Vale à pena lembrar do que dói e corrói?

Publicado: 28/11/2010 em Fimes que marcaram, Situações e reflexões

Em um dos colóquios promovidos pelo Laboratório de Estudos do Imaginário e Núcleo Interdisciplinar do Imaginário e Memória (LABI– NIME / USP), tivemos a oportunidade de receber a visita da talentosa cineasta Tata Amaral. Ela nos apresentou trechos de “Trago Comigo” (2009), minisérie para a TV Cultura sobre a memória das vítimas da ditadura militar brasileira. Depois, participou de um rico debate.

Em certo momento, na platéia, uma senhora tomou a palavra e disse estar se sentindo muito desconfortável ali, afirmando que vivera na pele o drama de ter o marido e vários amigos presos e torturados durante esse período e que aquelas lembranças não estavam fazendo bem nem à ela, nem à filha, sentada ao seu lado… A tortura e a violência evocadas pelas cenas do filme estavam suscitando-lhes um profundo mal estar.

Afinal, para quê lembrar disso?! Essa era a pergunta que ecoava…

E após um silêncio difícil, Malu Schmidt (coordenadora do LABI e minha queridíssima orientadora) tomou a palavra e mencionou uma situação por ela vivida há alguns anos, quando fora membro da banca de uma tese de doutorado sobre o tema da ditadura militar no Brasil. Contou-nos que essa mesma pergunta foi feita à pesquisadora na ocasião da defesa, e que um dos colegas argüidores, que também fora vítima da ditadura militar, tomou a palavra pela moça e respondeu:

“Para mim, se o presidente FHC fosse à TV e fizesse um pronunciamento público, dizendo que ao invés de “terroristas”, eu e meu grupo éramos “revolucionários” tentando lutar por um Brasil mais justo, e meu filho pudesse ver o presidente do país falando assim de seu pai, isso valeria toda a dor de lembrar!”

Temos aí uma boa pista pra tentar responder à pergunta lançada: vale à pena lembrar do que dói e corrói?

De fato, o trabalho da memória da violência tende a ser bastante doído para o recordador, requerendo sabedoria e delicadeza no trato. Nesse sentido, penso que as pessoas ali presentes escutaram respeitosa e solidariamente a dor expressa da mãe e da filha.

Mas a resposta parece ser “sim, vale à pena lembrar”, desde quando se possa(m) abrir outro(s) sentido(s) para a história, reposicionando o papel dos personagens e lhes devolvendo, publicamente, uma dignidade extorquida. Nesse quesito, Tata mais do que logrou êxito. 

A lembrança, se reinscrita (publicamente) na história, apesar de fazer doer, pode vir a não mais corroer os sobreviventes, seus pares e descendentes. Talvez, aí resida a esperança de que as vítimas diretas ou indiretas não venham a se tornar herdeiras inconscientes dos efeitos mais perturbadores – porque perpetuadores – da humilhação, da vergonha, do indizível e impensável transmitido sem a devida “metabolização simbólica”, inclusive às gerações que nem nasceram.

Em suma, a aposta é lembrar, inscrever na história e refletir: para não repetir!!

OBS: Essa reflexão se complementa com a leitura das páginas “A Morte e a Donzela” e “A Ilha do Medo e o paradoxo da razão ilhada pela memória do insuportável”, e se apóia na discussão sobre as transmissões transgeracionais do trauma, proposta por Pierre Benghozi  (1995, 2010).

Anúncios
comentários
  1. Muito boa esta visao. Quando vi o termo metabolizacao simbolica achei intetessante acrescentar tambem a necessidade de uma metabolizaçao somática, dentro do possivel para aquele corpo. Existe um trabalho nesta linha chamado Somatic Experience, de Peter Levine.Parabens pelo blog!
    Nila

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s