Por que falar em luta de classes (ainda) faz sentido?

Publicado: 28/02/2011 em Situações e reflexões

Em recente discussão acalorada com um amigo, ele me dizia que luta de classes é uma bobagem, algo que não faz mais o menor sentido. Eu discordava dele. Mas ele se mostrava tão indisponível pra escutar meus argumentos e pensar no assunto, que só sobraram ruídos de comunicação.

Não sei se ele vai ler isso, mas tive vontade de partilhar o que vim pensando depois da “conversa”. Pois bem, acho que não apenas faz sentido se falar sim em “luta de classes”, como devemos falar dela mais e melhor!  Tentarei explicar…

Realmente, o termo “luta de classes” pode soar anacrônico, quase mítico. Talvez porque fiquemos com a palavra “luta” ecoando, remetendo a cenas de revoluções históricas, que mais pareceram utopia marxista, ou um punhado de exemplos históricos que tantos consideram “datados” e “mal sucedidos”.

Mas a luta de classes é uma uma realidade cotidiana, a luta de classes é a própria luta dos trabalhadores na vida de todo dia. É também o que dela escapa, inclusive na forma de agressividade, cansaço e violência (ora mais, ora menos explícita).

Quantos de nós podem desfrutar do acesso à boa educação, saúde, moradia, segurança e lazer sem precisar raaaalar muuuuito?! E mesmo esses muuuuitos que raaaalam muito, será que têm realmente acesso aos bens de direito preconizados pelos ideais da Revolução Francesa (liberdade, igualdade e fraternidade)? Será que a passagem para a Modernidade, e o regime capitalista que com ela surgiu, viabilizaram ganho de dignidade pelos/para os homens? E se pensarmos no mundo pós moderno, repleto de tecnologias, aceleração de tempo, fronteiras permeáveis entre o público e o privado, etc. , será que superamos os velhos problemas?

Lendo um pouco Hannah Arendt hoje, tive vontade de examinar o mundo com as categorias empregadas por ela na Condição Humana (labor, trabalho e ação), mas buscando fazer o exercício à luz da (ir)racionalidade contemporânea. A categoria “labor”, por exemplo, poderia nos ajudar a pensar a noção marxista de divisão do trabalho e luta de classes da seguinte perspectiva: mesmo que a maioria de nós, no meio urbano, não esteja se empenhando na lida com a natureza e na produção do alimento necessário à sobrevivência biológica (características do LABOR), uma quantidade exorbitante de pessoas (não apenas os operários nas fábricas), necessita – como o animal laboreans – vender sua força de trabalho para tentar custear as necessidades básicas de si e de seus familiares. Para isso, exaurem-se em rotinas que põe em xeque o próprio sentido da existência e da dignidade humana.

Outras poucas pessoas, pouquíssimas mesmo, ao contrário, podem até prescindir de trabalho e terem condições materiais de vida que não apenas asseguram a sobrevivência do corpo, mas também lhes dão oportunidade de acesso aos bens duráveis e às experiências estéticas, que ativam os prazeres sensoriais, promovem deleite e contemplação.

Mas se inisto em dizer “luta de classes” é porque a grande maioria de pessoas ainda se submete, durante a maior parte de sua existência, a rotinas pesadas de luta pra sobreviver, com seus corpos desgastados, desalojados e cotidianamente transformados em instrumentos, coisas e mercadorias. Isso sem falar na sujeição à pressão psicológica que tende a adoecer os indivíduos psiquicamente. Resistir é uma forma de luta das classes populares. Talvez, adoecer também seja… porque o adoecimento desvela sentidos ocultos, aquilo que não vai bem e precisa ser revisto.  Lutar significa continuar apesar de. E às vezes, pra continuar, é preciso se anestesiar e relaxar um pouco: que tal uma cerveja ou cachacinha com os companheiros de luta no fim da labuta?

O termo “luta de classes”, no plural, também nos remete ao fato de aqueles que pertecencem à classe dominante participam da luta, mas não do lado do labor manual: na divisão do trabalho, ocupam-se de pensar e criar formas sofisticadas de otimizar o trabalho dos outros e justificar essa desigualdade como se fosse natural e fruto de diferenças individuais (vide uma quantidade de propagandas publicitárias e discursos de gestão empresarial).

“Mas se você está por baixo, nada de desespero! O mercado já oferece uma porção de produtos pra combater o seu problema, e também remédios que aliviam o mal-estar, fazem a vida ficar mais leve e até te dão aaasas…”

Ora, não fossem esses discursos, substâncias, técnicas e práticas sociais (tão convincentes quanto rasas de reflexão), e a luta de classes não precisava mesmo existir! A consciência individual seria necessariamente coletiva e não haveria mais porquê uns se apoiarem nos outros pra se darem bem.

