Um Natal com Macabéa

Publicado: 18/12/2010 em Fimes que marcaram, Livros

 

Vi pela primeira vez o filme “A Hora da Estrela” (dirigido por Suzana Amaral e inspirado na obra homônima de Clarice Lispector), quando tinha 10 anos. Fui levada ao cinema pelos meus pais, por sinal no mesmo dia em que vimos Paris Texas. (Mal sabiam eles o que estavam fazendo…) Era também minha primeira ida ao Cine SESC.

Chorei aos prantos naquela tarde, impactada que fiquei pelos dois filmes, mas principalmente pela personagem de Macabéa, em “A Hora da Estrela”. Minha mãe ficou até preocupada…

26 anos se passaram. Nesse período, li esta obra de Clarice duas vezes, por sinal, em dois exemplares diferentes, que me foram cuidadosamente presenteados, com lindas dedicatórias, por um paciente e uma aluna que tive. Os livros e as exatas palavras nele inscritas se foram com o fogo, mas o gesto ficou na memória.

Nesses dias, revi pela primeira vez o filme “A Hora da Estrela”. E mesmo sem a fila de lágrimas, me comovi tudo de novo: com os silêncios de Macabéa, com sua curiosidade frente ao mundo, com um sentimento que ela desperta, de que o que era pra ser pura dor de existir, nela vira leveza e poesia.

E pra quem não sabe nada sobre a “A Hora da Estrela”, farei a seguir uma apresentação “spoiler”, eliminando a surpresa e avisando em tempo de se parar a leitura por aqui.

Moça jovem, órfã e pobre, nordestina e imigrante, recém chegada a São Paulo nos idos da década de oitenta, Macabéa é datilógrafa, virgem e apreciadora de coca-cola. Macabéa é isso. Macabéa é para muito além disso…

No cinema, Macabéa ganhou rosto. Não que Clarice já não lhe tivesse dado, mas digamos que a interpretação de Marcelia Cartaxo é um espetáculo à parte. Há também o talento da direção, que por meio do olhar da protagonista, faz metrô virar lazer, flor transformar pessoa, conversa boba parecer profunda, rádio-relógio ser ensinamento.

Macabéa inspira-nos pela aceitação poética de sua existência, que mesmo atravessada pela precariedade ligada à sua condição de classe, gênero e etnia, à feia fisionomia, à solidão e ao desenraizamento -, é capaz de cultivar uma vida psicológica rica e pulsante: ora (se) perguntando pelo sentido das coisas, ora percebendo beleza e amor nas brechas que se abrem em seu cotidiano opaco, e lhe permitem acessar um mais além.

A personagem tem sonhos. Talvez, como a maioria das mulheres, quer encontrar um amor e se casar vestida de noiva. Brinca de se imaginar noiva e dança ao som de uma valsa em frente ao espelho. Seu desejo de ser amada é tão grande, que às vezes percebe as situações erroneamente. Por exemplo, quando acha estar sendo paquerada por um sujeito de óculos à sua frente – sem perceber tratar-se de um cego – ou por um vigilante no metrô – sem perceber estar sendo advertida. Mas a realidade é cruel: esses “pseudo-olhares” românticos não passam de ilusões!

A experiência de teor mais (hetero) erótico vivida por Macabéa acontece no vagão do metrô: ela, espremida entre dois homens, se delicia com o cheiro que deles exala enquanto conversam e roçam em seu corpo, situado bem no meio deles, movendo-se todos com o movimento do trem. Uma cena antológica. E enfadonha.

Quando Macabéa é finalmente notada e acompanhada por um homem (Olímpico, na ótima interpretação de José Dumond), ela parece não se incomodar com o fato de ser tratada por ele com desdém. Macabéa parece aceitar isso passivamente, como se fosse algo natural ou merecido: talvez porque Olímpico seja o amor possível – e ele é imigrante nordestino como ela – para uma mulher que, desde seus ancestrais, carrega em si o signo da humilhação social.

Mas nessa história, nem o “amor possível” é possível para ela. Sua colega de trabalho – extrovertida, sensual, solteira e também em busca de casamento -, não hesita em romper com a ética do coleguismo e lhe passar a perna: rouba-lhe o namorado em nome de uma “simpatia de amor” recomendada por uma vidente, interpretada por Fernanda Montenegro. Para compensar o dano causado, a colega sugere a Macabéa que vá à mesma vidente, pessoa capaz de solucionar destinos.

