De Quintana a Forrest Gump: uma reflexão pessoal sobre as ilusões

Publicado: 06/11/2010 em Situações e reflexões

Dentre as coisas que não se queimaram (por mero acaso), encontrei uma gravação de 2005, de um poema do Quintana por mim recitado em meio ao fundo musical maluquinho do violão de Léu. E me pus a repetir os versos:  

“Meu saco de ilusões bem cheio, tive-o

Com ele ia subindo as ladeiras da vida

E no entretanto, após cada ilusão perdida,  

Que extraordinária sensação de alívio!”

 (Mário Quintana)

“Que extraordinária sensação de alívio?!”

Se o saco de ilusões do Quintana se esvaziasse um pouco mais, acho que uma hora o alívio passava, possivelmente antes das próximas ladeiras da vida. E no momento em que ficasse murcho, o saco virava tormento, um peso sem uso! Será que saco murcho de ilusões é saco cheio de desilusões?

Ok, se o saco tá cheio, há que esvaziá-lo, mas com moderação. Não sei se é vício de ofício pensar o humano pelo viés dos (des)equilíbrios, mas tenho cá pra mim – por experiência própria – que o excesso de ilusões gera “ilusionites” (crônicas ou agudas), que por sua vez tendem a gerar “desilusionites” bruscas (pois que são da mesma natureza). Mas como ficar sem elas?!

Imaginando as (des)ilusões como substâncias potencialmente terapêuticas, elas teriam uma posologia: a dose deveria considerar a idade, a reincidência ou não do sintoma, as reações alérgicas do usuário etc. Deveria haver uma bula explicitando que o excesso pode causar problemas, por exemplo “ortopédicos” – afinal a “queda” costuma ser alta -; mas sua falta pode causar tontura, tristeza, apatia, tédio, robotização, e até mesmo morte psíquica.

O “tratamento”, fosse eu a paciente, deveria se orientar para a dosagem capaz de me fazer:

1- Evitar o perigo do equívoco, sobretudo do equívoco de correr, frequentemente, perigos. (Talvez pra isso,  uma pá de ilusões do meu saco teria que ser tirada);

 2- Querer a vida possível, em cores vivas e com marcas pessoais. (Mais um punhado de ilusões retiradas, mas ainda estamos antes da metade);

 3-  Sonhar e agir, abrindo-me para o Outro e transitando por planos e profundidades “escherianas” nesse mundo bidimensional.

(Bem, relendo essas três metas, creio que seriam necessários outros ingredientes e preparos, para além das ilusões retiradas ou acrescidas…)

Seriam os antidepressivos as estratégias mais próximas desse calibrar das ilusões (e alívios)?

O universo psiquiátrico, como outros mercados, tem um cardápio variado ao cosumidor. No caso, trata-se do consumo de bem estar e do uso “apropriado” ou “eutímico” das ilusões.

Mas ao menos até aqui, venho preferindo a poesia, a música, o cinema… Lembrei de dois personagens do cinema. O primeiro que veio à cabeça foi o Forrest Gump. Por que será que ele fascina?

Depois, me lembrei de Giulieta Masina, no papel de Cabíria. Por que será que também ela fascina? Ambos são a exceção ingênua da qual muitos debocham em meio à hostilidade do mundo. Mas é nessa exceção que sustentam suas ilusões com lirismo.

Forrest, ao se desiludir certa vez, sai correndo. Corre para a fuga, corre para a vida, impondo-lhe um sentido de percurso único e literal. E nesse percurso, em que larga tudo o que tinha pra trás, perde a conta do quanto já percorreu e deixou suas marcas por aí. Afinal, não é isso que importa. Não enquanto se percorre.

Sem dúvida, há pesos que não devemos carregar no subir e descer das ladeiras, nem mesmo nos planos da vida. A gente pode se livrar deles de muitas formas e não é simples se livrar somente do necessário. Às vezes, pra perder o necessário, a gente perde muito mais que o necessário, perde o que era pra ser bagagem do viajante. Arrumar a bagagem e dela cuidar requer sabedoria. Porque os excedentes, ainda que tenham presença sedutora, só fazem atrapalhar; e o que é necessário, urgente e possível, se vier a faltar, põe em risco a nossa dignidade. (Pausa para lembrar de um antídoto: “Viva a solidariedade e a amizade!”)

Quintana se livrou das ilusões e achou alívio. E quanto a mim, bastará delas me livrar pra encontrar também? Será que quero alívio? E em meio ao fato de que tudo é fugaz, não será fugaz também o alívio?

Do excesso certamente já me livrei, não porque quis. Só me resta saber arranjar o que me falta, montar essa bagagem. Em vez de alívio ou bem-estar, minha ambição agora, meu caro Quintana, é apenas essa: bem percorrer…

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comentários
  1. Anselmo disse:

    Hmmmm…

    Inteligente reflexão essa de ver até onde vai o pensamento de que, nas ladeiras da vida, esvaziar o saco de ilusões produz sensação de alívio – isso supondo que não hajam ilusões que, quando carregadas, paradoxalmente, diminuem a sensação de peso na existência. Além disso, não poderiam ser as ilusões que carregam, ou pelo menos, empurram as pessoas nas ladeiras acima que encontram na existência?