Mas o fato é que nossa consciência crítica vem sendo neutralizada e continuamos na luta, mas sem saber quem é o inimigo contra o qual lutar. Ora porque nos fazem sentir  “especiais”, “funcionários do mês”, “colaboradores” etc., ou porque somos ameaçados com a descartabilidade (“se vc não fizer, tem quem faça…”; “você deve ser capaz de lidar com situações-limite” ).

Os desempregados, por sua vez, tendem a achar que se estão fora do mercado, isso se deve a uma incompetência pessoal. Muitos, nessa condição adoecem e deprimem, porque já não têm mais como viabilizar a sobrevivência familiar e sustentar um horizonte de realizações futuras para si e para os seus. Perdem forças na luta moral, impedidos até de sonhar.

Se por um lado o capitalismo em sua fase atual promoveu um ganho no poder de consumo das classes populares, também é certo que hoje se consome muito mais ilusão: os bens de consumo, os discursos e imagens propagadas reforçam a idéia de que desigualdade política e sócio-econômica é fruto de (falta de) aptidão pessoal, de liderança e de empenho individual, pois “as oportunidades estão aí pra todos”. Discurso ideológico!

Pelas redes sociais virtuais, por exemplo, propiciou-se a aparição pública de pessoas diversas, que podem desfrutar da “liberdade” de exporem sua vida privada, forjando um status social para si em ambito público, como se isso pudesse efetivamente operar uma forma de “inclusão”.  Bem, talvez possa… Mas se o indivíduo não “é” nem “tem” aquilo que , como cidadão de uma república democrática, deveria ter por direito e participação política; e se, ao invés disso, basta ele “parecer que é” e “parecer que tem”, ocorre que isso, por si só, tem efeitos de pertencimento tão eficazes quanto fugazes: não resolvem o problema da dominação social, política e econômica que se opera por alguns poucos sobre a grande maioria.

No dia a dia, somos assediados por profissionais de “vendas” (como disse uma aluna: os “come-almas”), com falas e gestos tão falsos quanto sedutores. E aí, se estamos naquele dia um pouco mais frágeis, vulneráveis, ou mesmo se temos certa inocência preservada (pasmem, isso acontece!), aí já viu, né?! Passamos a consumir não somente aquilo de que necessitamos, mas também ilusões. Talvez passemos a necessitar de ilusões, ingredientes fundamentais para suavizar, ocultar e distorcer os efeitos de uma realidade que, em verdade, se dá a ver de muitos modos: a luta das classes!

Por fim, um adendo para evitar uma possível atribuição de ingenuidade à minha posição: o universo midiático e as redes virtuais não apenas se sofisticaram no tocante aos seus mecanismos ideológicos, mas também têm possibilitado experiências inéditas que, dialeticamente, podem vir a gerar formas coletivas à sua superação. Afinal, o virtual pode bem ser um campo de partilha e iniciativa, lugar onde também se travam lutas discursivas e ações políticas que podem resultar em transformaççoes rumo a uma sociedade mais justa e igualitária!

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comentários
  1. sgold disse:

    mas qual é o argumento do seu amigo?

  2. adeuscafofo disse:

    sgold,
    aí vão palavras dele ao me responder a pergunta sobre a falta de sentido da luta de classes:

    “pq essa divisaum de duas classes antagonicas é velha, hoje em dia existem varias classes que lutam por umas coisas e se juntam por outras, sem padraum dialetico, acho que é isso ”

    E como esse amigo não é do campo das ciências sociais, ele acrescenta que hora dessas vai complementar seu argumento e “perguntar pra um desses caras que acham marx mais velho que andar pra tras…”

    Cá entre nós, o papo das múltiplas tribos e da mobilização em torno de causas me parece pertinente e importante, assim como complexificar a discussão em termos das transformações do capitalismo em tempos de globalização, mas ao menos para mim, isso tudo não neutraliza a questão estrutrural da divisão de classes. Nesse sentido, para mim, Marx ainda é atualíssimo…

  3. sgold disse:

    agora que temos um pouco de dialogo, a discussao fica mais interessante. vc tem razao, se sao apenas duas classes antagonicas ou se a antiga luta de classes hoje envolve mais gente, é uma discussao mais longa. se o argumento dele fosse apenas tosco, mobiizaria seu esforço para escrever o post?
    abs
    sgold

  4. adeuscafofo disse:

    O Michael Moore também quer:

    http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=17519

    PS – Nao sei onde é bsb, mas quando vc voltar, podemos ir ao vc, o que acha?

    • sgold disse:

      bsb é brasilia. mas já estou de volta a sp.

      • sgold disse:

        michael moore é mesmo um interlocutor de peso. traz densidade à discussao. brincadeiras à parte, concordo que a dimensao moral do plano de resgate à crise de 2008 tem sido varrida para debaixo do tapete.

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