Então Macabéa vai à vidente, que a recebe com um carinho estranho, porque quase maternal. No decorrer na sessão, a vidente incita a protagonista a acreditar que sua vida vai mudar radicalmente, que seu sonho de amor vai se realizar.

Ao ouvi-la, Macabéa vai pouco a pouco se inflando em alegria. Quase não cabe mais em si. Ao sair dali, toma coragem e entra numa loja. Compra um vestido branco e sai pelas ruas vestida com ele. Macabéa agora é noiva: solta os cabelos, solta o sorriso, solta os gestos e o caminhar… Macabéa agora é pura fruição.

Interessante perceber o poder que o outro exerce: pelo fato de que alguém acreditou num lindo futuro pra ela, agora ela também podia acreditar! E eis que, em meio a um devaneio delicioso e distraído, Macabéa é atropelada.

Seu corpo vai de encontro a um carro, cujo dono é um belo estrangeiro, igualzinho aquele de que falava a vidente. Na cena seguinte, vemos Macabéa estendida no chão e, logo depois, ela correndo de cabelos esvoaçantes, ao encontro do belo homem que a essa altura já saíra do carro e também corria sorridente na sua direção.

A profecia estava certa. Afinal: a vidente não especificou em que registro isso aconteceria: se no registro da realidade, se no da fantasia. Ou ainda, se naquele em que realidade e fantasia se mesclam para compor o mais genuíno espaço da existência singular: eis onde Macabéa realmente vivia. E onde para viver, às vezes, é preciso deixar de ser…

Será que, para muitos de nós, só resta sonhar? Será que sonho pode, por si, bem nutrir uma vida? Será que, para adentrar o campo de alguns sonhos, desses que parecem impossíveis, só se for tragicamente, ou na contra mão? 

Não tenho respostas para tais perguntas…  De todo modo, essa história de Clarice me fez lembrar de outra, que ouvi recentemente, sobre o pinheiro de Natal. E como o período é propício, vou transcrevê-la abaixo, e apelidá-la de:

“A Hora das Estrelas”

Conta-se que, quando os pastores foram adorar o Menino Jesus, decidiram levar-lhe flores e frutos produzidos pelas árvores de modo prodigioso. Depois dessa colheita, houve uma conversa entre as plantas, num bosque. Regozijavam-se elas de ter podido oferecer algo a seu Criador recém nascido: uma, suas tâmaras; outra, suas nozes; uma terceira, suas amêndoas; outras ainda, como a cerejeira e a laranjeira, que haviam oferecido tanto flores quanto frutos. Do pinheiro, porém, ninguém colheu nada. Pontudas folhas, ásperas pinhas, não eram dons apresentáveis.

O pinheiro reconheceu sua nulidade. E não se sentindo à altura da conversa, rezou em silêncio: “Meu Deus recém-nascido, o que Vos oferecer? Minha pobre e nula existência. Esta alegremente Vo-la dedico, com grande agradecimento por me terdes criado na vossa sabedoria e bondade.”

Deus se compadeceu com a humildade do pinheiro. E, em recompensa, fez descer do céu e se afixarem nele uma multidão de estrelinhas. Eram de todos os matizes que existem no foirmamento: douradas, prateadas, vermelhas, azuis. Quando o outro grupo de pastores passou, levou não apenas os frutos das demais árvores, mas o pinheiro inteirinho, a árvore de tal forma maravilhosa, da qual nunca se ouvira falar.

E lá foi o pinheirinho ornar a gruta de Belém, sendo colocado bem junto do Menino Jesus, de Nossa Senhora e de São José.

E aí, viajei na associação? Ou vocês notaram alguma semelhança entre as histórias?… A “moral da estrela”? Que tal essa:

A humildade de quem sabe de suas limitações e mesmo assim anseia “mais ser” é diferente daquela de quem está resignado ou tristemente preso no lugar de humilhado/derrotado. Assumir um sonho genuíno empenha sacrifícios que, mesmo difíceis, podem ser profundamente transformadores e dotados grande de beleza.

Feliz Natal!

 

 

 

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comentários
  1. Um sonho…e tantas possibilidades de qualificação…possível, impossível, ético, bizarro…”qual o quê!” – como diria Chico. Tenho uma única certeza…certo ou não, possível ou não, o campo dos sonhos e das fantasias ainda é o nosso maior quintal de liberdade. Onde não se tem fronteira, onde não se tem limite, onde a impossibilidade está fora de questão.
    Sonhemos, pois, livres estamos para isso!
    Beijos, sempre, e feliz.
    Sylvie

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