Import Export

Publicado: 11/02/2011 em Fimes que marcaram

Import Export, filme austríaco selecionado para a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2009, é contundente. Lembro de tê-lo visto sozinha, numa sessão das 22h, em maio daquele ano. Saí do cinema pesando o dobro. E esse dobro era beeeem pesado, porque era peso de alma. Cheguei em casa naquela noite em profundo silêncio, e ao me deitar, fiquei revirando na cama sem conseguir dormir. Então decidi levantar e escrever algo. Recuperei hoje esse comentário que fiz sobre o filme naquela noite e fiz pequenas modificações. Aí vai ele:

Import Export me deixou emudecida. E ao mesmo tempo inquieta, pensando sobre problemas que atravessam o mundo contemporâneo e golpeiam eticamente os seres humanos: o desemprego, o desenraizamento, a instrumentalização excessiva das relações humanas, a dificuldade de comunicação, a falta de sonhos, a árdua luta pela sobrevivência, a solidão e a velhice em situação de abandono, a decadência do corpo acelerada pelos modos de vida, o desvanecer da autonomia, e a morte em sua dimensão mais concreta: “o fedor”.

E a coisa é de tal modo drástica, que a prostituição, por exemplo, aparece no filme como uma perspectiva mais interessante – em termos de custo-benefício – do que outros tipos de trabalho em condições ainda mais precárias, humilhantes e quase sem retorno financeiro. E fica a questão: até que ponto vale à pena se submeter a esse mundo? Ou será que resistir, mesmo que em contextos permeados de dominação e tarefas maquínicas, é mais digno do que a apatia?

A violência é uma marca do filme: não a violência explícita e pontual, mas aquela disseminada sutilmente. São golpes na alma, golpes humilhantes e crônicos. Quando a velhice se instala e as pessoas se tornam incapacitadas, putrefam nas mãos de terceiros, até morte – que tantas vezes demora a arrematar uma vida há muito esvaziada de vitalidade e sentido existencial.

E se digo “contundente”, é porque o filme trata de maneira realista esta condição eticamente adoecida do ser humano no mundo atual – gente reduzida a ser útil (com prazo de validade); gente totalmente substituível; gente submetida a condições adversas; e, ainda, gente “bem colocada” que testemunha essa realidade e segue vivendo como se a vida do outro não lhe dissesse respeito.

Eis o adoecimento ético. Como alguns teóricos da filosofia e ciências humanas nos lembram, a  palavra ethos, em seu sentido originário, significa “casa”, “morada”. Esse filme, como outros de uma safra recente, enfia-nos goela abaixo o mal estar de, em pleno XXI,  ainda nos depararmos com um “mundo-morada” onde tantos (sobre)vivem sem dignidade nem perspectiva de uma vida melhor, por exemplo com um horizonte mais abrangente do que a mera ampliação do poder de consumo. E isso não é exclusividade do terceiro mundo…

Quanto ao remédio pra esses males, ficam apenas algumas pistas, talvez nas breves passagens em que um ou outro personagem tem a chance de um gesto de delicadeza, de solidariedade e de amizade.

Import Export faz pensar. Mas, sobretudo, faz calar!

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comentários
  1. sgold disse:

    thais:

    tb assisti import-export, mas em outro momento, em outro lugar. a impressao que tive foi menos generalizada que a sua. quero dizer, me pareceu menos um problema do seculo XXI e mais um problema da Europa, ou de uma parte da Europa, que nao já nao estava conseguindo se adaptar às mudanças provocadas pela globalizacao.

    nesse sentido, o filme antecipava – no leste europeu – as crises economicas da zona do euro – a da grecia, portugal, espanha, etc…

    e cá entre nos, faz tempo que a europa precisava mesmo se ajustar: ainda é uma ilha da fantasia para os cidadaos, mantida às custas da exploracao da mao de obra dos imigrantes ilegais turcos, arabes, do leste europeu. alguma hora o controle da fronteira nao ia ser suficiente.

    em suma, o filme é pesado mesmo, mas nao sei se ele se aplica ao Brasil, que no momento parece estar se beneficiando da globalizacao, ou mesmo aos EUA, que nao se beneficia tanto assim, mas que parece se adaptar de forma mais facil a uma nova realidade do que os países europeus.

    é só a minha opiniao.
    abs
    sgold

  2. sgold disse:

    veja só: vc acha que o filme se aplica à China? Aos países árabes? À Argentina? À Austrália? não são problemas diferentes?

    • adeuscafofo disse:

      É, sgold, considerando que vc já viajou um bocado e conhece política e economia internacional muito mais do que eu, qualquer tentativa de te responder será como uma opinião sem muito substrato…

      Talvez por isso prefira agora me abster e reiterar que, possivelmente por essa ignorância minha, somada a uma sensibilidade para questões que atravessam a condição humana de um modo mais amplo, minha leitura do filme tenha sido mais “generalizada”, sensível a fenômenos que reconheço como próprios de uma contemporaneidade sem endereço.

      Acho ótimo que você traga essas questões, que pedem mais rigor à análise: a crise ética, de fato, afeta alguns países mais do que outros, algumas cidades e bairros mais do que outros, em certas épocas mais do que outras, e de modos que variam historicamente. Importante pensar nisso pra também pensar nos possíveis modos de enfrentamento.

      Somemos forças, pois!

      Abraço,

      Thaís

  3. sgold disse:

    thais:

    nao viajei tanto assim, e menos ainda do que deveria.
    mas concordo que nossas leituras nao se excluem.
    voi-la!
    sgold

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