    O problema, acredito, não está nas ilusões em si. É preciso distinguir as ilusões benéficas daquelas que são prejudiciais a partir da razão desperta pelo instinto de auto-conservação. É esse instinto que prescreve o direito de ter as primeiras e de determinar a proibição das últimas, sendo, assim, nosso melhor médico e educador.

    Certamente a desconfiança é uma das coisas que naturalmente surgem com o despertar da razão, que, em nome da auto-conservação, determina a medida salutar de suspeita em relação a tudo e a todos – pois cada um também busca se conservar, podendo utilizar, para isso, se for necessário e a depender das circunstâncias, da destruição do outro. Nesse sentido, na minha opinião, olhando da perspectiva da saúde, nenhum lirismo vale o preço pago pelo sustento de uma ilusão maléfica, além do que, certamente, é lírica a forma de vida de quem conquistou a si mesmo depois de acolher corajosamente as verdades, ainda que terríveis e sem nenhum lirismo, de sua razão protetora.

    Realmente, não basta se livrar das ilusões, ou melhor, é necessário, com a razão do instinto de auto-conservação – a única que corta na medida certa – livrar-se das ilusões maléficas e, principalmente, guardar as benéficas. O alívio, certamente, não deve ser o objetivo, já que ele tem um sentido puramente negativo – ou seja, o sentido de retirar um peso. A única justificação legítima para a libertação das ilusões é, certamente – e repetindo mais uma vez -, a auto-preservação.

    Ah, e na minha modesta e parcialmente leiga opinião, os antidepressivos podem ser úteis para suprir uma necessidade de sistemas hormonais ou neuronais – como a de testosterona ou dopamina – que, devido a alguma degeneração cerebral ou a algum mecanismo vinculado a situações de estresse, inclusive a de desilusão, ficaram impossibilitados de satisfazer. Nessas situações, certamente é um apoio importante, mas que deve ser considerado apenas como tal, ou seja, como possibilitador de condições neuro-psico-fisiológicas no suporte a um processo de cura em andamento após o padecimento dos danos sofridos, evitando também os danos que podem advir de um estado de humor depressivo.

    E se precisar de um antídoto contra qualquer forma de envenenamento, Miss, não preciso nem dizer que tem a minha solidariedade e amizade.

    Um graaaaaande e saudoso beijo!

    Lord

    • adeuscafofo disse:

      Meu caro Lord, essas suas palavras beberam muito em Nietzsche, não?
      Acho interessante lembrar da questão da auto-preservação e você faz isso sempre muito bem. Às vezes, contudo, me vêm à cabeça os limites desse raciocínio, por exemplo diante de dilemas éticos (em que a vida individual edifica seu sentido nas/pelas relações comunitárias) ou mesmo diante de fenômenos que, apesar de certos discursos científicos tentarem provar o contrário, percebemos a mente, o corpo e o repertóprio existencial completamente imbricados.
      Enfim, são temas pra gente refletir, quem sabe tomando um vinho branco gelado de frente pra Bahia de Todos os Santos. Esse antídoto – solidariedade com amizade – me parece o melhor de todos! Obrigada pela sua dedicada participação.
      Beijo grande!
      Miss

      • Anselmo disse:

        Olá, Thaís

        Você perguntou se minhas palavras beberam em Nietzsche. Na verdade, Nietzsche teria discordado de mim porque, para ele, o uso da razão é o exercício de eliminação das ilusões, sejam elas benéficas ou maléficas. No entanto, ele reconhece, como você, o poder salutar das ilusões, e, para isso, propõe, em “Humano Demasiado Humano”, que separemos em nosso cérebro os domínios da ilusão e da razão, mantendo-os isolados um do outro.
        De todo modo, minha perspectiva não incompatibiliza necessariamente com a edificação do sentido da vida individual nas/pelas relações comunitárias , já que a vinculação social (amizade) é um meio para a auto-conservação – haja vista, inclusive, das recentes e divulgadas pesquisas científicas mostrando que pessoas com fortes vínculos sociais sofrem menos de depressão e possuem uma perspectiva de vida maior.
        Quanto ao limite do meu raciocínio em relação aos fenômenos nos quais se percebe a imbrincação entre mente, corpo e repertório existencial não saberia responder porque precisaria saber a quê você se refere concretamente. A princípio, eu não separaria mente, corpo e repertório existencial, pois, para mim, mente é um arranjo de corpos, e corpo é a unidade precária e sempre mutante de repertórios existenciais – mas, certamente, você saberá me esclarecer melhor seu ponto de vista entre uma taça de vinho e outra enquanto contemplamos os efeitos inebriantes do virar de costas da Terra em relação ao Sol na Bahia de Todos os Seres! 😉
        Um graaande beijo!
        Anselmo

  2. dju disse:

    um brinde oferecido
    por um desconhecido
    só um brinde…

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