A Ilha do Medo: quando a razão está ilhada pela memória do insuportável

Publicado: 30/11/2010 em Fimes que marcaram

 

A Ilha do Medo (Shutter Island) EUA, 2010. Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Laeta Kalodridis. Baseado em livro de Denis Lehane. Com Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Max Von Sydow, Bem Kingsley, Patricia Clarkson e Lack Earle Harley. WARNER.

Para quem ainda não viu o filme, advirto que meu comentário se apóia em um spoiler, ou seja, se você prefere a supresa, deixe essas linhas pra depois… Para quem já viu, e tem vontade de pensar sobre o filme, siga-me! Quem sabe você me ajuda a enxergar essa obra por outros ângulos… E para aqueles que não viram, mas não se importam em saber do filme antes de o apreciarem na telona/linha, segue um breve resumo para que, minimamente, você possa me acompanhar nessa incursão reflexiva.

Di Caprio encena um personagem que vai até uma Ilha-Presídio, onde se situa um manicômio judiciário. Ele é viúvo, ex militar e policial, em uma importante missão (uma explícita e outras implícitas, reveladas aos poucos). Leva consigo, além da astúcia e coragem de um agente federal norte americano, a marca traumática das lembranças dos campos de concentração nazistas, pois que servira no exército durante a segunda guerra. Essas lembranças o atormentam fortemente, misturando-se a fragmentos de sonhos, visões e memórias de experiências.

No navio a caminho da Ilha, ele conhece o parceiro, policial que o acompanhará na missão de descobrir o paradeiro de uma suposta paciente/presa que fugira – essa era a missão explícita. Contudo, as razões de estarem ambos ali, bem como a lealdade do colega, vão sendo colocadas em xeque na medida em que Di Caprio vai ficando perturbado por ouvir vozes, ter visões, pesadelos, enxaquecas, fotofobia e freqüente mal estar. Junto a isso, sem saber, ele está ingerindo neurolépticos e sendo submetido a sessões regulares de “terapia” que pretendem confrontá-lo com “a verdade” latente: ele não é quem pensa que é e está ali porque também é louco e criminoso.

Descobrimos no decorrer do filme que o personagem Teddy Daniels, interpretado por Di Caprio, matou sua mulher após perceber que ela assassinara os 3 filhos do casal. (O tema lembrou-me a história de Medéia… Mas no filme, a mãe assassina não parece ter a intenção de matar os próprios filhos para se vingar do marido: ela comete os crimes em meio a um surto psicótico pouco explorado na trama)

O delírio do protagonista vai sendo desmantelado à força, por meio do confronto compulsório com “dados de realidade” – fotos, nomes, noções de tempo e espaço, revelação de identidades. A lucidez vai se produzindo como um efeito da eficácia do método terapêutico preconizado pelo personagem de Ben Kingsley, o psiquiatra. O “tratamento” desconstrói a defesa psíquica delirante do personagem, obrigando-o a se defrontar com os vestígios mnêmicos de seu ato homicida.

Uma vez recuperada a memória do evento traumático, Teddy passa a culpar-se terrivelmente e se sentir um monstro. 

Qual a serventia dessa lucidez, afinal?!

Em sua loucura e parcial amnésia, o personagem ao menos tinha um ideal pelo qual lutar. Não era um monstro, mas um herói em potencial, disposto a salvar vidas (e, na expressão cultural e onipotente do delírio, a “salvar o próprio país”).

Claro que esse herói era capaz de sofrer e por isso mesmo se voltava para a ação. Lembrava-se desde o iníco do filme, por exemplo, de que não conseguira salvar os judeus nos campos de concentração invadidos por sua tropa, pois chegaram tarde demais, quando muitos já estavam mortos. Isso o motivava a agir profissionalmente com mais astúcia e prontidão.

Interessante pensar que essa memória do holocausto evoca – e ao mesmo tempo encobre – uma outra: a da morte de seus próprios filhos e do assassinato de sua mulher, que talvez pudessem ter sido evitados caso ele não tivesse se omitido diante da percepção da loucura da esposa. Ao invés disso, à época, ele bebeu e se anestesiou… 

E quando, já perto do fim, ele já está supostamente “curado” da psicose, somos jogados numa ambigüidade de compreensões que, mais do que servir para nos confundir, serve para nos apresentar o desfecho do filme como um paradoxo da razão ilhada pela memória do insuportável.

Na cena final, ele se dirige ao psiquiatra como se aquele ainda fosse o velho parceiro policial do delírio. Dessa maneira, parece reavivar um status e uma importância que lhe foram arrancados junto com o delírio. Mas não é só isso…  

Na brincadeira de retomar o delírio – via jogo de encenação – ele acaba fazendo uma escolha ética: livrar-se do peso insuportável da culpa e da dor, ainda que pra isso tenha que perder a própria capacidade de escolha.

