“Restos noturnos”

Publicado: 16/11/2010 em Diário poético

Ou simplesmente o que lembrei de um sonho

Eu e minha família mudávamos para a casa da vizinha, que era bem outra, muito diferente, com vários planos crescendo pra cima, plantas entremeando arquibancadas de cimento em forma semi-circular e um cassino abandonado.

Antes de caminhar por esta “nova” casa, eu havia ido visitar uma amiga, que de novo tinha se mudado para uma casa que, apesar de “nova”, era parecida com as anteriores. Eu não chegava a entrar, a não ser na área externa e não sei porque.

Depois disso, me lembro de estar passeando por um parque,  sozinha, numa bela tarde de luz e nuvens. De repente, dava explicações – sem que me fossem pedidas – a duas moças do interior, talvez namoradas, que pareciam estar perdidas naquele local.  Dizia-lhes que notassem a diferença entre o Jardim de Versailles ao longe (será que era lá que estávamos?) e a sua estilização simplificada nas páginas de um livro grande e aberto ao nosso alcance, apoiado em algo que poderia ser uma estante musical.

Cena seguinte: eu, caminhando à noite na beira de uma balsa parada, talvez um barco de pesca estacionado, vendo um homem sujo matar um porco cor de rosa por sufocamento, para depois cortá-lo em pedaços e comê-lo cru, como “suchi”. As pessoas o olhavam e nada diziam e eu, quieta, pensava que não bastava ter um discurso contra aquela violência, se eu mesma apreciava comer daquela carne. No fundo, eu precisava que alguém fizesse o chamado “serviço sujo”.

Só que àquela altura, esse gesto me pareceu uma violência descabida, injustificável.  Alguns pedaços que o sujo homem cortava eram arremessados dentro de sua camisa, que também estava imunda. 

E notando meu olhar de desaprovação, ele disse – como que pra me agradar – que aqueles pedaços estavam sendo guardados pra mim. Num misto de perplexidade e alívio, virei de costas e me afastei em silêncio.

Tudo isso não é bem enigmático? E aí, algum analista de plantão se arrisca a fazer alguma interpretação?

A mim só ocorre pensar que a casa da gente começa no corpo… 

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comentários
  1. PHDeptuesqui disse:

    Seu renascimento: casa nova, seu pudor e ética: naum entrar em casa de amigo (ou self), sua integração com sua sombra: entender o homem do porco.

  2. Anselmo disse:

    Oi, Miss,

    Interessante seu sonho. Você está com sorte porque hoje é meu dia de plantão. Tentarei, contra mim mesmo, ser FREUDIANO. 😉

    A casa representa o ethos, a morada do Ser. O seu Ser, que é seu instinto fundamental, seu desejo mais forte, e que foi reprimido, procura, através do sonho, pela sua realização. Seu instinto fundamental não pode ser, senão, sua sexualidade.

    A casa de sua amiga representa justamente o modo de vida homossexual. Permanecer na área externa da casa significa que sua sexualidade homossexual não consegue realizar-se.

    A mudança de sua família para a casa da vizinha expressa o desejo de seu Ser de que seu grupo familiar o aceite. O cassino abandonado representa o desejo de que sua família e todo o grupo social ligado a ela desista de impor a norma sexual social da heterossexualidade.

    As namoradas perdidas representam o extravio de seu próprio Ser. Seu dizer a elas sobre a diferença entre o Jardim de Versailles e sua simplificação gráfica representa a vontade de seu Ser de que ele, finalmente, fosse realizado na existência.

    O porco cor de rosa representa a imagem de seu Ser construída pelo seu grupo social, que considera a prática homossexual algo de baixo valor. A morte do porco cor de rosa representa, justamente, o medo de seu Ser de não passar à existência e, mesmo, de, ao se tornar de fato existente, ser alvo de julgamento pelo seu grupo social. O homem que disse que alguns pedaços da carne estavam sendo guardados para você representa a moral ou sistema de crenças do qual seu Ser é vítima, e do qual, também, é cúmplice, ainda que contra a própria vontade, por pressão social.

    Enfim, o seu Ser está se debatendo em você para que seja realizado em toda a sua plenitude, e exige que uma atitude seja tomada nesse sentido, começando pelo abandono do pacto silencioso de menosprezo à homossexualidade, dos valores heteronormativos de seu grupo social e familiar.

    Espero ter sido, no mínimo, interessante, ainda que incorreto – o que só seu Ser saberá dizer…

    Um grande beijo.

    Lorde

  3. adeuscafofo disse:

    Meu Caro Lorde,
    Obrigada pelo exercício analítico freudiano a contragosto: está bem articulado com as cenas do sonho e traz um tema fundamental que, além de tudo, sei que é muito caro a você.
    Contudo me pergunto: será que minha questão seria simples assim: heteronormatividade (acompanhada de heterossexualidade) versus uma possível homossexualidade recalcada? Será que, se fosse assim, eu já não teria escolhido – de uma vez por todas – “sair do armário”, nem que fosse longe do meu grupo social (e veja que tive muitas chances pra isso…)?
    É verdade que uma porção de homens, bem como um determinado “modus operandi” masculino da atualidade – tantas vezes superficial e amedrontado frente à força da (nova?) mulher – já muito me decepcionaram. Mas… que fazer com o fato de que “eles” (bem, alguns…) ainda exercem sobre mim uma força de atração erótica que põe em questão a própria razão?
    Te aguardo, Zigmund Lorde…
    Saudações sublimadas,
    Miss (you)

    PS – Mais uma pauta para o nosso pôr do sol com vinho na sua janela, querido.

    • Anselmo disse:

      Puxa, querida, vindo de você fico feliz por ter achado o exercício analítico freudiano bem articulado.
      Não diria, no entanto, que a questão que coloco seja a heteronormatividade (acompanhado com heterossexualidade) versus possível homossexualidade recalcada. Diria que a questão é sexualidade heterossexual versus sexualidade plena (heterossexual e homossexual). Nesse sentido, não é que a homossexualidade está reprimida: é que SUA sexualidade, com suas várias formas, possibilidades, potencialidades, necessidades e fantasias, não está PLENAMENTE realizada – algo muito comum, aliás, entre os mortais. De fato, você não escolheu sair do armário porque você, como todos nós, é muito mais do que homossexual ou heterossexual: é homossexual E heterossexual, e ainda alguma coisa a mais que não vem ao caso aqui. Daí ainda a existência, apesar de tudo, de sua atração por homens – bem como a minha, apesar de tudo, por mulheres, tanto que às vezes – confissões de um homossexual – sonho sugando um clítoris.
      Nosso papo tá quente, hein, menina? Mas proponho que paremos por aqui, senão a coisa pode pegar fogo, ainda que no bom sentido! 😉
      Eu que te aguardo com todo carinho, Miss!
      Um beijão!
      Lorde

      • adeuscafofo disse:

        Você sempre me leva além, Lorde… : )
        Um grande beijo e… Sim, paremos por aqui, pleeeease, rs!
        Miss

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