores façam parte do mundo do trabalho?

    abs
    hanna arendt

    • adeuscafofo disse:

      Eu tendo a crer que tanto a produção artística, quanto a científica e filosófica, para serem relevantes, se nutrem da/na vida vivida, atrelada aos meios materiais (e simbólicos) de sobvrevivência. E considerando que o trabalho – ou falta dele -é central na nossa existência, então não há como imaginar seus autores e obras como alheios ao mundo do trabalho.

      Saudações!

      Karl Marx (hehehe)

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