Ora, sem a esposa, sem os filhos, sem o amigo, sem o delírio que lhe permitia ser um outro “si mesmo”, e ainda por cima, física e psiquicamente “ilhado”, já não tinha mais nada a perder. Sua escolha, aparentemente irracional, nessa condição está informada pela mais justa razão: livrar-se de sua miserável existência entregando-se à lobotomia.

Eis o paradoxo: seu gesto mais lúcido foi entregar a própria lucidez de bandeja. Afinal, esta não lhe serviria mais pra nada, muito menos pra sobreviver à corrosiva e dilacerante dor de existir atravessado pela a culpa, pelo horror e pela solidão.

Retomando a cena final, o personagem de Di Caprio, aparentemente resignado e consciente, vira-se para o psiquiatra como quem inesperadamente volta a delirar, mas, ao contrário, está apenas partilhando com seu semelhante um impasse ético-existencial passível de se colocar a qualquer ser humano: 

“O que é menos pior: viver como um monstro ou morrer como um homem bom?”

Vejamos que, nesse contexto,  “homem bom” remete-se menos à figura mítica do herói americano, pois seu delírio fora eficazmente demolido, e mais à idéia de um homem dócil, sem perturbação, sem passado comprometedor e capaz de viver de acordo com as regras sociais. 

Outra forma de colocar a questão: é melhor viver ilhado em uma terrível verdade ou instaurar – ainda que pela via da loucura, da amnésia ou da morte subjetiva – uma outra condição? 

Se o protagonista é porta voz do autor da obra, poderíamos supor que Denis Lehane prefere a segunda opção: a lucidez terrorífica  é, possivelmente, a mesma que motiva um suicida a concluir seu ato. Afinal, um “monstro” ainda pode – dotado de uma capacidade exclusivamente humana – decidir interromper sua vida de monstro para tornar-se uma boa criatura “humana”.

Mas o que pode restar de humano após um ataque simbolicida como a lobotomia? De meu ponto de vista, nada. Daí a minha associação com o suicídio.

E pra ir encerrando, porque já falei um bocado, sugiro um outro excelente filme sobre o intrigante tema da memória da violência vivida/testemunhada e os percursos de seu enfrentamento: ora ligados ao binômio loucura X lucidez; ora ao binômio autonomia X heteronomia. Trata-se de: “O Segredo de seus olhos”, do argentino Juan Jose Campanella, 2009.

Em ambos, somos confrontados com dilemas éticos, como: O que se pode/se deve fazer com aquilo que opera violentamente uma disrupção em nossa vida passada ou na de outrem? Como sustentar um devir possível, sem alguma relação com o passado? Como, nessa relação com o passado, não ficar à mercê dele?

O post “Vale à pena lembrar do que dói e corrói?” dá pistas para enfrentar essas questões…

 

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comentários
  1. Anselmo disse:

    Por sua indicação, Miss, acabei assistindo o filme. Muito bom. Beijão.

  2. Jessy disse:

    Muito interessante a sua analise do filme.

    Pois começamos seguindo uma leitura, depois embarcamos em outra, descobrimos que a primeira estava errada, aí surge uma virada que traz novo entendimento e o caminho começa a afunilar até desembocar no final. Mas Ilha do Medo prefere pular a dificuldade em construir uma história com mais entroncamentos e criar apenas uma grande surpresa. Afinal, é mais fácil fazer só uma virada em vez de várias pequenas mudanças de rumo, né?

    Um abraço!

    • adeuscafofo disse:

      Oi Jessy!
      bacana essa idéia dos caminhos do pensamento que desenham rotas inesperadas. Um pouco isso tem a ver com esse texto, um pouco com a sua leitura, aberta ao devir.

      Quanto à sua pergunta, não sei te responder não. Mas me ocorre que às vezes – e agora fica ativada minha veia psicanalítica – as tais “pequenas mudanças de rumo” são mais comuns, mais fáceis e servem para retardar – ou mesmo impedir – a angústia de uma grande virada.

      Um abraço!

  3. Jessy disse:

    Caracas, não imaginei que fosse te deixar sem resposta. Rs rs…
    Bom eu concordo com você que essas pequenas mudanças são mais comuns, mas discordo no ponto de retardação da angústia, acredito que fazer as mudanças aos poucos angustia mais, fazer as coisas radicalmente do meu ponto de vista bloqueia essa angústia, pois tenho outros objetivos e metas com o que me preocupar. Agora se vai haver mudança que seja radical, mudar envolve uma série de fatores, a palavra mudar significa transformar, converter, tornar-se diferente do que era, enfim a palavra por si só já é bem radical, por isso as pessoas temem a mudança. Claro, cada um tem um ritmo e um modo de enxergar as coisas, a percepção também pode mudar de acordo com as experiências.

    Um abraço!

  4. luciana de souza disse:

    caracaa, me ajudou muitoooo , rsrsrs. bjs;

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